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Agrofinanças

O presidente Lula anunciou o maior plano de safra da história, mas a forma que os recursos estão distribuídos gera dúvidas entre produtores

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A salvação da lavoura?

Há dez anos, o produtor Rodolfo Vaz de Carvalho, de Bela Vista (MS) vive com um olho na lavoura e outro no calendário. Além da preocupação com os períodos de plantio e colheita, ele monitora atentamente a data em que receberá do Banco do Brasil a sua aprovação de financiamento. Isso porque 800 dos seus seis mil hectares de soja e milho safrinha são plantados com crédito do Plano Agrícola e Pecuário do Governo Federal. “O resto eu planto a partir de parcerias com empresas”, conta ele, que faz parte da classe média rural e, segundo o regulamento, pode financiar no máximo R$ 275 mil. “Esse valor é muito aquém do que precisamos para crescer”, diz ele. Anunciado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva na segunda- feira 7, o plano para a safra 2010/2011 é considerado o maior da história em volume: R$ 100 bilhões para o crédito empresarial e R$ 16 bilhões para a agricultura familiar. O primeiro montante é 8% maior do que na safra passada. Já o segundo teve um acréscimo de 23% em relação ao período anterior. “O valor cresceu quatro vezes e meia em sete anos”, disse o presidente no evento de lançamento.

Do total disponibilizado para o financiamento empresarial, R$ 75 bilhões são para custeio e comercialização da safra, enquanto R$ 18 bilhões são para os outros nove programas, com juros entre 6,25% e 9,5% ao ano. Para o Programa Nacional de Agricultura Familiar (Pronaf) serão R$ 16 bilhões, com juros de 1% a 4% ao ano. Segundo Edílson Guimarães, secretário de política agrícola do Ministério da Agricultura, as taxas mais baixas facilitam o acesso dos produtores ao financiamento. “Com isso queremos contribuir para melhorar os ganhos deles”. Para a “classe média rural”, o Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor (Pronamp), antigo Projer, passou a oferecer R$ 5,65 bilhões de crédito para produtores cuja renda anual não ultrapassa os R$ 500 mil. Outra novidade é o Programa de Agricultura de baixo Carbono (ABC), que disponibilizará R$ 2 bilhões para financiar iniciativas na lavoura que contribuam para a redução dos gases do efeito estufa. Wagner Rossi, Ministro da Agricultura, explicou que o projeto deve auxiliar o Brasil a cumprir a meta assumida durante a COP 15, a de reduzir até 2020 entre 36,1% e 38,9% a emissão desses gases.”Essa pretende ser uma contribuição da agricultura para atingir essa meta.”

 

A salvação da lavoura?

Recursos: Agricultura Familiar, de Guilherme Cassel (à dir.), recebeu R$ 16 bilhões

Apesar da inovação, ter acesso a esse financiamento ainda é tarefa impossível, como conta Carvalho. Ele faz a integração lavoura-pecuária e o plantio direto há alguns anos, mas não consegue acesso ao crédito porque o banco não tem a normatização para liberar o benefício. “Espero que até o fim de julho isso já esteja disponível.” Apenas o Banco do Brasil faz a análise e liberação dos financiamentos, o que para muitos produtores só faz atrasar o acesso ao benefício. “A demora é tamanha que, quando o dinheiro sai, eu já paguei a conta a prazo e com altos juros”, queixa-se Carvalho. Ele explica ainda, que na maioria das vezes, o produtor só consegue obter parte do dinheiro que precisa. “Eles impõem uma série de condições, e o crédito é reduzido drasticamente.” Procurada pela reportagem de DINHEIRO RURAL, o BB, por meio de sua assessoria de imprensa, informou que não se manifestaria a respeito. De olho nesse filão do mercado, alguns bancos privados, como o Santander, já estudam o plano em uma tentativa de barganhar o direito à concessão de benefício, o que em tese facilitaria a vida do produtor rural.

Mas o avanço no volume de dinheiro não salvou o novo plano das críticas. Em nota, a senadora Kátia Abreu (DEM-TO), presidente da Confederação Nacional de Agricultura (CNA ), criticou a falta de melhores condições de crédito para a classe média rural. Para ela, este grupo não dispõe de demanda para negociar o custo de insumos e a produtividade não gera renda suficiente para cobrir os gastos com a produção.”Por isso é necessário estabelecer um novo modelo de financiamento para o setor, o que estamos propondo há muito tempo”, diz.

 

Programa

Recursos

Juros ao ano

O que faz

ABC

2

5,5%

Custeia iniciativas sustentáveis como plantio direto

Moderinfra

1

6,75%

Financia projetos de estrutura para armazenagem

Moderagro

0,85

6,75%

Conservação de recursos naturais

Propflora

0,15

6,75%

Plantio e recuperação de florestas

Produsa

1

5,75%

Recuperação de áreas degradadas

Prodecoop

2

6,75%

Auxílio e desenvolvimento das cooperativas

Moderfrota

1

9,5%

Modernização da frota de tratores

Pronamp

5,65

6,25%

Recursos para os médios produtores

Procap-Agro

2

6,75%

Recuperação de cooperativas pesqueiras

Custeio e Comercialização

75

6,75%

Auxílio com despesas de plantio, colheita e distribuição da safra

Agricultura Familiar

16

1 a 4%

Apoio a pequenas propriedades agropecuárias

Outros investimentos

8,35

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Inclui poupança rural, fundos constitucionais entre outros

Fonte: Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa)