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À moda italiana

A produção agrícola vem transformando fazendas europeias em fontes alternativas e sustentáveis de energia

À moda italiana

Biometano: a lavoura de milho é a principal fonte de geração do gás nos biodigestores da fazenda Divulgação

Na Itália, pode-se dizer que o poder de transformação também está na alma do agronegócio e não apenas nas obras de arte que abarrotam os museus ou monumentos históricos que encantam o mundo. Herdeiro de agricultores piemonteses, o agrônomo Luca Remmert está transformando numa fábrica de energia renovável a tradicional propriedade da família, a fazenda La Bellotta, uma área de 443 hectares próxima a Turim e ao lado do parque nacional de La Mandria, monumento natural tombado pela Unesco como Patrimônio da Humanidade. A energia limpa que a fazenda começou a produzir vem de biodigestores, uma tecnologia alinhada às políticas de combate às mudanças climáticas na Europa. Além disso, ela está gerando lucros mais robustos para a propriedade. “Fazíamos uma produção agrícola tradicional e com ganhos muito baixos, a metade do que conseguimos hoje”, diz Remmert. No ano passado, a La Bellotta faturou € 500 mil, algo em torno de R$ 1,76 milhão em valores atualizados no final de junho. “Já havia até pensado em me desfazer da fazenda porque ela não sustentava as necessidades da minha família.”

Até 2010, a La Bellotta era como tantas outras pequenas propriedades italianas, com uma produção diversificada em milho, cevada, trigo e aveia, além de gado leiteiro e de corte. Hoje, depois de se desfazer do gado, que foi trocado por nove mil galinhas poedeiras que produzem igual quantidade de ovos orgânicos por dia, aumentar a área de milho para 200 hectares e plantar 50 hectares de triticale, um cereal híbrido resultante do cruzamento de trigo com centeio, Remmert tem nas mãos uma fazenda que chama a atenção de seus vizinhos e que vem pregando um novo modelo de gestão do negócio. “Fizemos uma verdadeira transformação na fazenda”, diz Remmert. “E ela está só começando.”


Fizemos uma verdadeira transformação na fazenda. E ela está só começando” Luca Remmert, produtor rural

A produção de milho e triticale na La Bellotta, mais o dejeto das galinhas, servem para alimentar um digestor que transforma essa biomassa em biometano. O produtor faz parte de um grupo ainda pequeno, mas que vem crescendo em todo o continente. É formado por donos de fazendas que estão se especializando na geração de energias renováveis. De acordo com dados publicados no ano passado, pela Associação de Biogás Europeia (EBA, na sigla em inglês), entre biometano e biogás, um produto menos nobre que porque não passa por processos de purificação, em 2013 foram gerados 7,86 mil megawatts de energia elétrica, por 14,5 mil usinas movidas a biodigestores, o que daria para servir cerca de 30 mil casas por mês, na região Sul do Brasil, por exemplo. Desse total de usinas, apenas 282 produziram biometano, como fez a La Bellotta. O biometano, além de servir para gerar energia elétrica, pode ser usado diretamente como gás em veículos ou em residências. Hoje, as principais fontes de matéria-prima para essas energias limpas são as culturas agrícolas, as florestas cultivadas e os dejetos orgânicos como, por exemplo, esgoto de cidades. “A indústria de energia limpa está promovendo uma tremenda mudança na política energética europeia”, diz Jan Štambaský, presidente da EBA. Esse movimento começou na Alemanha, país ávido por soluções alternativas de energia renovável e rapidamente ganhou adeptos na Itália, Suíça e França. “Esperamos que nos outros 24 países da União Europeia (UE) esse movimento também ganhe força.”

O crescimento da produção de energias renováveis é uma atividade controlada na UE, pois não pode concorrer diretamente com a produção de alimentos. No caso da fazenda La Bellotta, nem se quisesse, o produtor Remmert poderia aumentar a atual oferta de biometano à Enel Green Power, grupo italiano que administra e distribui energia limpa na Europa, África e América Latina, incluindo o Brasil (aqui gera anualmente uma média de 500 gigawatts por hora).

A cota anual da fazenda é de 4,12 mil megawatt por hora jogada na rede elétrica. “É o limite máximo que posso produzir, por isso, meu projeto foi de biometano, um produto mais versátil no mercado das energias limpas”, diz o Remmert. Em cerca de uma década, o produtor acredita que poderá comercializar o biometano diretamente ao consumidor residencial final, sem passar pela intermediação de terceiros.

Campo de testes
Trator movido a biometano é posto à prova na La Bellotta

Em 2010, a fazenda de Luca Remmert não só se tornou uma vitrine tecnológica sustentável, como também passou a ser um campo de testes da New Holland, do grupo CNH Industrial, braço agrícola do grupo Fiat. Naquele ano, a empresa começou a testar na fazenda uma novidade mundial, um trator de 140 cavalos de potência movido a biometano. Segundo Nilson Righi, gerente de produto da companhia, com a nova tecnologia, as máquinas da marca passam a ser mais sustentáveis. “O trator emite 80% menos de gases poluentes, em relação ao motor a diesel”, diz. O equipamento está sendo exibido pela primeira vez na Expo Milano 2015, feira de ciência e tecnologia que acontece até outubro, na Itália, e deve chegar ao mercado em cinco anos. Até lá, a montadora espera aumentar a autonomia de combustível de seis para cerca de dez horas, como acontece com os demais tratores da mesma potência, movidos a óleo diesel.