Negócios

Aos olhos da cidade

Pesquisa da Associação Brasileira de Agribusiness derruba o mito de que a população urbana desconhece o agronegócio

Será que o homem da cidade não enxerga quem trabalha no campo? Essa dúvida sem resposta, por décadas, levou ao mito generalizado de que, para o morador urbano, leite nasce em caixinha, tomate cresce na gôndola da quitanda e farinha de trigo sai da prateleira do supermercado. Mas esse mito não se sustenta na vida real. A Associação Brasileira de Marketing Rural (Abag) encomendou à Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) uma pesquisa apresentada no mês passado, em São Paulo, que mostra exatamente o contrário: o público urbano vê o homem do campo, valoriza seu trabalho e, surpresa, sabe de onde vêm o leite, o tomate e a farinha. “Inédita no País, a pesquisa desmente conceitos generalistas que necessitam ser reavaliados pelo setor”, diz o presidente da Abag, Luiz Carlos Corrêa Carvalho. “E pode ajudar na elaboração de estratégias de marketing das empresas do agronegócio.”

Os dados são surpreendentes. Entre os habitantes das grandes cidades, 83% consideram o agronegócio muito importante para a econo-mia do País. Esse percentual sobe para 99% no Centro-Oeste, região que produz 43% do total de cereais, leguminosas e oleaginosas cultivadas, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. Do total geral de entrevistados que possuem nível superior de ensino, o índice de reconhecimento da importância do agronegócio sobe para 97%. E mais: em nível de importância, a profissão de agricultor está em quinto lugar, atrás de médico, professor, bombeiro e policial. Elaborado pelo Instituto de Pesquisa Ipeso, da ESPM, o levantamento feito no início do ano ouviu 616 pessoas de todas as classes sociais e níveis de escolaridade, nas 12 maiores capitais do País, cidades nas quais residem 37 milhões de pessoas, 20% da população brasileira.

Mas, para os quase 80 associados da Abag, ou de qualquer outra empresa ou instituição que queira utilizar a pesquisa para ações de marketing, o trabalho de comunicação com a cidade não será fácil. Por isso, segundo o administrador e publicitário José Luiz Tejon, coordenador do Núcleo de Estudos do Agronegócio da ESPM, a pesquisa é a primeira de uma série de estudos. “A pesquisa está repleta de subsídios fantásticos sobre a visão do público urbano, mas a percepção de cadeia de valor ainda é fraca”, diz Tejon. “Faltam coligações entre os elos produtivos.”

De acordo com o publicitário, o termo agronegócio ainda é um conceito em construção nas grandes cidades. O homem urbano visualiza a produção no campo, mas não tem uma noção apropriada do seu nível tecnológico e dos processos de transformação em curso na agroindústria. “Ele não entende o agronegócio como uma cadeia que incorpora valor entre a produção do grão e o consumo de um litro de óleo de soja, por exemplo,” diz Tejon. Comparado com outros setores da economia, o agronegócio parece situar-se, para muita gente, numa posição muito semelhante à da construção civil, de grande gerador de empregos, mas com baixo índice de inovação tecnológica e de mecanização. Essa visão está muito distante do que, de fato, ocorre nesses primeiros meses do ano, nas principais áreas de cultivo de grãos do País. Com tecnologia de ponta, enquanto as colhedoras passam retirando a soja, como mostra a foto desta página, as plantadeiras vêm atrás colocando na terra uma segunda safra de milho, algodão, girassol ou feijão, visão só possível no Brasil atualmente.