Finanças

Aquecendo os motores

A venda de máquinas e implementos agrícolas cresce no Sul do País e anima as empresas do setor

Aquecendo os motores

Volta ao mercado: para Alessandro Maritano, da New Holand, produtor deve retomar investimentos Divulgação

Ao lado do filho Nathan, o produtor Adelar Gasparin, do município de Garruchos (RS), estava orgulhoso e sorridente quando posou para foto ao lado, mesmo sob o sol escaldante para os padrões do inverno gaúcho do início do mês de setembro. O motivo? As suas novas aquisições: um trator e uma colhedeira, nos quais investiu R$ 900 mil. As máquinas foram financiadas no banco da fábrica da Massey Fergusson, uma das marcas do grupo americano AGCO. “Os maquinários que tínhamos estavam defasados”, afirma Gasparin. “Além disso, estou aumentando a área de plantio e por isso foi necessário investir.” Na safra que está começando a ser plantada, ele pretende cultivar 1,6 mil hectares de soja, trigo, aveia e milho, 200 a mais que na safra anterior.

Assim como ele, outros agricultores aproveitaram a 39ª Exposição Internacional de Animais, Máquinas, Implementos e Produtos Agropecuários (Expointer), tradicional feira realizada entre os dias 27 de agosto e 10 de setembro, em Esteio (RS), para fechar negócios no valor de R$ 1,7 bilhão. A alta de 12,9% ante o ano passado foi comemorada por fabricantes de máquinas e equipamentos, como tratores, colhedeiras, plantadeiras e pulverizadores. “Os relatos que tenho do setor são bem animadores”, afirma Cláudio Bier, presidente do Sindicato da Indústria de Máquinas e Implementos Agrícolas do Rio Grande do Sul (Simers). “Algumas fábricas que estavam paradas já voltaram a trabalhar com 80% da capacidade.” Segundo dados da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), as indústrias do setor amargaram uma queda de 22% nas vendas, no acumulado de janeiro a agosto, com 25,6 mil unidades negociadas no período. Atualmente, 66% dos equipamentos agrícolas fabricados no Brasil saem do Rio Grande do Sul.


Renovação:o produtor Adelar Gasparin e o filho Nathan comemoram o investimento em novas máquinas

A empolgação com o comércio gaúcho na safra que se inicia é um termômetro também para o setor financeiro. Praticamente todas as transações são fechadas por meio de financiamento nas linhas dos programas Finame Moderfrota e Pronaf Mais Alimentos do governo federal. Além dos bancos operados pelas fábricas do setor, o crédito aos produtores é concedido por instituições como o Banco do Brasil, o maior credor com R$ 610 milhões em negócios fechados na feira gaúcha, além de Bradesco, Santander, Sicredi, Caixa Econômica Federal e bancos de alcance regional, como Banrisul, BRDE e Badesul. De acordo com o  executivo Alessandro Maritano, vice-presidente para a América Latina da New Holand, marca que pertence ao grupo italiano CNH Industrial, o resultado da Expointer pode ser maior do que o anunciado após o seu término.  “Tivemos uma boa participação de público e negócios na feira”, afirma ele. “Mas ainda vamos esperar pelo resultado real, porque parte da efetivação dos negócios ocorre fora dela.” Em geral, muitos negócios iniciados no evento são fechados nos meses seguintes, quando as equipes de venda das fabricantes retornam ao campo. O executivo elenca indicadores de que a nova safra será mais positiva para o setor de máquinas. Entre eles está a situação política do País, mais definida, e os preços razoáveis das commodities, porém com o dólar mais favorável ao produtor. “Nos últimos dois anos, os investimentos pararam pela insegurança política e por medo de medidas que pudessem afetar a renda do produtor”, diz Maritano. “Agora, o cliente que segurou investimentos está voltando ao mercado.”

Para Rodrigo Junqueira, diretor nacional de vendas da AGCO, outros dois fatores permitem acreditar em uma retomada do mercado. Um deles é a expectativa de que não haja problemas climáticos nas áreas de produção, como ocorreu na safra passada. O outro é a melhora no Índice de Confiança do Agronegócio (ICAgro), apurado trimestralmente pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) e pela Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB). O índice chegou a 102 pontos no segundo trimestre do ano, ante 82 pontos no primeiro trimestre de 2015. “O índice não alcança este patamar desde o começo de 2014”, diz Junqueira. “Isso é uma referência importante.”

As fabricantes também devem aproveitar o momento para queimar estoques, principalmente de tecnologias que serão substituídas. A partir de 2017, as máquinas agrícolas sairão da fábrica com o motor de padrão europeu, um produto mais sofisticado e menos poluente que os motores utilizados atualmente. De acordo com Bier, do Simers,  a mudança pode elevar o preço de  modelos em até 10%. “Muitos produtores vão investir na compra de máquinas com o motor atual, que é mais simples e barato, assim como aconteceu quando essa mesma mudança passou a valer para os caminhões”, afirma Bier. “Talvez isso não seja suficiente para recuperar toda a queda das vendas nos últimos tempos, mas deve ajudar o setor a reduzir o prejuízo.”