Finanças

Tempo certo para inseminar

A IATF, técnica de inseminação artificial em tempo fixo, ganha adeptos na pecuária e deve movimentar acima de R$ 250 milhões, neste ano

 

Rebanho em mato grosso do sul: até o fim do ano, mais dez milhões de fêmeas utilizarão o novo método

 

Até três anos atrás, as 36 mil vacas nelore do rebanho do grupo Golin eram inseminadas de modo tradicional: quando entravam no cio, não importava o momento, elas eram levadas para o curral e lá recebiam o sêmen dos reprodutores. Durante as estações de monta, período em que se concentram as concepções – geralmente entre novembro e fevereiro – o curral virava um entra e sai de vacas que não acabava nunca. Mas, nas últimas três estações essa mão de obra toda para inseminar o rebanho acabou. O empresário Paulo Golin, controlador do grupo, decidiu implantar em suas duas fazendas de Goiás e em uma de Mato Grosso, a IATF, sigla para Inseminação Artificial em Tempo Fixo, uma técnica que nasceu na década de 1990 e que nos últimos anos vem ganhando escala na pecuária, em função da melhoria e da simplificação dos procedimentos de campo.

“Até o fim do ano, a previsão é de que a IATF cresça entre 20% e 25% nas fazendas, em relação a 2010”

Alexandre Lima, diretor da ABS Pecplan, em Uberaba

 

Na IATF, as fêmeas recebem hormônios sintéticos que levam à sincronização de todos os cios para um mesmo período, facilitando e agilizando o trabalho no curral. Assim, nas fazendas do grupo Golin, o que era feito durante os 120 dias da estação de monta, agora é realizado em duas semanas. No entanto, a técnica não está proporcionando apenas ganhos na eficácia da biotecnologia. Está mexendo com o mercado de sêmen no País. “Cada vez mais, a venda de sêmen de raças bovinas de corte está se concentrando no trimestre que vai de agosto a outubro, meses que precedem as estações de monta”, diz Tiago Carrara, gerente de mercado da central de inseminação Alta Genetics, de Uberaba (MG), e diretor da Associação Brasileira de Inseminação Artificial (Asbia), também com sede em Uberaba.

Em 2010, as empresas que comercializam material genético colocaram no mercado 10,4 milhões de doses de sêmen de raças produtoras de leite (4,4 milhões de doses) e de carne (6 milhões de doses), um recorde histórico na pecuária, segundo dados da Asbia. Para 2011 é esperado um incremento da ordem de 20% no comércio de sêmen bovino. “Para o primeiro semestre, a Asbia já anunciou que houve um aumento de 17%”, diz Alexandre Lima, diretor da ABS Pecplan, em Uberaba, uma das maiores centrais de inseminação do País. “Mas, como no primeiro semestre se vende mais sêmen de gado leiteiro, o crescimento é apenas um indicativo da demanda geral.” De acordo com Lima, o cenário otimista para as raças destinadas à produção de carne é baseado nos preços firmes da arroba do boi gordo. Desde o início do ano, a média vem se mantendo próxima a R$ 100. No ano passado, as centrais de inseminação faturaram cerca de R$ 300 milhões somente com a venda de sêmen, segundo fontes do setor. A Asbia calcula apenas a quantidade de doses e não o seu valor.

 

“Agora, o pecuarista pensa duas vezes antes de usar uma dose de sêmen em uma vaca ruim”

Gustavo Santos, diretor da Bioembryo

 

Do total de sêmen vendido para os criadores de raças de corte, cinco milhões de doses foram utilizadas através da IATF. O cálculo é da Asbia, com base na quantidade de hormônio comercializado pelos laboratórios farmacêuticos que vendem o produto. “Até o final deste ano, a previsão é de que a IATF cresça entre 20% e 25% nas fazendas, em relação a 2010, chegando a seis milhões de fêmeas”, diz Lima. Para o veterinário Gustavo Santos, diretor da Bioembryo, de Bauru (SP), nos últimos cinco anos a IATF tem mudado a maneira como o pecuarista administra seu plantel. Hoje, não serve qualquer uma no rebanho destinado à reprodução. “Na IATF, o pecuarista pensa duas vezes antes de usar uma dose de sêmen em uma vaca ruim”, diz Santos. O preço de uma fêmea comercial, pronta para entrar em reprodução, está entre R$ 1.500 e R$ 2 mil, pelo menos 10% acima do ano passado.

 

 

Para Ricardo César Passos, da empresa Cria Fértil, de Goiânia, a tendência ao aumento do uso da IATF nos rebanhos de corte é um caminho sem volta e está diretamente ligado ao benefício financeiro provocado pela técnica. “Os protocolos de IATF, que são as regras que o veterinário deve seguir para inseminar uma fêmea, evoluíram, enquanto o preço por prenhez obtida diminuiu cerca de 50%”, diz. Hoje, o preço médio é de R$ 50 por vaca prenhe. São R$ 35 pelos serviços do veterinário e os hormônios para a sincronização do cio da fêmea, mais R$ 15 pela dose de sêmen. “É um bom preço para o sêmen porque, em geral, na IATF, vendemos em grandes quantidades”, diz Carrara. “Ganhamos na escala.” Para ele, o crescimento da IATF se dará através dos grandes empresários do campo. “É gente que pensa no negócio como empresa.” Atualmente, a IATF movimenta R$ 250 milhões no segmento das raças de corte. “Não vai demorar muito para que esse número dobre”, diz Lima.

O grupo Golin é um exemplo de empresa de porte que utiliza de forma intensiva a IATF. Hoje, 75% dos nascimentos nas fazendas do grupo são frutos da biotecnologia. “As fêmeas somente são colocadas com touros depois de duas tentativas de IATF”, diz o diretor de pecuária, Diéde Loureiro Neto, veterinário, pós-graduado na Universidade de Saskatchewan, no Canadá, contratado há três anos para comandar a implantação da IATF no rebanho de 40 mil fêmeas. Além da pecuária, o Grupo Golin tem agricultura no Tocantins e no Piauí. Diéde começou o trabalho na estação de monta de 2008/2009, quando foram inseminadas através da IATF quatro mil fêmeas. Na estação seguinte foram 15 mil e, neste ano, estão sendo inseminadas 36 mil fêmeas. “Quatro mil são fêmeas muito jovens que serão cobertas com touros”, diz. Os animais para abate passam por confinamento e saem para o frigorífico entre 12 e 13 meses, no caso das fêmeas, pesando 13 arrobas. Os machos são abatidos com peso máximo de 17,5 arrobas, aos 16 meses.