Negócios

A alquimia randon

Da maçã ao vinho, empresário domina o rio grande do sul e transforma em ouro todas as suas empreitadas agrícolas

RANDON, NO CHIQUEIRO DOS SUÍNOS: visão de empreendedor e negócio milionário com a Perdigão

Todo grande empresário tem um pezinho no campo. Seja por hobby, seja para realizar um sonho de infância ou, como na maioria dos casos, para buscar negócios rentáveis. Estender as atividades para o setor agrícola faz parte do perfil de um grande empreendedor. No caso de Raul Anselmo Randon, catarinense nascido em Tangará há 78 anos, a agricultura não desperta somente suas memórias mais saudosas de ex-colono italiano. Dono de um império de carrocerias e autopeças com sede em Caxias do Sul (RS), o simpático empresário pilota a Rasip Agro Pastoril, sua empresa agrícola, com a mesma agressividade e objetividade com que o levou a transformar a velha ferraria de seu pai na Randon, um gigante de capital aberto na Bovespa cotado em aproximadamente R$ 3,5 bilhõesº. A Rasip, também listada na bolsa, fatura cerca de R$ 50 milhões anuais produzindo grãos, suínos, maçãs, queijos e vinhos.

R$ 3,5 BILHÕES é o patrimônio da Randon

A agricultura surgiu de maneira curiosa na vida da família. Há mais de 30 anos, o governo ofereceu incentivos fiscais aos empresários que praticassem o reflorestamento. Os olhos de Randon viram, além da preocupação ecológica, um caminho para o lucro. Se era para plantar árvores, por que não plantar macieiras e fazer dinheiro com elas?

MAÇÃS: Randon exporta para EUA e Europa 10% da produção

“Naquela época, 99% das maçãs consumidas aqui eram importadas”, relembra seu Raul, como é chamado por amigos e funcionários das duas empresas. As mudas ocuparam mil hectares da fazenda, localizada no município de Vacaria (RS). Hoje, sem incentivos, são apenas 750 hectares para maçãs e quatro mil destinados à plantação de trigo, soja e milho. No caso da fruta, cerca de 90% da produção vai para o mercado interno e 10% para exportação (EUA e Europa).

O queijo de Randon também é célebre. Fabrica desde 1997 o queijo italiano do tipo grana, típico da região da Padânia. Na Rasip, foi batizado Gran Formaggio. Para produzi-lo, Randon mandou trazer dos EUA 130 novilhas em dois aviões, pagando US$ 1 mil pelo transporte de cada uma. A promessa era de que as vacas forneceriam 30 litros de leite ao dia. Hoje, são produzidas 30 peças de queijo de 34 quilos por dia. Cada uma consome 500 litros de leite e é vendida por R$ 1 mil. No entanto, a exportação é aquém das expectativas. O queijo só chega à Argentina e, com o dólar baixo antes da turbulência do final do mês passado, concorre com o próprio queijo italiano. “Por enquanto não vale a pena aumentar a produção”, diz o empresário, que relembra as épocas duras, mas não menos felizes, quando sua mãe possuía duas vacas que produziam leite para as crianças da família. “Ter duas vacas representava muito na alimentação da casa”, conta. Com apenas o grau primário (a quarta série), Randon possui talento nato para os negócios. Trabalhou com o pai, Abramo, e o irmão, Hercílio, na modesta ferraria. O irmão se destacava na criação de peças diferentes, e Raul dirigia o pequeno negócio com pulso de ferro.

O faro para o lucro de seu Raul é notado nas menores decisões. Na Rasip, até o soro do queijo é aproveitado.

VINHOS 17 MILHÓES é o investimento de Raul Randon nas parreiras e na vinícola que construirá até 2012

Considerado poluente, ele é misturado na ração dos suínos. Até nisso, ele não sai perdendo. Fez uma parceria com a Perdigão, que mensalmente leva mil suínos de 22kg cada para serem alimentados com o soro. Eles saem de lá 110 dias depois pesando 120 kg, e a Rasip dá um fim aos resíduos. Com a brincadeira, deverá faturar até o final do ano R$ 2,5 milhões.

“Tem que dar lucro”, adverte Randon. O próximo passo é transformar o estrume dos animais em energia na Rasip. Os resíduos virarão biogás.

“Não dá para me aposentar. Só depois dos 100 anos”

RAUL RANDON: empresário

O grande xodó de Randon está em Campos de Cima da Serra, onde estão os 30 hectares de parreiras das quais saem as uvas para a Miolo produzir o premiado vinho RAR. Há alguns anos, um grupo de franceses plantadores de maçãs em Santa Catarina advertiu Randon que a região poderia dar boa uva. “Resolvi experimentar e plantei três hectares”, diz. Como a safra coincidiria com suas bodas de ouro, Randon chamou a Miolo para fabricar o vinho e comemorar a data.

“Falaram que devido à altitude maior que a do Vale dos Vinhedos, as uvas teriam que ficar mais tempo na parreira e acumulariam mais propriedades”, explica. O enriquecimento extra das uvas cabernet sauvignon e merlot foram a chave do sucesso do RAR. Das 27 mil garrafas iniciais, a última safra (2004) se transformou em 47 mil e levou medalha de ouro em concursos na França. Randon pretende aumentar anualmente cerca de 20 hectares de plantação e chegar a 2012 com um vinhedo de 200 hectares. Nesse meio tempo, construirá uma vinícola. O projeto todo deve custar R$ 17 milhões.

“Estou até pensando em diminuir o número de macieiras”, diz. E a aposentadoria? “Não dá para me aposentar. Só depois dos 100 anos.”