Negócios

A agroindústria da Algar

Como Luiz Alexandre Garcia, o presidente do grupo mineiro que fatura R$ 2,6 bilhões por ano, está reforçando a posição da empresa no Nordeste para ser a maior indústria de soja da região

“Não é apenas pelo negócio que estamos no Nordeste. Também queremos desenvolver a região”

Luiz Alexandre Garcia,

presidente do grupo Algar

O calor é sufocante, apesar de o sol se esconder por trás das nuvens. Dentro do carro que cruza os 98 quilômetros que separam as cidades de Imperatriz e Porto Franco, no sul do Maranhão, o ar condicionado luta brava e ruidosamente para impedir que os 35º C de temperatura externa adentrem o interior do veículo. Enquanto as rodas correm pela BR-010, popularmente conhecida como rodovia Belém-Brasília, minúsculas vilas se interpõem entre pequenos comércios de beira de estrada, que vendem de frutas (“uvas geladinhas”, diz o tentador cartaz) a toalhas de mesa com os escudos dos grandes times de futebol do Rio de Janeiro e de São Paulo. São duas horas de viagem até o destino: uma área industrial às margens da rodovia, pouco após a parte urbana de Porto Franco. Dois silos horizontais com centenas de metros de comprimento dominam a paisagem, complementada por torres de armazenamento, maquinário, redes elétricas, prédios administrativos e uma grande área de construção.

São exatamente essas obras que levaram a DINHEIRO RURAL até o Maranhão. Nesse local estão sendo erguidas mais do que instalações para refino e envasamento de óleo de soja, as primeiras de toda a região. O que está em jogo é uma silenciosa revolução industrial que pode mudar as feições do Estado.

O comandante dessa mudança é o empresário mineiro Luiz Alexandre Garcia, dono de um sotaque típico da terra de Guimarães Rosa. “Não é apenas pelo negócio que estamos no Nordeste do País. Queremos desenvolver a região”, afirma ele, que há seis anos é presidente do Grupo Algar, responsável pelo investimento de R$ 65 milhões na construção da refinaria. No mesmo local funciona, desde 2007, uma esmagadora de soja com capacidade de processar 500 mil toneladas do grão por ano e os respectivos depósitos, que podem armazenar até 60 mil toneladas.

Luiz Alexandre representa a terceira geração dos Garcia como proprietários do grupo de controle familiar. Antes dele, os líderes eram seu pai, Luiz Alberto – atual presidente do conselho de administração -, e seu avô Alexandrino, um empreendedor que em 1919 veio de Portugal para Uberlândia, no interior de Minas Gerais, e ali criou um verdadeiro império a partir de uma máquina de beneficiar arroz. A família percorreu um longo caminho a partir de seus negócios iniciais – um posto de serviço automotivo e uma pequena central telefônica, ainda na década de 1950 – até o patamar atual. Hoje, o Grupo Algar é formado por nove empresas que, juntas, faturam mais de R$ 2,6 bilhões por ano. Desse total, cerca de 35% vêm de sua unidade agrícola, a Algar Agro.

Negócio: por causa de sua posição estratégica, a pacata Porto Franco vem atraindo empresas como a Algar, que está investindo R$ 65 milhões na construção de uma refinaria. No mesmo local, a empresa já possui uma esmagadora que processa 500 mil toneladas de soja, por ano. Com o investimento, será possível industrializar óleo de mesa para o consumidor final

Indústria: Vilson Manaré, coordenador industrial da unidade no Maranhão, comanda os trabalhos de expansão do grupo mineiro Algar no Nordeste

Esse porcentual deve subir com a construção da refinaria e da envasadora. A atual unidade agroindustrial do grupo, localizada em Uberlândia, distribui os produtos de valor agregado da empresa para o interior de Minas Gerais. É de lá que saem o farelo de soja RaçaFort e o óleo de soja da marca ABC de Minas. A linha possui ainda azeite de oliva, extrato e molho de tomate, comprado diretamente de agricultores locais. A partir de maio, no entanto, quando as instalações maranhenses começarem a funcionar, será possível comercializar os produtos da empresa nos mercados do Nordeste e do Norte.

A aposta da Algar recai, principalmente, no crescimento do mercado nordestino. Garcia parece não ter dúvidas sobre o potencial desse mercado. A nova fábrica produzirá mensalmente 540 mil caixas de óleo de soja, cada uma com 20 unidades. “Queremos acompanhar a expansão de renda da região, e a alimentação é sempre uma prioridade”, diz. A empresa projeta um crescimento médio anual de 10% na demanda do Nordeste ao longo dos próximos anos. “O mercado local cresce a taxas muito maiores do que o resto do Brasil. Em dois anos vamos dobrar a capacidade da unidade”, reforça Karina Melo, coordenadora de governança e projetos da Algar.

Para ganhar esse mercado, a empresa deverá criar uma nova marca, exclusiva para a produção maranhense. A ideia é deixar de lado a parte “de Minas” da linha atual “ABC de Minas” – “fica estranho em um produto vindo do próprio Nordeste”, diz Garcia – e ressaltar as características regionais. O grupo também contratou um gerente para estudar a ampliação do mix de produtos da marca, que deverá passar a incluir ervilhas, azeitona e milho, tudo adquirido de fornecedores independentes.

A soja vem trazendo mudanças para o sul do Maranhão desde sua chegada ao local, na década de 1990. Aos poucos, a cultura do agronegócio foi atraindo produtores de outras regiões do País e gerando riquezas para cidades como Balsas, Imperatriz, Carolina, Riachão e a própria Porto Franco, que integraram a região à grande fronteira agrícola nacional conhecida como Mapitoba – sigla que abarca regiões do Maranhão, Piauí, Tocantins e Bahia. A novidade é que a região assiste agora ao nascer do setor agroindustrial, baseado no beneficiamento das culturas. “Antes, nossa produção era exportada in natura para o Exterior”, diz o prefeito de Porto Franco, Deoclides Macedo (PDT). “Mas hoje esse quadro está se invertendo. Já somos uma das regiões que mais crescem no Brasil.”

A FORÇA NACIONAL

O mercado interno respondeu pela maior parte do faturamento da Algar Agro em 2011

DIVISÃO DO BOLO

No ano passado, o farelo foi responsável pela maior parte do faturamento; o quadro deve mudar com a nova refinaria

A mudança veio com o início do esmagamento da soja e da produção do farelo no local, que incentivou a avicultura e a indústria leiteira, a partir da disponibilidade de ração.

Agências bancárias chegaram à região, facilitando o crédito aos produtores e o financiamento de novos projetos. Além da Algar, grandes empresas do segmento, como Cargill e Bunge, se instalaram por perto. A refinaria vai fechar o ciclo. “Vamos do grão da soja até o óleo, com domínio de toda a cadeia e produção local”, diz Macedo. “Isso vai atrair novas empresas e gerar mais emprego e desenvolvimento.”

O novo ciclo de desenvolvimento local não se limita apenas à soja. Uma cultura em forte expansão na região, por exemplo, é a de eucalipto, impulsionada pela chegada de uma fábrica de papel e celulose da Suzano a Imperatriz. Embora deva entrar em funcionamento em 2013, a unidade já provoca uma verdadeira corrida pelo eucalipto no local, cujo clima é considerado “excelente” para as árvores, segundo a coordenadora Karina. A própria Algar vai, em até cinco anos, substituir as 30 toneladas diárias de óleo combustível usadas atualmente para impulsionar o maquinário primeiro por biomassa e depois pelo próprio eucalipto. “A energia que teremos pela cogeração poderá inclusive ser vendida no mercado livre”, afirma Vilson Menaré, coordenador industrial da empresa.

Um dos trunfos para dar sequência ao processo de crescimento é a localização estratégica da região, situada quase no centro de um círculo imaginário formado por cidades importantes como São Luís, Belém, Santarém, Palmas, Brasília, Teresina e Fortaleza, que tornam o local um centro natural de distribuição para a produção agrícola vinda do Mapitoba. Para melhorar, é cruzada pela rodovia Belém-Brasília e pela estrada de ferro Norte-Sul, que permite o escoamento dos grãos até o porto de Itaqui, ao norte, de onde são embarcados para a Ásia e para a Europa. A estimativa é que esse circuito movimente perto de 25 milhões de toneladas de grãos por ano. Novos projetos podem multiplicar esse número. Um deles é a entrada em funcionamento da hidrovia Tocantins-Araguaia, marcada para o segundo semestre. O outro é a interligação da Norte-Sul com a ferrovia Transnordestina, ainda sem data para implantação.

“Quando isso acontecer, nos consolidaremos como um dos principais entroncamentos de logística do Brasil”, diz o prefeito Macedo.

“Vamos do grão da soja ao óleo. Isso

vai atrair novas empresas e gerar empregos”

Deoclides Macedo, prefeito de Porto Franco

As mudanças trazidas pelo agronegócio já são visíveis em Porto Franco.

Embora ainda seja uma típica cidade do interior, onde os habitantes colocam as cadeiras nas calçadas para conversar, o município conta com escolas públicas e postos de saúde de um nível surpreendente para uma cidade do interior de um Estado marcado pelo baixo nível de desenvolvimento humano. Os serviços de limpeza e manutenção funcionam eficientemente, a sinalização, a iluminação e o asfaltamento são de fazer inveja a algumas capitais e existe até um centro de acolhimento para a terceira idade.

A rota da soja

Investimentos do Grupo Algar seguem os fatores logísticos para escoar a produção

Maranhão: ramal ferroviário serve à unidade de processamento da soja guardada em silos com capacidade de armazenamento que pode chegar a 60 mil toneladas do cereal

Energia: as caldeiras, que hoje utilizam 30 toneladas diárias de óleo diesel para impulsionar as máquinas, no futuro serão movidas a biomassa

Claro, nem tudo são flores. Além dos problemas que normalmente afligem a população de uma região historicamente atrasada em comparação com a média nacional de desenvolvimento – água, esgoto, energia elétrica, saúde, educação, transporte, moradia e qualidade de vida -, os produtores agrícolas enfrentam uma série de desafios, especialmente aqueles donos de propriedades de pequeno porte. O Mapitoba é formado, em sua maioria, por grandes produtores e empresas, que trabalham com plantações extensas dotadas de índices altíssimos de mecanização e produtividade. Os plantadores menores, os donos de avícolas e de fazendas voltadas para o gado de corte e de leite têm dificuldade de manter suas propriedades diante do avanço dos gigantes do agronegócio e do assédio dos estrangeiros.

É exatamente esse o caso dos paranaenses João Batista Marangoni e Renato César Figueiredo, que deixaram a cultura de cana-de-açúcar para trás e apostaram seus futuros na soja. Na região há menos de dez anos, eles possuem juntos cerca de mil hectares e uma coleção de dores de cabeça. A principal delas é a dificuldade em conseguir dinheiro para financiar a safra. Segundo eles, os bancos reservam a verba para os grandes produtores. “Só falta rirem na cara da gente no banco”, diz Marangoni. “Se você não conhece o gerente, vai passar a maior raiva”, reforça Figueiredo. A falta de recursos se torna ainda mais grave por causa dos custos crescentes do negócio. “A tonelada do adubo subiu 50% no último ano, mas o preço da soja nem de longe acompanhou”, diz Marangoni.

Segundo eles, hoje é cada vez menos viável para os pequenos produtores fazer investimentos mais pesados, como a compra de máquinas agrícolas e caminhões para o transporte da safra. “No frigir dos ovos, temos uma margem cada vez menor para garantir nosso sustento”, explica.

Duas saídas têm sido utilizadas para responder aos problemas. Uma delas é o sistema de condomínio, no qual os agricultores fazem um pool para adquirir maquinário, dividindo o custo e a utilização. Um dos problemas é que muitas vezes há disputas para uso das máquinas quando chega a época da colheita. O outro caminho é fazer uma parceria com empresas de processamento de soja. No caso de Marangoni e Figueiredo, ambos se associaram à Algar, que adianta o dinheiro necessário para a safra em troca dos direitos sobre uma parte da produção. “Hoje, o financiamento via empresas é muito mais ágil e barato do que por meio dos bancos”, afirma Figueiredo. A empresa destina anualmente cerca de US$ 200 milhões para financiar produtores. A boa notícia é que a Algar estuda ampliar o grau da parceria.

Produtores de soja: Figueiredo e Marangoni são parceiros da Algar no projeto de expansão dos negócios no Maranhão

“Queremos trabalhar mais da porteira para dentro”, diz o presidente Luiz Alexandre Garcia. A ideia é oferecer insumos como adubos, herbicidas, pesticidas e óleo combustível com o pacote de financiamento. “Vai ser bom para todo mundo. Vai diminuir o custo dos produtores e garantir nosso suprimento.”

Esse suprimento será mais do que necessário para garantir os planos de crescimento da Algar Agro. A empresa faturou R$ 1,22 bilhão no ano passado, aumento de 24% ante os R$ 987 milhões do ano anterior, e quer vitaminar esse valor com a nova ofensiva no mercado nordestino. A soja, em grão ou em farelo, representou 64% das receitas da empresa, enquanto o óleo ficou com 35%. A tendência é de que o quadro se inverta na medida em que a refinaria e a envasadora entrarem em operação. Isso não quer dizer que a empresa pretenda abrir mão da exportação do grão bruto, que responde por quase 40% do faturamento.

“O financiamento via empresas é muito mais ágil e barato do que por meio dos bancos”

Renato César figueiredo, produtor de soja no Maranhão

“A unidade do Maranhão também tem vocação para exportar”, dizo presidente. “Sem dúvida, vamos continuar aproveitando enquanto o preço da soja estiver atrativo.”

Embora tenha sido a primeira atividade do fundador Alexandrino Garcia, não foi o agronegócio que tornou conhecido o Grupo Algar – nome, aliás, derivado das iniciais de Garcia. A primeira empresa da holding foi a Companhia de Telecomunicações do Brasil Central (CTBC), fundada em 1954, em Uberlândia, a partir da compra da Companhia Telefônica Teixeirinha, que prestava serviço na cidade. Foi a primeira empresa privada de telefonia do País e a única que conseguiu a façanha de se manter fora das mãos do Estado mesmo durante os tempos de domínio do governo sobre o setor, nos anos de 1970 a 1990. Ainda hoje, o segmento de tecnologia, formado pelas empresas de telecomunicações e informática, responde por 57% do faturamento. Mas é no agronegócio que a família se realiza. “Isso aqui (o campo) diverte mais”, afirma Luiz Alberto Garcia em sua biografia, Doutor Desafio, de Sérgio Vilas-Boas. As apostas milionárias de Luiz Alexandre no Maranhão mostram que o DNA rural continua mais forte do que nunca na terceira geração dos Garcia.

Um monge nada tibetano

O herdeiro que fecha negócios num prédio inspirado em um mosteiro gosta mesmo é de adrenalina

A sede da holding Algar fica em Uberlândia, bem ao lado da casa de fazenda ocupada por Alexandrino Garcia, o fundador do grupo, quando chegou ao Brasil. Trata-se de um prédio em forma de pirâmide, com uma fonte de água em seu centro, inspirado em um mosteiro tibetano.

As paredes são envidraçadas, de modo a inspirar transparência. O visitante é surpreendido por um pequeno museu, que abriga os antigos equipamentos de telefonia da primeira empresa do grupo. É em meio a esse ambiente que Luiz Alexandre Garcia preside as unidades da Algar, que atuam em segmentos tão distintos quanto a manutenção de jatos executivos, a produção de um jornal, o fornecimento de soluções de informática e a administração do Rio Quente Resorts, famoso ponto turístico de Goiás. Também há o Instituto Algar, que implanta projetos sociais, e a Uni Algar, universidade corporativa responsável pelo treinamento de executivos em boas práticas de gestão.