Negócios

A nova fronteira do girassol

Agricultores de Mato Grosso apostam no grão para a produção de alimentos e se tornam os maiores do País. A receita está pronta para ser replicada em outras regiões

A nova fronteira do girassol

Kelsen Fernandes/ Ag. IstoÉ

 

APOSTA: Stefanelo, da fazenda Porta do Céu, cultiva girassol há 18 anos. Mas só agora, associado a 32 produtores da região, acredita que a cultura vai se tornar um bom negócio

De Cuiabá até Campo Novo do Parecis são 390 quilômetros. Quem parte da capital de Mato Grosso, rumo a esse município do norte do Estado, precisa subir a serra do Parecis, um divisor de águas das nascentes dos rios que formam a bacia Amazônica daqueles que descem para o sul e formam a bacia do rio da Prata. Depois de subir a serra, o cenário é de um chapadão a perder de vista. De um lado e de outro da estrada, até onde a vista alcança, há restos de lavouras de milho que já foi colhido ou de algodão carregado de botões, também conhecidos como capulhos, a um passo de se tornar um mar de bolas brancas. Mas, poucos quilômetros antes de se chegar à cidade de Campo Novo do Parecis, o cenário rural muda radicalmente. Em vez das lavouras de milho e algodão, é o amarelo intenso do girassol quase maduro que toma conta da vista. Em meados do mês passado, os botões do girassol, chamados de capítulos, estavam no auge do florescimento. “O girassol sempre foi uma paixão, mas de três anos para cá ele também vem se tornando um bom negócio”, disse o engenheiro agrônomo Sergio Costa Beber Stefanelo, dono da fazenda Porta do Céu, com 14 mil hectares, ao receber em seu escritório da cidade a reportagem da DINHEIRO RURAL. Na parede, um quadro mostrava uma pintura de girassol. Sobre o balcão, um vaso com flores de girassol. E, na escrivaninha, uma pilha de livros e folhetos sobre o mesmo tema: o girassol.

 

“É como se eu colhesse 80 sacas de milho numa época em que seu cultivo é impossível”

ERNESTO MARTELLI, da fazenda Horizonte

Estimulados pela paixão de Stefanelo e pela possibilidade de negócios com a oleaginosa, um grupo de produtores do município está cultivando nesta safra 32 mil hectares da planta e guindando Campo Novo do Parecis ao posto de maior produtor do Brasil. No fim de maio, prestes a iniciarem a colheita da safra 2011/2012, a expectativa era chegar a 25 sacas por hectare, que resultariam na produção de 48 mil toneladas de sementes.

Hoje, o girassol do município mato-grossense responde por 42% do cultivo nacional. Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a área cultivada na safra 2011/2012 em todo o País é de 75,5 mil hectares e a produção estimada é de 112,6 mil toneladas de sementes. Aos preços atuais, de R$ 1,2 mil a tonelada vendida para a indústria de alimentos, a oleaginosa deve gerar aos agricultores uma receita de R$ 135 milhões.

Um dos fatores que determinaram o crescimento vertiginoso da produção do girassol nos últimos anos é o fato de seu cultivo não competir com outras culturas. Depois da soja – com 24 milhões de hectares na primeira safra -, enquanto a maioria dos produtores que aderiram ao modelo de duas safras seguidas planta apenas uma cultura, em Campo Novo do Parecis esse mix se alarga. São várias ao mesmo tempo, com milho-pipoca, milho-branco, algodão, painço, feijão, cana-de-açúcar e, agora, o girassol. Por causa da variedade, o município se tornou o quarto produtor de grãos do País, com um milhão de toneladas de soja como carro-chefe. “Essa diversidade é uma característica cultural do município”, diz Stefanelo. “Nascemos assim na década de 1980, produzindo de tudo.”