Finanças

Água para a lavoura

Demanda por financiamentos para irrigação aumenta e mostra que tem fôlego para continuar crescendo

Água para a lavoura

Carlos Viana: “O agricultor está se precavendo de futuros problemas climáticos.” Divulgação

Embora as chuvas tenham voltado com grande intensidade, dando um respiro à agricultura nos últimos dois meses, as estiagens frequentes e cada vez mais longas nas principais regiões produtoras do País vêm deixando muitos produtores preocupados. Por isso, em áreas nas quais é possível fazer reserva hídrica, a procura por financiamentos para a implantação de sistemas de irrigação tem aumentado. Entre junho de 2014 e o mês passado, dados do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) mostram que já haviam sido homologados nesta safra 416 financiamentos para a aquisição de equipamentos. Do total de R$ 400 milhões de recursos liberados pelo governo federal, já foram utilizados R$ 234 milhões, um crescimento de 53% em relação a toda a safra 2013/2014. “A crise hídrica acendeu o sinal de alerta dos produtores”, diz Carlos Viana, chefe do departamento de gestão do crédito rural do BNDES. “O agricultor está se precavendo de futuros problemas climáticos.”

A facilidade de acesso aos financiamentos, aliada às baixas taxas de juros, animaram os agricultores a investir em irrigação. Atualmente, as linhas de crédito com condições mais vantajosas para as cooperativas e os produtores, com renda bruta anual superior a R$ 1,6 milhão, são oferecidas através do Programa de Incentivo à Irrigação e à Armazenagem (Moderinfra), do Ministério da Agricultura, por meio do BNDES. Com taxa de juro subsidiada de 4% ao ano (abaixo da inflação), o modelo dispõe de um limite de crédito de até R$ 2 milhões para empreendimentos individuais e de R$ 6 milhões para financiamentos coletivos. Segundo Viana, os dois modelos têm prazo total de quitação de 144 meses, com carência de até 36 meses para começar a pagar. “Esses financiamentos podem ser facilmente acessados pelos produtores”, afirma. Ainda nesta safra, até junho, há recursos disponíveis para todos os perfis de produtores em várias instituições credenciadas, entre elas Banco do Brasil, Caixa Econômica Federal, Bradesco, Itaú e HSBC.

Para os médios agricultores com renda anual de até R$ 1,6 milhão, que não são associados a cooperativas e não possuem parcerias com outros produtores para acessar o Moderinfra, a saída é o Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural (Pronamp). Embora a taxa de juros seja mais elevada, de 5,5% ao ano, ela é fixa e tem carência de 36 meses, com prazo de pagamento de 96 meses. “O Pronamp é indicado para produtores que querem fazer pequenos investimentos”, afirma Viana.

Na agricultura familiar, o incentivo à irrigação acontece por meio do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf). O acesso a essa linha pode ser feito por produtores com renda anual bruta familiar de até R$ 360 mil. As taxas de juros são de 2% ao ano no máximo, com prazo de até 180 meses para a quitação, de acordo com a linha contratada. Em São Paulo, Estado que se recupera da pior crise hídrica de sua história, os produtores familiares ganharam no mês passado uma nova linha de crédito de R$ 60 milhões, com juros subsidiados para a modernização dos sistemas de irrigação. Segundo o governador Geraldo Alckmin, serão beneficiadas propriedades rurais dos municípios de Biritiba Mirim, Mogi das Cruzes, Salesópolis e Suzano. Cada agricultor pode acessar um crédito de até R$ 240 mil, com carência de um ano e prazo de seis anos para a quitação com taxa zero. “A ideia é que os produtores substituam os equipamentos antigos”, disse Alckmin, no lançamento do programa.

Hiran Medeiros Moreira, diretor executivo da Irriger, empresa que faz consultoria e prestação de serviço em gerenciamento da irrigação, de Uberaba (MG), diz que as taxas de juros mais atrativas têm levado os produtores a fazer a conta dos ganhos com a compra de equipamentos. “Isso explica o crescimento por financiamentos nos últimos três anos”, diz Moreira. “Desde 2012, a venda de equipamentos tem ficado acima de 30% ao ano.” Mas o mercado poderia crescer ainda mais.

O Brasil possui um potencial de 30 milhões de hectares de terras irrigáveis. Atualmente, a área regada chega a apenas 5,5 milhões de hectares nos quais há algum sistema de irrigação implantado, seja por sistema de bomba ou mangueiras. Desse total, cerca de 1,2 milhão de hectares são irrigados com 18 mil pivôs centrais, o tipo de equipamento mais demandado por grandes fazendas. Os dados são de um estudo da Embrapa e da Agência Nacional de Águas (ANA), divulgado no mês passado (confira os detalhes na pág 6). Para João Rebequi, presidente da Valmont no Brasil, empresa fabricante de pivôs centrais, a tendência é que o setor continue crescendo nos próximos anos. “O Brasil está descobrindo o potencial de uso da irrigação”, diz. “Se a macroeconomia do País melhorar, a expansão do segmento será ainda maior.”