Finanças

Crédito farto

O agronegócio nunca teve tanto dinheiro disponível para investir na lavoura

Nunca antes na história do agronegócio brasileiro os produtores tiveram acesso a tanto crédito. O Plano Safra 2012/2013, encerrado no fim de junho, superou, pela primeira vez, a casa dos R$ 100 bilhões. Além do volume recorde, os empréstimos aos produtores superaram as projeções do governo, algo que não ocorria desde a safra 2007/2008. “O agronegócio está em plena expansão, os produtores estão investindo cada vez mais em tecnologia e precisam de crédito”, diz o secretário de política agrícola do Ministério da Agricultura, Neri Geller. No total, foram liberados R$ 122,68 bilhões em financiamentos, valor 6,4% superior ao orçamento previsto, de R$ 115,25 bilhões, segundo os resultados divulgados pelo Ministério da Agricultura na segunda quinzena de julho. E o que é melhor: o secretário acredita que o dinheiro continuará jorrando. “Houve uma desburocratização do acesso ao crédito e os programas estão mais consistentes”, diz.

Otimista em relação ao Plano Safra 2013/2014, iniciado em 1° de julho, Geller acredita que os financiamentos podem ultrapassar a previsão dos R$ 136 bilhões. “Temos juros menores e o risco de inadimplência é baixo”, diz. “Os produtores vão aproveitar essa oportunidade.” Acompanhando a tendência, o Sicredi, cooperativa de crédito que conta com mais de 2,3 milhões de associados, também espera oferecer um volume recorde de recursos. A cooperativa prevê realizar mais de 165 mil operações com R$ 7,6 bilhões, dos quais R$ 1,3 bilhão é proveniente do BNDES. Isso significa um aumento de 15% em relação aos R$ 6,6 bilhões financiados pela cooperativa no último Plano Safra, em mais de 162 mil operações.

Segundo Marilucia Dalfert, coordenadora de desenvolvimento de crédito rural do Sicredi, a instituição espera aumentar o número de associados e se fortalecer como um dos maiores agentes de crédito rural do Brasil. “O agronegócio responde por 45% da carteira de crédito do Sicredi”, diz. Os R$ 7,6 bilhões serão direcionados para custeio, comercialização e investimento, principalmente por meio das linhas do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) e do Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural (Pronamp). Para a coordenadora, o diferencial para o crescimento da cooperativa de crédito é o relacionamento com os clientes. “O produtor não vai ao?Sicredi apenas para tomar dinheiro”, diz. “A gente é muito próximo do associado. Ele é dono da empresa e participa ativamente das decisões da cooperativa.”

Em julho, o Sicredi foi premiado pelo Woccu – o Conselho Mundial de Cooperativas de Crédito –, em Ottawa, no Canadá, por ter sido a instituição que registrou o maior crescimento percentual de ativos. O Sicredi, que conta com uma participação minoritária do grupo cooperativista holandês Rabobank, fechou 2012 com um total de ativos de R$ 31,3 bilhões, um incremento superior a 20% sobre 2011. Com 1,2 mil pontos de atendimento em 235 cidades de dez Estados brasileiros, o Sicredi é a única instituição financeira presente em municípios como Alto Boa Vista (MT), Bom Sucesso do Sul (PR) e Protásio Alves (RS), cuja atividade econômica depende basicamente do agronegócio. Segundo Marilucia, enquanto a oferta de crédito só aumenta, de março de 2012 a março deste ano o índice de inadimplência do crédito rural caiu de 0,65% para 0,22%. “Isso mostra a consistência do nosso trabalho. É uma operação feita dentro de casa”, diz. “O associado deseja o sucesso da instituição, por isso valoriza e leva a sério a questão do crédito.”

Esse modelo agrada a produtores como o gaúcho Reinaldo Melchior, 62 anos, que produz soja e milho na Fazenda Nossa Senhora Aparecida, com 418 hectares em Lucas do Rio Verde (MT). Associado do Sicredi desde 1994, Melchior vai contratar R$ 300 mil, com juros de 4,5% ao ano, para a compra de seis mil quilos de sementes, 75 toneladas de adubos e defensivos agrícolas. “Ser cooperativista é a solução mais adequada e vantajosa para o agricultor”, afirma. “A cooperativa é dirigida por um produtor aqui da região, que entende a gente, e não por um tecnocrata.” Na última safra, Melchior também obteve crédito de R$ 300 mil e produziu 1,2 mil toneladas de soja (20 mil sacas de 60 quilos) e 2,4 mil toneladas de milho (40 mil sacas). “Outra vantagem é que os lucros do Sicredi são repassados aos cooperados”, diz. No fim do ano passado, ele teve um retorno de cerca de R$ 12 mil.