Finanças

À procura de clientes

As empresas que dão suporte ao agronegócio traçam planos para se aproximar dos produtores e oferecer crédito com facilidades

À procura de clientes

Carlo Sisto: “Queremos saber quais os planos dos produtores”, diz o presidente do banco CNH Industrial, que financia as três marcas do grupo CNH Divulgação

A  bordo de uma CR8090 da New Holland, a maior colhedeira de grãos fabricada no Brasil, o economista italiano Carlo Alberto Sisto, 42 anos, presidente do banco CNH Industrial, acompanhava no mês passado a colheita de soja na região de Sorriso (MT), onde visitou oito fazendas durante três dias. Como número um do braço financeiro do grupo que detém as marcas New Holland, Case e Iveco, foi a primeira vez que Sisto esteve com produtores rurais, em busca de respostas para o seu negócio: financiar máquinas.  “A função do banco é dar suporte às marcas do grupo; não fazer dinheiro com dinheiro, como é o propósito de um banco comercial”, diz Sisto. “Por isso, queremos saber quais são os planos dos produtores”. No ano passado, o banco CNH Industrial liberou R$ 1,14 bilhão em financiamento para o setor, ante R$ 1 bilhão em 2014. O banco ocupa a quarta posição entre as instituições que cedem crédito ao agronegócio, de acordo com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

Neste início de ano, assim como a CNH Industrial, as empresas que oferecem serviços e produtos para o campo precisam de informações sobre os humores do mercado. São elas que sustentam as análises realizadas por consultorias, reforçando os cenários traçados. Por isso, multinacionais não apenas do setor de máquinas, mas de defensivos agrícolas, sementes, fertilizantes e nutrição animal, entre elas Syngenta, Monsanto, MSD, DSM-Tortuga, estão com suas equipes de agrônomos e veterinários a postos, para medir qual o ânimo dos agricultores e pecuaristas. No caso do banco CNH Industrial, em cada uma das cerca de 120 concessionárias do grupo New Holland, por exemplo, há uma equipe de prontidão.  Alessandro Maritano, vice-presidente da montadora New Holland, diz que para a empresa o próximo mês é importantíssimo. “Abril é uma data para tomar pulso do mercado, onde começamos a enxergar um cenário”, diz ele. “O final da colheita da soja não significa que há um negócio fechado, mas, quando o produtor começa a fazer perguntas sobre novas tecnologias, significa que a análise financeira da propriedade foi realizada e ele já sabe se haverá alguma sobra de caixa.”  Maritano também coloca como um sinalizador de mercado o comportamento dos produtores na Agrishow, também em abril, a maior feira brasileira de máquinas e tecnologias agrícolas, evento realizado há 22 anos em Ribeirão Preto (SP).

A disputa pela preferência do consumidor tem sido acirrada. O setor de máquinas vem desacelerando nos últimos dois anos, com 8,5 mil unidades comercializadas em 2013, ante 4,5 mil em 2015. “Para os tratores, ocorre o mesmo cenário de retração, assim como caminhões, máquinas para construção e automóveis”, diz Maritano. “Mas, estamos atentos para que o cenário político do País não nos paralise também.” De acordo com o executivo, as taxas de juros do Moderfrota, de cerca de 7,5% ao ano, ainda são bem vantajosas na comparação com a Selic, que é de 14,25%.

Na suíça Syngenta, multinacional de defensivos agrícolas, a oferta de dinheiro mais barato ao produtor passa por uma parceria construída com o Banco do Brasil. No mês passado, a empresa conseguiu uma linha de crédito rural de R$ 200 milhões, na qual ela dá o aval para o financiamento, com a emissão de Certificados de Recebíveis do Agronegócio (CRA).  O gerente de Soluções Financeiras da Syngenta, Jonatas Couri, afirma que os recursos podem ser utilizados no custeio da produção e na comercialização de produtos agropecuários. “Com a retração da economia, o crédito rural se tornou mais escasso”, afirma Couri. “Buscamos esse convênio para garantir aos produtores que planejam seus negócios um canal aberto de crédito.” 

Para dar conta da tarefa, a subsidiária possui uma equipe de campo composta por 650 engenheiros agrônomos e uma rede de 400 distribuidores espalhados pelo País.  Com isso, não há necessidade do produtor se deslocar até uma agência do Banco do Brasil. “É a equipe da Syngenta que faz todo o processo burocrático”, diz Couri. De acordo com o executivo, a empresa tem procurado alternativas visando minimizar o que ocorreu no ano passado, quando os bancos decidiram não aumentar seus portfólios de crédito agrícola. “Por isso, a Syngenta tem estruturado de forma crescente as emissões de CRAs”, afirma Couri. “A operação abre uma via de crédito direto com o mercado de capitais e ajuda a manter saudável o balanço contábil do produtor”.  Mas, o mercado aponta que não será fácil manter-se em 2016.  Os dados sobre o comércio de defensivos agrícolas de 2015 ainda não foram fechados, porém, no final do ano passado, a previsão do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Defesa Vegetal (Sindiveg) era fechar o período com uma queda de 23% na receita em dólar, para US$ 9,6 bilhões. Caso os números se confirmem, será a primeira queda desse setor, desde 2009.