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A fantástica viagem do açaí

Nativa da Amazônia, a fruta percorre um longo e tortuoso caminho até chegar à mesa dos brasileiros. E dos americanos, japoneses...

Nivaldo Santos (abaixo) é o principal comprador de açaí da região. Parte de sua produção é vendida para parceiros estrangeiros como Gabriel Paduano. O dia nem bem clareou e uma movimentação intensa de barcaças toma conta do rio Igarapé- Miri, no coração do Estado do Pará.

Karime Xavier/AG.ISTOE

Nelas, dezenas de ribeirinhos tomam café e conversam animadamente antes de mais um dia de trabalho. Eles são catadores de açaí, frutinha que faz enorme sucesso nas grandes cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Los Angeles e Tóquio, mas que até hoje é colhida de forma extrativista, em palmeiras cravadas em meio à Floresta Amazônica. Não existem plantações comerciais, assim como estradas para o escoamento da produção. Daí a necessidade das barcaças, fundamentais para o transporte da mercadoria até o porto central, onde acontece a venda e o embarque nas carretas que, durante a safra, entram e saem a todo momento. O caminho percorrido pelo açaí da palmeira à sua comercialização é longo, numa aventura que pode durar até 15 dias. E quem conhece bem essa saga é a Bela Iaçá, uma das maiores processadoras de frutas exóticas do mundo.

Processamento: o produto final, conhecido como purê, leva entre 6% e 12% do fruto. O restante é água – Karime Xavier/AG.ISTOE

Anualmente, a empresa processa 8,5 mil toneladas do fruto e destina 40% de sua produção ao mercado externo, principalmente para os Estados Unidos, Canadá e Japão, onde o açaí é consumido mais por seus benefícios medicinais do que propriamente pelo seu sabor. Com um mercado já estabelecido na América do Norte e bem encaminhado no Japão, a meta agora é entrar na China e Europa e aumentar os ganhos.

“Podemos até ser os maiores, mas não estamos satisfeitos com o volume exportado atualmente. Nem com as vendas no mercado interno”, garante Nivaldo Santos, diretorgeral da Bela Iaçá, que faturou R$ 15 milhões com a venda de açaí em 2008 e espera aumentar, e muito, estes números neste ano. “A crise atrapalhou um pouco as exportações no ano passado. Os compradores estavam receosos em investir em um produto exótico, mas em 2009 está tudo voltando ao normal”, continua o executivo, lembrando que no Brasil as vendas estão estáveis há alguns anos.

Com clientes dos mais variados tipos, os produtos também precisam ser diversificados. Por isso, o grupo trabalha com outras marcas exclusivas para o mercado nacional, como a São Pedro e a Tropnat, que levam uma mistura popular, com 6% de açaí – o resto é água, adicionada até a formação do “purê” como é vendido. Já o produto exportado pela Bela Iaçá conta com uma mistura média, com até 9% de fruta, enquanto o produto especial, que leva pelo menos 12% de açaí natural, é exportado a granel para os Estados Unidos. A empresa conta ainda com uma linha orgânica, com maior valor agregado, vendida somente no Exterior.

“O açaí tem um potencial enorme de crescimento, mas ainda existe o problema da falta de oferta, principalmente na entressafra. O mercado externo exige que você entregue o ano todo”, diz Santos, ressaltando que na falta de sua principal matéria-prima a empresa trabalha no processamento de outras frutas exóticas da Amazônia, como o cupuaçu, a graviola e o camucamu. “Assim conseguimos manter nosso quadro de 125 funcionários permanentemente”, completa.

Durante a safra, no entanto, a empresa compra seu açaí nas comunidades ribeirinhas do Pará e do Amapá, onde a Bela Iaçá também conta com uma indústria processadora. Hoje, mais de 60% dos frutos processados pela empresa vêm do extrativismo, que por sua vez se mostra cada vez mais organizado na Amazônia. Um bom exemplo é a Caepim, maior cooperativa da região de Igarapé-Miri, com 165 cooperados. No ano passado, eles atingiram uma produção total de 700 toneladas de açaí, número que deve subir para mil toneladas neste ano.

Extrativismo: ribeirinhos, como José Maurício Gomes, fazem a coleta do açaí e depois vendem à empresa. A única parte aproveitada é a casca (à dir.)

“Mas também estamos nos organizando em torno do extrativismo de outras sementes amazônicas, valorizadas pelas empresas de cosméticos”, conta José Maurício Pinheiro Gomes, 17 anos, sócio da Caepim. “No ano passado já fizemos uma venda grande para a Natura e neste ano devem chegar mais pedidos.” Filho do presidente da cooperativa, o jovem José Maurício trabalha no extrativismo desde criança e hoje conta com uma área própria para a colheita.

LÁ FORA – Diferentemente dos brasileiros – especialmente do Sul e Sudeste -, que comem o açaí misturado com xarope de guaraná, banana ou granola, nos Estados Unidos ele é consumido puro e visto como um suplemento alimentar dos mais poderosos. Suas propriedades antioxidantes são fortemente difundidas e isso vem fazendo a fama da fruta por lá. Fã declarado do açaí há anos, o norteamericano Gabriel Paduano resolveu unir o útil ao agradável e faturar com a exportação do produto.

Paduano é um dos parceiros internacionais da Bela Iaçá. Os brasileiros compram a matéria-prima, produzem e embalam toda a linha de produtos com a marca Amazon Planet. Pronto para o consumo, o empresário só tem o trabalho de abastecer os supermercados especializados em alimentos naturais da Califórnia e de boa parte da Costa Oeste dos Estados Unidos. Além disso, Paduano ainda trabalha como uma espécie de embaixador do produto em seu país, divulgando o “verdadeiro açaí” e suas qualidades.

“O mercado já está consolidado, o problema é que existem muitos produtos de má qualidade se passando por açaí nos Estados Unidos. São produtos com menos de 1% de fruta, que não têm nenhum benefício para o organismo e acabam denegrindo a imagem do original. Eu costumo promover degustações e apresentar o produto verdadeiro, o que realmente traz benefícios para a saúde, aos meus compatriotas”, diz ele, que vende cada embalagem de 400 gramas de açaí por US$ 6 em média.

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