Finanças

Escambo volta com força

As operações de "barter" ganham força nas negociações rurais e se transformam em alternativa para produtores e revendas fugirem das oscilações de preços

O produtor rural que chegar aos balcões do grupo SinAgro, distribuidor de produtos agropecuários baseado em Primavera do Leste, um dos principais celeiros agrícolas de Mato Grosso, poderá comprar seus implementos agrícolas, como defensivos, adubos e sementes – itens necessários para o plantio –, e, como forma de pagamento, utilizar na transação os próprios grãos que produzir. Ou seja, o produtor tem na sua colheita uma moeda de troca. A prática, que faz lembrar o velho escambo do início do relacionamento mercantil entre os índios e os colonizadores europeus, no País, hoje é uma tendência financeira crescente e sustentável para produtores e fornecedores do agronegócio. Essas negociações, chamadas de “barter” (palavra inglesa que significa permutar), implicam a antecipação da venda de insumos para os produtores rurais, que, por meio da emissão de uma Cédula de Produto Rural (CPR), se comprometem a entregar determinado volume de produção correspondente aos valores dos insumos recebidos. “A operação oferece uma segurança muito maior que o uso de moeda”, afirma o sojicultor Mário Darci, que cultiva 800 hectares por ano no municípío. “Posso me planejar melhor financeiramente, pois, ao comprar os insumos em troca de produção, sei exatamente quanto da lavoura será destinado para pagar as contas.” As operações de barter se tornaram uma espécie de salvação, não só de alguns produtores rurais que se viam em dificuldade para obter crédito e adquirir insumos, mas também de empresas fornecedoras e distribuidores do agronegócio, que viram nelas uma nova forma de comercializar seus produtos, sem risco de calote no pagamento.

 

Sem calote: Botelho (à esq.) diz que as operações evitam a descapitalização do produtor. Giannasi garante que os riscos são mínimos

 

“Os riscos são mínimos”, diz o gerente de originação da SinAgro, Marcelo Giannasi, que há sete anos trabalha com essa modalidade de comercialização. Segundo ele, no Centro-Oeste em geral, as perdas da lavouras ficam por conta de condições climáticas adversas, que são quase inexistentes na região e, por isso, tratadas como exceção. “Quando elas ocorrem, as negociações são avaliadas, caso a caso”, diz Giannasi. O negócio é tão seguro que nas vendas a prazo o barter corresponde ao total de contratos realizados pela empresa. De acordo com Giannasi, entre 2008 e 2011, essa alternativa de negociação só fez crescer. No caso da cultura da soja, o aumento do volume de negócios foi de 55% no período. No milho, o crescimento chegou a 77%.

Outra empresa que pratica o barter em Primavera do Leste é a Agrológica. Segundo Henrique Botelho Lima, diretor da empresa, essa é uma forma de hedge bastante segura para o agricultor. “E com a vantagem que todos se protegem da oscilação de preços de mercado”, diz. Ele explica que o produtor, por não vender sua safra toda num mesmo período nem precisar vendê-la em momentos desfavoráveis de mercado, para sanar dívidas, melhora o preço médio de comercialização da produção, sem se descapitalizar para comprar insumos à vista. Atualmente, as operações de barter são mais praticadas em áreas de cultivo de soja e milho, mesmo porque são os locais nos quais essa prática é realizada há mais tempo e o volume de negócios é maior. “Em nossa empresa, 60% dos contratos giram em torno da operação”, diz Botelho Lima.

O consultor em gerenciamento de risco da INTL FCStone, em Campinas (SP), Marcelo Bartholomeu, aponta que nos últimos anos essas operações cresceram no mercado, em razão da diminuição de riscos de inadimplência e da maior fidelização dos clientes às empresas. Outro fator, segundo Bartholomeu, é que o grão de soja se mantém com preço em alta, assim como o milho. “Nos últimos três anos, a escalada de preços das commodities, atrativa para o produtor, se tornou também interessante para as empresas que praticam barter”, diz. Entre elas estão as tradings, que participam de uma triangulação: são elas que pagam os fornecedores com parte do que devem aos produtores que lhes entregam a safra. “Não é de hoje que grandes empresas, como a Syngenta e a Basf, também participam desse tipo de operação, por meio das tradings”, diz Bartholomeu.

 

 

Forma de pagamento: Cédula de Produto Rural – CPR