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A sua cana pode estar doente

A ferrugem alaranjada era desconhecida no Brasil até o ano passado, mas já provoca perdas nas lavouras de cana que chegam a 30%

A sua cana pode estar doente

Em uma manhã de dezembro de 2009, a poucos dias do Natal, o produtor Wilson Sartori teve uma desagradável surpresa ao visitar um de seus canaviais na região de Iracemápolis, interior de São Paulo.

Ao olhar de perto algumas plantas, ele percebeu que as folhas estavam com manchas que davam a elas um aspecto “queimado”. Dias depois, o diagnóstico: tratava- se da ferrugem alaranjada da cana, doença que surgiu na Ásia no final dos anos 1990 e no ano 2000 causou perdas de aproximadamente 28% da safra atingida na Austrália. Em 2007 a praga deixou sua marca na Guatemala e nos Estados Unidos, onde duas variedades foram prejudicadas, gerando perdas de 40%. Só no final do ano passado a ferrugem chegou ao Brasil. “Eu consultei a associação e não há o que fazer, apenas esperar o corte e plantar as variedades resistentes”, conta Sartori, que teve afetada uma entre as 12 variedades que plantou na propriedade.

De acordo com Enrico Arrigoni, coordenador de pesquisas do Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), ainda não é possível saber ao certo o tamanho do prejuízo por aqui, mas estima-se que nas variedades atingidas haja uma redução de 20% da produção. “Isso deve gerar perdas por volta de R$ 300 milhões na próxima safra”, prevê.

No Brasil, a doença surgiu em Araraquara (SP) e já se espalhou pelo interior de São Paulo, atingindo as regiões de Piracicaba, Assis, Araçatuba, São José do Rio Preto e norte do Paraná. A explicação para essa “andança” está na forma de transmissão da doença, por meio de esporos que são carregados pelo vento. As variedades de cana suscetíveis até o momento respondem por menos de 10% do total de área plantada de cana no País, segundo dados do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). Nas duas propriedades de Sartori, dos 158 hectares plantados, cerca de 36 deles são da SP89115, uma das variedades atingidas. O produtor ainda não sabe ao certo o tamanho do prejuízo, mas prevê uma quebra de no mínimo 30% de sua safra dessa variedade. “Costumava colher cerca de 100 toneladas por hectare.

Desta vez, se eu conseguir chegar a 70 toneladas, será muito.” Ainda não há nenhum fungicida aprovado pelo Mapa para combater a doença. A ferrugem surge em regiões com elevada umidade e é causada por um fungo que ataca o tecido das folhas, deixando manchas redondas alaranjadas em sua estrutura e comprometendo a capacidade da planta de realizar a fotossíntese. “Com isso, a produção de açúcar da cana é reduzida drasticamente”, explica Arrigoni.

A única maneira de combatê-la é esperar o período de corte, retirar as variedades suscetíveis e plantar aquelas que são geneticamente resistentes à doença. Enquanto o período de corte da cana não chega, pesquisadores e sindicatos vêm realizando um trabalho de monitoramento das áreas infectadas, a fim de mapear as regiões atingidas e controlar o plantio das próximas safras. “O que nós estamos fazendo é visitar as propriedades afetadas e acompanhar de perto a evolução da doença”, explica Arnaldo Bortoleto, presidente do Sindicato Rural de Piracicaba. Em médio prazo, a doença deverá ser controlada, já que as variedades sensíveis à patologia deverão ser extintas e substituídas por outras geneticamente resistentes. “O CTC já está fazendo pesquisas para auxiliar no controle da doença”, conta Arrigoni. Para os produtores, resta rever o planejamento de plantio, monitorar as plantações e substituir as variedades nas próximas safras.

Rastro Alaranjado

O que é a doença e quais os prejuízos que ela pode causar ao seu canavial

Fungo causador:

Puccinia kuehnii 1

Origem:

Ásia no final do século XIX

Países atingidos:

cerca de dez desde 1999

Efeitos:

a doença ataca o tecido das folhas, queima a planta e reduz sua capacidade de realizar fotossíntese. Com isso, a produtividade de açúcar é reduzida drasticamente

Variedades afetadas no Brasil:

SP89115, SP842025 e RB72454

Ocorrência:

em regiões onde há alta umidade e altas temperaturas

Combate:

monitoramento das áreas atingidas, corte das plantas infectadas e substituição das variedades suscetíveis por outras resistentes

Sintomas:

aparição de manchas redondas e alaranjadas nas folhas da planta

Prejuízos:

estima-se que haja perda de 20% da safra das variedades atingidas

 

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