Finanças

A hora e a vez da sanidade

REBANHO IMBATÍVEL: custo de produção aqui é 30% menor do que lá fora

É possível contar nos dedos de uma mão os segmentos produtivos que operam com a mesma competitividade que o da cadeia produtiva da pecuária. De fato, não foi por acaso que o País assumiu a liderança do competitivo mercado internacional de carnes. Detentor do maior rebanho comercial do planeta, o Brasil soube capitalizar muito bem esta importante vantagem comparativa, potencializando-a com outros diferenciais, como a fartura de seus recursos naturais – disponibilidade de terras para criação extensiva, água em abundância e sol, muito sol. Operando com apuradas técnicas de gestão, os pecuaristas brasileiros conseguiram multiplicar por seis as exportações brasileiras de carnes, que saltaram de US$ 800 milhões em 2000 para US$ 4,4 bilhões, no ano passado.

Na área de produção de carnes, de fato, o Brasil é virtualmente imbatível. O custo de produção dos pecuaristas nacionais é 30% menor do que o dos criadores europeus, americanos ou australianos. Uma distância significativa.

Foi esta inegável superioridade a principal razão do embargo imposto pela União Européia às importações da carne brasileira, a pretexto de irregularidades no programa brasileiro de rastreabilidade. Os europeus, com efeito, defrontamse com problemas sanitários bem mais sérios do que os conhecidos pelos brasileiros, indo da incidência de surtos de encefalopatia espongiforme bovina – a chamada “doença da vaca louca” – até a ocorrência de casos de febre aftosa, provocados pelo escape de vírus de laboratório encarregados de produzir vacinas contra a doença! O embargo europeu, sim, tem motivações essencialmente protecionistas. Essa é a verdade.

Tal situação, entretanto, não pode e não deve constituir pretexto para ignorar as notórias falhas na condução do programa de rastreabilidade e nas negociações entabuladas com os delegados da comissão de agropecuária da União Européia, encarregados de articular, com as autoridades brasileiras, os termos e condições para o embarque de carne à Europa.

“O embargo europeu é protecionista, mas podemos melhorar a rastreabilidade”

Uma comédia de erros foi registrada no episódio, a começar pelo número de fazendas creditadas para exportação. Como se sabe, o total de fazendas habilitadas pelo Ministério da Agricultura foi reduzido de 2.681 para cerca de 600, para finalmente ser fixado em 300 – o que atesta a precariedade do programa brasileiro de rastreabilidade.

As irregularidades do sistema de controle brasileiro, neste sentido, não podem ser ignoradas, pois corremos o risco de perder mercados duramente conquistados, não apenas no segmento da carne, mas de outros importantes elos da cadeia produtiva da pecuária, como o couro, que movimentou exportações da ordem de US$ 2,2 bilhões no ano passado, e a gelatina, que promoveu o ingresso de mais US$ 300 milhões.

É imprescindível, entretanto, a articulação de todos os elos da cadeia produtiva da pecuária na promoção de ações e programas que visem ao aumento dos padrões de controle sanitário. Espera-se, de outra parte, que as autoridades exerçam suas prerrogativas para intensificar a fiscalização sobre a ocorrência de irregularidades, como a atuação clandestina dos chamados “raspadores de couro”, dentre outras. Só assim será possível operar num mercado cada vez mais exigente em termos sanitários e num ambiente de crescente protecionismo comercial.

, Presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Gelatina