Finanças

O preço da terra boa

A queda no preço dos fertilizantes pode impulsionar a recuperação de áreas degradadas no País e ajudar na expansão agrícola

O preço da terra boa

Solo bom: com redução de 280% no preço do adubo, recuperar áreas pode ser um bom negócio

Nos últimos anos a recuperação de áreas degradadas era um assunto quase proibido nos campos brasileiros. Isso por uma simples razão: diante da escalada nos preços dos fertilizantes, principal insumo para melhoramento do solo, a medida era economicamente inviável. Segundo levantamento da Confederação Brasileira da Agricultura e Pecuária (CNA), o País dispõe de cerca de 70 milhões de hectares que podem ser convertidos para a agricultura. Uma abundância de terra que reforça o discurso de que o Brasil pode expandir sua área plantada, sem precisar derrubar uma árvore sequer. Esse é, portanto, o grande trunfo para o crescimento sustentável da agricultura do País. O problema é que para recuperar essas áreas, que hoje estão improdutivas, são estimados gastos de R$ 56 bilhões, nos próximos cinco anos.

“Muitos produtores comentavam que era mais barato ‘abrir’ uma área nova do que recuperar terras degradadas”, diz o analista da consultoria Agência Rural, Eduardo Godoy. Mas a boa notícia é que esse cenário começa a mudar. De vilão, o adubo passou a principal aliado para fazer da recuperação de áreas um bom negócio. “A estimativa é de que o custo médio para recuperar um hectare de terra seja de R$ 2.500 para áreas em que é possível fazer agricultura com plantio direto”, revela o técnico da coordenadoria ambiental e fundiária da Federação de Agricultura e Pecuária do Estado de Mato Grosso (Famato), Alexandre Dutra. Segundo ele, no caso da pecuária, o custo sobe para R$ 3.500 na a recuperação de pastagens, valores bem menores se comparados ao mesmo período de 2008.

Boa parte dessa redução no custo está ligada à queda no preço dos fertilizantes. Para se ter ideia, dados da Agência Rural mostram que o fertilizante fosfatado, que em maio de 2008 chegou a ser cotado no Paraná a US$ 1,6 mil, hoje está por US$ 420 a tonelada, em média – uma diferença de 280%. O cloreto de potássio, que em junho de 2008 custava US$ 1 mil a tonelada, hoje está saindo por US$ 500 a tonelada. “Os preços realmente tiveram uma queda abrupta, se acentuando nesse segundo semestre”, explica Godoy, que acredita que o momento é interessante para quem quer investir na melhoria do solo. “Do ponto de vista de custo, com certeza é algo atrativo.”

Outro fator que torna a recuperação de solo atrativa é a disponibilidade de crédito oficial. De acordo com o BNDES, existem linhas de financiamento exclusivas para recuperação de terras degradadas, com taxas de juros de 5,75% ao ano, que estão praticamente paradas. Do total de R$ 1 bilhão de crédito disponível, apenas R$ 80 milhões foram desembolsados, pouco mais de 8%.

Mesmo com o cenário favorável, o pesquisador da Embrapa Solos, Vinicius Bernites, afirma que o produtor precisa ter cautela na hora de decidir investir em recuperação de áreas. “Além do custo, é preciso analisar o que se vai plantar nessa área, levando-se em conta o preço dessa cultura e o tempo de retorno do investimento”, pondera. Além disso, Bernites diz que os fertilizantes são insumos que precisam ser bem gerenciados. “Os preços ainda estão acima da média histórica”, revela o pesquisador, que ressalta que a recuperação de terras será no futuro o melhor caminho. “Em algum momento teremos que tornar esses solos produtivos para continuar competitivos e atender às exigências ambientais.”