Finanças

Gestão na ponta do lápis

Numa atividade em que os ganhos estão nos detalhes, manter um controle eficiente dos gastos e receitas pode garantir os lucros em tempos de custos elevados

CARLOS BLANC: prancheta e calculadora são ferramentas de trabalho

Que o produtor brasileiro é bom de lavoura, isso não é mais segredo. No entanto, essa mesma expertise não se repete quando o assunto é a gestão da propriedade. Muitos agricultores ainda não possuem uma administração organizada e com isso estão perdendo o lucro da produtividade. Segundo o consultor do Sebrae na área de gestão, Flavio Casarolli, em muitos casos a perda com gastos que passam despercebidos pode chegar a até 15% do faturamento da propriedade. Para fugir desses prejuízos, especialistas recomendam um conjunto de ações que envolvem planejamento e análise. Algo que não requer tecnologia, nem grandes investimentos. Mas sim organização e disciplina.

Casarolli explica que dois aspectos são básicos para começar a organizar as contas. O primeiro passo é desenvolver um orçamento de fluxo de caixa, em que fique claro qual a verba que a propriedade dispõe para compras de insumos e pagamento de despesas. “Assim fica mais fácil administrar o fluxo de caixa.” O segundo é a implantação do controle de gastos, que deve verificar quais são os custos de desembolsos do produtor. Ou seja, quanto se paga em insumos como adubo, sementes, defensivos, etc. O próximo passo é registrar os gastos com mão-de-obra. “Esse item se diferencia muito, pois podem ser trabalhadores temporários, fixos ou eventuais e há os casos em que é a própria família que toca a produção”, ressalta.

Para o professor da Fundação Getulio Vargas e diretor da Associação Brasileira do Agribusiness (Abag), Luis Antonio Pinazza, outro ponto importante é o custo administrativo, que envolve, principalmente, o pagamento de impostos e manutenção de maquinário. De acordo com o professor, com esses dados registrados o produtor consegue ver mais claramente quais são seus custos fixos, que envolvem a depreciação da máquina, imóvel, remuneração da terra, remuneração do produtor etc. E os seus custos variáveis, relativos principalmente a insumos e mão-de-obra. “O agricultor passa a ter um banco de dados histórico, podendo fazer a média de seus gastos e utilizar isso como parâmetro para sua produção. Quando o gasto ficar maior do que a média é hora de reduzir.” Ter esse tipo de organização é crucial para se saber quando a atividade está ou não sendo lucrativa. “Através dos dados coletados chegase ao real custo operacional. Se o ganho que se tem com a produção não cobrir os custos fixos, pode-se quebrar no curto prazo”, pondera.

Adepto dessa prática, desde que iniciou sua produção de hortaliças orgânicas, no município de Itapecerica da Serra (SP), o agricultor Carlos Blanc mantém um minucioso controle da sua produção. Na sua pequena propriedade de três hectares, as contas ficam registradas em uma planilha eletrônica. Nela são verificados gastos com sementes, adubos, substratos vegetais, mão-de-obra, transporte, manutenção, contas a pagar e a receber, etc. A atualização no que se refere à produção é feita mensalmente e o controle da comercialização acontece semanalmente. Com os dados em mãos ele faz um balanço semestral e consegue verificar seus custos fixos e variáveis, fazer um planejamento da produção e encontrar maneiras de reduzir gastos. “Isso me ajudou a ter um planejamento estratégico. Como minha área é pequena, preciso extrair o máximo dela.” Outra prática adotada por Blanc é fazer cotação para compra de seus insumos, pesquisando em vários fornecedores e levando em conta critérios de qualidade, preço e custo de transporte. “Na compra da torta de mamona, usada como adubo orgânico, já encontramos diferença de 10% no preço”, afirma.