Negócios

A Arte de Confinar o Boi

Como os pecuaristas estão se preparando para um mercado cada vez mais desafiador, na engorda intensiva de animais

Todos os dias, às sete da manhã, o veterinário Gustavo de Lima Reis já está no serviço, pronto para começar o dia no confinamento de gado da GT Agronegócio, dona da fazenda Mirante, de Nerópolis, município próximo de Goiânia. Da fazenda, anualmente são embarcados aos frigoríficos cerca de 30 mil animais terminados nesse sistema de engorda intensiva. Do total, apenas cinco mil são de criação própria. Os 25 mil animais são fornecidos por criadores de bezerros e de recriadores de gado da região. Para captar os animais, Reis fechou uma parceria com a leiloeira Estância Bahia, de Água Boa, em Mato Grosso. No confinamento, esses produtos são terminados de duas formas: em parceria entre o dono dos animais e Reis, ou pelo sistema boitel, que é a prestação de serviço de engorda dos animais, pela GT. Segundo Reis, a receita que montou para abastecer o confinamento de gado magro ainda não basta para que o sistema evolua. “O tempo de vida do animal, que não deve exceder os 24 meses, na média, precisa ser mais bem aproveitado”, diz o veterinário. “Para que isso aconteça, a fase de recria do gado, entre a desmama e a entrada no confinamento, deve ter um melhor gerenciamento.” E é isso que ele vem tentando implementar no seu negócio.

Na região goiana, na qual está localizado o confinamento da GT, a média de lotação por área de pasto é de seis arrobas por hectare no período das águas, época do ano em que o capim tem melhor qualidade, em áreas bem manejadas para a recria. Mas, para Reis, a lotação dos pastos nessa fase poderia ser dez vezes maior, indo a 60 arrobas por hectare. “Para intensificar a cadeia produtiva, antes de ser levado ao confinamento, o gado precisa de pasto e suplementação alimentar”, diz Reis. “ É importante que o gado esteja sempre com o melhor pasto.” Para o produtor, com essa estratégia é possível fazer com que um hectare de terra tenha uma receita de R$ 6 mil por ano, ante os R$ 600 atuais (com a arroba em R$ 100). Com a recria intensificada, a margem de lucro passa a ser de R$ 2 mil por hectare, na região, competindo com o arrendamento para a cana-de-açúcar.

Reis tem como sócio no confinamento o administrador Thiago Pereira de Ávila, um dos herdeiros do grupo Cotril, do Centro-Oeste, que atua nos segmentos de máquinas agrícolas, alimentos e concessionárias de veículos Mitsubishi e Suzuki. Para Ávila, a intensificação da recria precisa estar na ordem do dia para o confinador de gado. “O Brasil abate pouco gado em relação ao total do rebanho”, diz o empresário. Com um plantel estimado em 211 milhões de bovinos, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o País abate apenas 31 milhões de animais por ano. A taxa de desfrute da pecuária, que é o estoque de gado ante o seu uso, está próxima de 15%, enquanto nos Estados Unidos e na Austrália, os principais concorrentes do País no mercado exportador de carne, ela é de 38% e 31%, respectivamente. “Uma das saídas mais rápidas para mexer nesse índice é apertar o sistema de produção na fase em que ele mais responde, a de recria”, diz Reis.

Para o presidente da Associação Nacional de Confinadores (Assocon), Eduardo Moura, que engorda 20 mil bois por ano no Confinamento Marca, em Barra do Garças (MT), intensificar a recria que vai para o confinamento poderia melhorar de fato a taxa de desfrute do rebanho. Com animais de melhor qualidade, o confinamento como estratégia de engorda poderia ganhar fôlego. O País tem potencial para confinar pelo menos quatro vezes mais do que pratica atualmente, que é de cerca de três milhões de animais por safra, sem grandes mudanças de estrutura nas fazendas confinadoras existentes. Com 12 milhões de animais no sistema, o volume de carne com osso adicionado no mercado seria de cinco milhões de toneladas. Hoje, o País processa nove milhões de toneladas.

Frente ao rebanho total de gado, o confinamento representa uma parte pequena, porém significativa. Em valores atualizados para a arroba de boi gordo, a estimativa de faturamento com gado confinado é de R$ 6,5 bilhões, volume de dinheiro superior ao que o governo federal espera faturar neste mês com as privatizações dos aeroportos do Galeão, no Rio de Janeiro, e Confins, em Minas Gerais, ou um pouco menos que a metade do bônus obtido no leilão do campo de Libra, no pré-sal.

Na opinião do professor Adilson Aguiar, da Faculdade de Uberaba (Fazu), de Minas Gerais, o grande desafio para os sistemas de recria e engorda está no alto custo de reposição. Por isso, é fundamental intensificar a pecuária de corte. “A maior parte do lucro obtido na produção de carne tem sido drenado para o ágio pago pelo animal jovem”, diz Aguiar. “Na intensificação, o capital imobilizado, no caso a terra, que é um ativo permanente e de alto valor, passa a ser atraente frente ao ativo circulante de alta liquidez, no caso os animais.”

O ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles, atual presidente do conselho consultivo da holding J&F, dona do grupo JBS, que neste ano deve confinar cerca de 200 mil animais, dizia a uma plateia de 800 pecuaristas reunidos para a Conferência Internacional de Confinadores (Interconf), no mês de setembro, em Goiânia, que o setor precisa se preparar para um mercado cada vez mais demandado por carne. “Devemos olhar para o médio e longo prazo”, disse Meirelles. Segundo o executivo, a economia da zona do euro está se recuperando lentamente e a China, o grande mercado comprador do mundo, vai passar de um consumo atual de carne próximo de oito quilos per capita ano para quase 24 quilos em 2030. “Se o mundo vai consumir mais carne, que seja a brasileira”, diz Meirelles. “E de preferência carne confinada e de alto valor agregado.”