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A muy amiga da onça

Ambientalista de carteirinha, a fazendeira Beatriz Diacópulos Rondon é acusada pela Polícia Federal e pelo Ibama de oferecer safári ilegal a turistas estrangeiros

A muy amiga da onça

Até o mês de maio, ao custo de US$ 40 mil, turistas estrangeiros podiam desfrutar das paisagens do Pantanal, aproximar-se de animais como jacarés, capivaras, cervos, tamanduás e, com sorte, ver uma onça-pintada legítima. Nada mais natural e saudável, como manda o ecoturismo. O problema é que por mais US$ 5 mil, o visitante recebia armamentos para caçar livremente animais silvestres, o que é terminantemente proibido no Brasil. Esse pacote era oferecido pela Fazenda Santa Sofia, localizada em Rio Negro, no Mato Grosso do Sul, segundo a Polícia Federal e o Ibama. E o mais surpreendente: a propriedade, que oferecia um safári ilegal, somente descoberto quando um turista gravou um vídeo do local, pertencia a Beatriz Diacópolus Rondon, até então considerada uma ambientalista de carteirinha. Enviadas anonimamente à Polícia Federal, as imagens retratam a matança de duas onças, uma parda e outra pintada, por estrangeiros na fazenda de Beatriz, acompanhada pessoalmente por ela. Detalhe: Beatriz é sobrinha-neta do célebre Marechal Cândido Rondon, desbravador do sertão brasileiro e o maior indianista que o País já teve.

As primeiras ações da polícia e do Ibama, denominadas Operação Jaguar I, foram iniciadas em julho de 2010, a partir de indícios encontrados pela própria polícia ao desarticular uma quadrilha especializada em realizar safáris de caça de onças para estrangeiros, com atuação em todo o Pantanal. A denúncia envolvendo a Fazenda Santa Sofia suscitou a Operação Jaguar II. Nesta operação, os agentes apreenderam na sede da Santa Sofia dois crânios de onças, 16 galhadas de cervos-do-pantanal e uma pele de sucuri de 3,5 metros, além de cinco revólveres calibre 38, uma carabina, dois fuzis, 17 caixas de munições de diversos calibres e duas bolsas usadas nas caças.

Apreensão: a PF encontrou dois crânios de onças, 16 galhadas de cervos, pele de sucuri, além de armamentos de caça

 

Para o advogado René Siufi, contratado para a defesa de Beatriz, as acusações contra sua cliente são infundadas. “As peças encontradas faziam parte do acervo pessoal da família há pelo menos 40 anos”, afirma Siufi. Segundo ele, se as imagens foram gravadas em 2004, por que somente agora houve a denúncia? “Naquela época poderia ser feita uma prisão em flagrante”, diz. Por que não mostram uma reportagem completa, realizada pela National Geographic, na qual Beatriz aparece protegendo os animais? Siufi lembra, ainda, que nas provas colhidas, o perito fez uma ressalva dos objetos capturados. “Se a morte desses animais fosse recente, não haveria ressalvas”, afirma. “Eles não têm como dizer que os restos encontrados são de agora.”

A Fazenda Santa Sofia é uma Reserva Estadual Particular do Patrimônio Natural, apoiada por instituições ambientais, entre elas, a conhecida WWF-Brasil. Segundo David Lourenço, superintendente do Ibama, em Mato Grosso do Sul, as provas são verdadeiras, principalmente por causa do armamento apreendido na propriedade. “A imagem pode ser de sete anos e só chegou às nossas mãos agora”, diz. “Acreditamos que a operação Jaguar I despertou as atenções e estimulou esse anônimo a denunciar.”

“Nossa operação estimulou novas denúncias. Vamos fazer quantas ações forem necessárias”

A fazendeira pode responder por, pelo menos, quatro crimes: ações contra a fauna brasileira, posse de arma de uso restrito, formação de quadrilha e tráfico internacional de armamentos. Segundo informações do Ibama, nessa operação as multas aplicadas à ambientalista somam, até agora, R$ 220 mil. A primeira multa, de R$ 15 mil, foi aplicada por se tratar de caça profissional e a segunda, de R$ 100 mil, por danos às unidades de conservação. A proprietária já havia recebido uma multa de R$ 105 mil por caça ilegal e abate de animais ameaçados de extinção, logo após a deflagração da operação. De acordo com o Ibama, as investigações continuam e o inquérito está em andamento na Polícia Federal de Corumbá (MS). “Vamos fazer quantas operações forem necessárias”, diz o superintendente Lourenço. “Pelo fato de as vendas de safáris no Pantanal ser divulgadas no Exterior, é possível haver outras propriedades no Brasil que realizem as mesmas ações.”