Negócios

A guinada da Carcinicultura

Com foco no mercado interno e embalagens menores, setor prevê que 2007 e 2008 serão anos de retomada do crescimento

A TODO VAPOR: novo foco dá fôlego ao setor, que volta a produzir em ritmo acelerado

Depois de um ano espetacular como 2003, quando a produção brasileira de camarão bateu a casa das 90,1 mil toneladas, os produtores do crustáceo não esperavam a tempestade dos anos seguintes. De 2004 para cá, foram problemas e mais problemas: a ação anti-dumping movida pelos EUA, que impôs a taxa de 36,8% no camarão nacional, as chuvas que provocaram inundações em vários Estados do Nordeste, doenças como o vírus da mancha branca em Santa Catarina e o IMNV (Infectious Myonecrosis Vírus), no Nordeste, sem contar a desvalorização do dólar, que resultou em enormes perdas financeiras na venda ao mercado externo. Em outras palavras, hoje o produtor recebe 40% a menos do que recebia em 2003. Mas a crise trouxe um grande aprendizado. O setor percebeu que não poderia ficar refém das exportações e estruturou um novo plano de ação focado no mercado interno. “Nossa estratégia é oferecer um produto com um preço acessível e embalagens menores, de 200 gramas. Com isso, teremos condições de competir com peixes importados, como o bacalhau e o salmão, e com as carnes nobres”, diz Itamar Rocha, presidente da Associação Brasileira dos Criadores de Camarão (ABCC).

ESTRATÉGIA: porções fracionadas foi a fórmula encontrada para atrair consumidores

Outro fator que influenciou a mudança de foco foi a impossibilidade de competir em preço com os países produtores da Ásia, onde o custo da mão-de-obra é muito inferior. “Aqui tivemos valorização do real frente ao dólar, sem contar o aumento de 53,33% do salário mínimo no período de 2003 a 2007”, completa Rocha. Agora o desafio é promover o camarão entre os brasileiros. O consumo per capita do crustáceo em solo nacional é de apenas 250 gramas contra 750 gramas da média mundial. Para isso, a grande carta na manga é o fracionamento das porções. Em vez de embalagens de dois quilos, porções pequenas de 200 gramas, seguindo uma tendência global. Além disso, a meta é vender o camarão semipronto, o que aumenta para 20 meses o tempo de prateleira. De acordo com a ABCC, o quilo do camarão médio de 11 a 12 gramas para o consumidor final deve sair por cerca de R$ 12, preço mais acessível que o salmão e bacalhau, que não saem por menos de R$ 20. Com isso, o alvo da entidade é fechar 2007 com 70% da produção nacional voltada ao mercado interno, um grande avanço para quem em 2004 tinha 75% das vendas voltadas ao Exterior.

META

R$ 12 é por quanto o quilo do camarão de 12 gramas deve chegar ao supermercado. Objetivo é aumentar o consumo

REVIRAVOLTA: em 2003, cooperativa presidida por Bacurau exportava quase toda a produção. Este ano, deve colocar 80% no mercado interno

A Unipesca – cooperativa que engloba dez médios produtores do Rio Grande do Norte, Estado que é o maior produtor nacional – é o típico exemplo desta mudança de cenário. Em 2003/2004, eles exportavam quase que a totalidade do que produziam. Hoje a expectativa é fechar o ano com 80% da produção no mercado interno e apenas 20% direcionada ao Exterior. “Foi a alternativa que nos restou”, comenta Newton Bacurau, presidente da Unipesca, que ainda comemora a recuperação dos preços, nos últimos 90 dias. Atualmente, o camarão da cooperativa chega ao Rio de Janeiro via atravessadores. “O que nos falta é fazer negócio com grandes distribuidores para colocar o camarão do Rio Grande do Norte nos grandes centros”, diz. Portfólio para isso é o que não falta. A Unipesca tem porções de 400 gramas a cinco quilos do crustáceo em opções como, camarão sem calda e camarão filé (descascado). E agora a cooperativa está aguardando o processo de certificação para colocar no mercado nacional pratos prontos como bobó de camarão e camarão com molho quatro queijos. Com isso, a expectativa de Bacurau é de retomada. “Em 2006, diminuímos 40% a produção, mas este ano começamos a recuperação que deve se concretizar, de fato, em 2008”, diz. O mesmo acontece no Brasil como um todo. A produção, que já chegou a 90,1 mil toneladas em 2003, despencou para 65 mil em 2006, mas deve voltar ao topo histórico nos próximos anos, colocando muito mais camarão na mesa do brasileiro.