Finanças

Lucro na Mata

Lucro na Mata

Fernando Donasci

Descubra como faturar alto explorando, de forma ambientalmente sustentável, as áreas de floresta da sua fazenda

 

Em tempos em que a preservação do meio ambiente se tornou um dos pontos mais delicados para o avanço da agricultura brasileira, nenhum produtor que se preze está disposto a derrubar áreas de sua propriedade que não estejam dentro dos limites estabelecidos em lei, seja por consciência ambiental, seja por temor das pesadas multas que isso pode gerar. Dentro dessa realidade, o melhor mesmo é encontrar formas de lucrar com a mata em pé. Algo possível com a adoção de práticas de manejo e implantação de gestão florestal que, em alguns casos, pode trazer uma renda até maior do que a obtida com a cultura tradicionalmente plantada.

Esse modelo agrícola ganhou um empurrão a mais com uma nova linha de financiamento anunciada pelo governo e que liberará, a partir da safra 2010/2011, recursos da ordem de R$ 2 bilhões para práticas conservacionistas adotadas nas propriedades rurais. A linha de crédito faz parte do programa Agricultura de Baixo Carbono e pode ser usada para investimentos em recuperação de áreas de pastagens, sistemas de integração lavoura-floresta e lavourapecuária- floresta e na recomposição de áreas de preservação permanente, entre outros. Práticas que fazem da floresta não apenas um bem para a natureza, mas um ótimo negócio para os produtores.

Um dos exemplos de maneiras de lucrar com a área de preservação é o chamado plano de manejo. “Trata-se de um modelo de extração de madeiras, feito de forma estudada e sustentável, que ajuda na regeneração da mata nativa”, explica o diretor da Triunfo, Jandir Sandin. Há dez anos, sua empresa está instalada no Estado do Acre onde atua com os produtores fazendo o corte e a comercialização da madeira. “As árvores extraídas nesse modelo geram uma madeira certificada pela Forest Stewardship Council (FSC), que estabelece uma série de normas”, conta o empresário.

De acordo com Sandin, para adequar a fazenda ao plano de manejo é preciso seguir alguns passos. O primeiro deles é a realização do georeferenciamento da área. Com esses dados é gerado o chamado inventário florestal da propriedade, que indica a quantidade de árvores que podem ser exploradas naquela área. Essas informações permitem o pedido da licença ambiental e o início da extração.

“Na prática o produtor cede a área para nossa empresa explorar a madeira e recebe um percentual sob essa produção.” Para se ter ideia, dependendo da quantidade de árvores e do seu diâmetro, o lucro pode chegar a R$ 1 mil por hectare.

Madeiras do bem:

o diretor da Triunfo, Jandir Sandin, diz que modelo para explorar madeiras certificadas pode gerar ganhos para produtores rurais

 

 

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Ouro na floresta

R$ 2 bilhões é o montante da linha de crédito do governo para ações conservacionistas

R$ 1 mil é a rentabilidade média por hectare de quem adota o plano de manejo em sua área

R$ 800 é o valor do investimento médio, por hectare, para recuperação planejada de APP’s

A maior parte dessa madeira é exportada, principalmente para a União Europeia. A Triunfo é uma das maiores exportadoras do País, com um volume de 36 mil metros cúbicos de madeira por ano. “Pretendemos aumentar nossa produção, que hoje vem 95% de áreas de manejo da agricultura, nos próximos anos. É algo muito atrativo para os produtores.”

Uma outra forma que vem atraindo produtores é a recuperação planejada das reservas legais ou áreas de preservação permanente. Nesse modelo, o produtor estabelece o plantio de árvores nativas, intercalando com o plantio de variedades comerciais, como o eucalipto. “Em cada ciclo de cinco a dez anos, ele pode cortar uma quantidade de eucaliptos, que oferece uma boa rentabilidade”, avalia o chefe-geral da Embrapa Florestas, Helton Damin da Silva. Segundo o pesquisador, a prática é indicada principalmente para produtores da região Centro-Oeste, onde a exploração da área nativa já atingiu seu limite. “É uma forma de aliar a recuperação dessas áreas com possibilidades de negócios”, ensina Silva, que explica ainda que a própria mata nativa também pode oferecer ganhos. “O ideal é replantar árvores nativas frutíferas. Com elas se pode criar um banco de sementes e comercializálas para áreas produtoras de frutas, como a região Nordeste. Temos estudos que avaliam a rentabilidade dessa prática em até R$ 1 mil por hectare”, diz. A barreira está nos investimentos, que podem variar de R$ 800 a R$ 1.000 por hectare. “Na maior parte dos casos, os produtores fazem parcerias com empresas, que exploram as sementes ou o eucalipto. Dessa forma, dividem-se os custos e o projeto se torna mais viável.”

Há ainda a possibilidade de negociar o crédito de carbono das áreas de florestas, mas, segundo Silva, é algo que precisa ser mais bem ajustado. “Esse é um mercado que ainda não está maduro. Existe muita burocracia, o que impede que boa parte dos produtores tenha acesso a esse tipo de venda”, ressalta. “Mas é algo que pode ser interessante no futuro, já que a demanda por esses créditos é crescente”, avalia.