Finanças

Prejuízo debaixo da terra

Estudo demonstra que existem custos que passam despercebidos pelos produtores e podem comprometer o futuro da fazenda

Todos os anos, milhares de produtores “brigam” com a calculadora para tentar fechar as contas de sua propriedade e entender por que, mesmo com resultados aparentemente positivos, o volume de dinheiro em caixa não parece tão animador. A resposta para essa intrigante questão pode estar nos chamados “custos invisíveis”, que, como as raízes escondidas de uma árvore sugando os nutrientes do solo, comprometem a rentabilidade da fazenda. Um amplo estudo realizado pelo Centro de Pesquisa em Economia Aplicada (Cepea/USP), aponta um aspecto ainda mais alarmante desse problema. A má gestão desse tipo de custo pode tornar o negócio inviável a longo prazo e, o que é pior, sem que o agricultor perceba. “A maioria dos produtores não tem um controle rígido desses custos e só leva em conta os gastos básicos. Mas, se não houver um acompanhamento, o negócio não se sustentará no futuro”, alerta a pesquisadora do Cepea, Margarete Boteon. De acordo com a pesquisadora, os custos que passam despercebidos estão relacionados a itens como depreciação do maquinário, taxas de juros, gastos administrativos, retorno de benfeitorias, entre outros. “Quando o produtor adquire uma máquina não basta calcular o valor pago pelo equipamento. É preciso ter em mente o retorno financeiro que ela proporcionará durante sua vida útil”, exemplifica.

De olho nesse problema, o centro vem desenvolvendo um projeto que tem o objetivo de criar um protocolo de ações gerenciais, que o produtor deve realizar para garantir o futuro de sua fazenda. “Queremos disseminar as boas práticas de gestão no campo”, revela. Um dos principais itens desse “guia” ensina o produtor a calcular o custo anual de recuperação e renovação do patrimônio (Carp). Trata-se de uma estimativa com um nome que soa estranho aos ouvidos, mas que pode ser um grande aliado no gerenciamento da propriedade. O Carp é um cálculo que estima um valor mínimo para uma fazenda alcançar anualmente para permitir a substituição de seus ativos, como máquinas, equipamentos, manutenção da terra, entre outros. “Esse montante funciona como uma espécie de poupança, em que se estabelece um valor que a propriedade precisa ter para que se tenha dinheiro na hora de trocar equipamentos e fazer benfeitorias”, afirma Margarete. Na prática, o Carp serve para calcular o custo de renovação de qualquer bem que possa ser depreciado. “Por exemplo, se o produtor adquire uma máquina ele precisa saber qual é a taxa de depreciação desse equipamento e incorporar esse valor à sua planilha de custo total. Assim, depois de vários anos de uso, quando chegar o momento de trocar o equipamento, ele terá recursos disponíveis para essa operação”, diz.

A fórmula identifica se a propriedade é

sustentável economicamente a longo prazo

Esse mesmo cálculo se repete para uso da terra, benfeitorias e ampliação de instalações. “Se essa ‘poupança’ para renovação dos ativos não estiver sendo levada em conta, o patrimônio do produtor pode ficar comprometido. A atividade agrícola, só será economicamente sustentável ao longo dos anos, se o lucro obtido pelo produtor conseguir, ao menos, se igualar ao Carp”, ressalta Geraldo Santana de Barros, coordenador do Cepea e um dos responsáveis pelo desenvolvimento dessa fórmula. “Mas o ideal é que se consiga uma taxa acima desse cálculo, para ter uma rentabilidade mais satisfatória”, ensina.