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As empresas digitais de e-commerce invadem o espaço das corretoras de olho em um mercado global de US$ 1,67 trilhão

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Na mão: as novas plataformas de e-commerce têm sido planejadas para ser ferramentas de negócios em larga escala no campo Divulgação

Comércio eletrônico pela internet, ou e-commerce, é quase todo voltado ao varejo. Roupas, livros e eletroeletrônicos fazem parte da cesta de compras de usuários de gigantescas lojas virtuais, como as americanas Amazon e Ebay, e a chinesa Alibaba. Mas não são somente elas que estão na corrida por uma fatia desse negócio. De acordo com a BigData Corp, uma assessoria especializada neste segmento de mercado, existem no Brasil cerca de 450 mil lojas virtuais. Essas empresas, de portentos mundiais a empreendimentos quase caseiros, foram criadas visando oportunidades em um setor que no ano passado movimentou globalmente US$ 1,67 trilhão. O futuro é ainda mais promissor: a previsão é crescer 81% até 2018, alcançando US$ 3 trilhões, de acordo com a consultoria alemã Statista. No Brasil, o agronegócio também não está fora dessa corrida pelo mercado de e-commerce. Cada vez mais, a internet vem se tornando uma aliada no comércio de produtos, como soja, milho, algodão, leite, sorgo, cana-de-açúcar e etanol. “Chegou a hora de darmos início à revolução digital no agronegócio”, diz o economista Francisco Lavor, 66 anos. Ele é o acionista majoritário do grupo paulistano União, especializado em consultoria tributária, que há cerca de três anos se juntou ao também economista Sérgio Barroso, 65 anos, para criar a plataforma digital Central Brasileira de Comer-cialização (CBC Negócios). A plataforma de e-commerce, que está aberta há sete meses, não é a única nesse nicho de mercado.  Desde janeiro, também passou a atuar no País a Agroplace, subsidiária da South Latam Trading Company, holding sediada em Londres.  Nos últimos seis meses, a plataforma movimentou cerca de € 20 milhões em produtos beneficiados e commodities agrícolas e deve fechar o ano com operações da ordem de € 100 milhões.

A diferença das plataformas digitais criadas mais recentemente para operar o agronegócio é que elas não estão interessadas em miudezas, como a gigante Alibaba, por exemplo, na qual é possível comprar cargas mínimas de soja, entre as milhares de produtos eletrônicos, joias e calçados. Como ferramenta financeira no campo, o negócio dessas companhias que vêm surgindo passa pela escala, para vender em toneladas. Eduardo Fogaça, diretor comercial da CBC Negócios, diz que o maior objetivo da ferramenta são as transações mais robustas. “Para este ano, o primeiro em atividade, estimamos a comercialização de 200 mil toneladas pela plataforma”, afirma ele. “Isso significa encerrar 2016 com R$ 230 milhões em operações de compra e venda.” A meta, de acordo com Fogaça, é crescer a uma taxa acima de 10% nos próximos cinco anos, porcentual muito próximo do que vêm ocorrendo para o total do e-commerce no País. Neste ano, o setor deve registrar R$ 44,6 bilhões de faturamento, 15% acima de 2015, de acordo com o relatório anual WebShoppers, elaborado pela E-bit/Buscapé.


Parceria: Barroso (de pé), ex-presidente da Cargill, e Fogaça esperam movimentar R$ 230 milhões em operações de compra e venda de commodities agrícolas

Empresários como Sérgio Valentim, presidente da Moinho Três, em Pinhal (RS), estão na mira das plataformas digitais. “Esse tipo de transação pode ser muito interessante para a agroindústria”, diz ele, que está cadastrado na CBC Negócios há cinco meses. Mas, ainda hoje, quase toda a matéria-prima é comercializada através de corretoras tradicionais. O moinho faturou R$ 18 milhões no ano passado, com o processamento de cerca de 25 mil toneladas de trigo e milho. “Ainda estamos aprendendo a lidar com a novidade”, afirma Valentim. “Mas já dá para ver que o serviço on-line pode de fato reduzir os custos da negociação”.


POTENCIAL:
as plataformas digitais estão de olho em empresas que negociam milhões de toneladas de soja como a Amaggi e Cargill

Nas plataformas digitais, os encargos do negócio ocorrem no fechamento de uma transação, assim como na corretagem tradicional. A diferença financeira do digital está na conta menos salgada. De acordo com Fogaça, o mercado tradicional de corretagem de grãos e cereais cobra 1% do valor comercializado. “Nós garantimos que o custo do nosso serviço seja a metade do que é cobrado pelas corretoras da região do negociante”, afirma ele. Assim, em uma negociação, por exemplo, de R$ 1 milhão, caberia à corretora R$ 10 mil no sistema tradicional, ante R$ 5 mil na plataforma on-line. No caso da CBC, essas negociações são asseguradas pelo sistema da CMA, multinacional brasileira desenvolvedora de infraestruturas de telecomunicação e de central de dados para bancos como o Bradesco e a Caixa Econômica Federal.


Referência:
“cada vez mais, o digital vai dinamizar todos os processos” Luís Anderson,CEO da Agroplace

Barroso, que faz parte do conselho da CBC Negócios e já foi presidente da americana Cargill por 35 anos, conhece os dois lados do balcão por ser também produtor rural em Avaré (SP), onde cultiva dois milhões de pés de café. Ele acredita que a tendência de grandes companhias é migrar em peso para as plataformas on-line. “O serviço de corretagem tradicional está diminuindo porque, além de mais oneroso, ele consome muito o tempo das corporações”, diz ele. A CBC Negócios não revela quem são os seus grandes clientes, por força de contratos de confidencialidade, mas o que as empresas de e-commerce cobiçam são operações, por exemplo, do porte de ADM, Cargill, Bunge e Amaggi. De acordo com Barroso, essas grandes empresas estão passando a utilizar as plataformas digitais não apenas nas operações de mercado futuro da originação, mas também no chamado mercado spot, que opera com mercadoria disponível.

O espaço de crescimento é gigantesco. Somente pela Amaggi, controlada pela família do Ministro da Agricultura Blairo Maggi, passam anualmente 6,5 milhões de toneladas de grãos. Já a americana Cargill responde por cerca de 9,5 milhões de toneladas de grãos, por ano, no País. Luís Anderson, CEO da Agroplace, também aposta nesse movimento. Atualmente, a empresa conta com 1,6 mil clientes cadastrados, dos quais 300 são brasileiros. “Uma das vantagens para o Brasil é que a ferramenta também pode facilitar as importações, que sempre enfrentaram mais burocracias do que as exportações”, afirma Anderson. “Cada vez mais,o digital vai dinamizar todos os processos para aqueles que estiverem negociando no mercado”.