Negócios

Café à flor da pele

Produtora do sul de Minas Gerais que desenvolveu cosméticos à base do grão é considerada campeã da inovação, aqui e lá fora

Café à flor da pele

 

Na loja: número de pontos de venda dos produtos da Kapeh cresceu de 40 para 250 em todo o País

Desde muito nova, Vanessa Vilela Araújo, hoje com 33 anos, cafeicultora da sexta geração de uma tradicional família produtora do grão no município de Três Pontas, no sul de Minas, sabia o que queria ser quando crescesse: uma mistura de alquimista com empreendedora, sem abandonar seus cafezais. Depois de alguns desafios vencidos, e muitas pesquisas realizadas com o grão, hoje ela não só é empreendedora, como está entre as dez melhores do mundo, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU). Farmacêutica por formação e empreendedora por vocação, Vanessa teve o reconhecimento internacional em abril deste ano, em um dos escritórios da ONU, em Genebra, na Suíça. Isso por diversificar seu agronegócio, idealizar e fundar, em 2008, a Kapeh, empresa de cosméticos produzidos exclusivamente à base de café que cresce no ritmo da estimulante cafeína, acima de 100% ao ano. “A Kapeh começou fornecendo produtos em 40 pontos de venda, para 17 Estados”, diz Vanessa. “Hoje, são 250 lojas com nossos cosméticos em todo o País, além de exportarmos para Portugal, Holanda e, logo mais, Coreia do Sul.”

No faturamento, os números são ainda modestos, R$ 340 mil em 2010, mas neste ano a empresa espera faturar 50% a mais com as vendas de hidratantes, xampus, condicionadores, sabonetes, esfoliantes e perfume. Para isso, além da abertura da primeira loja-conceito da Kapeh, em Três Pontas, o plano contempla o franquiamento da marca. Mas não foi o investimento inicial próximo de R$ 300 mil nem a possibilidade de se tornar uma empresária de sucesso as razões para a criação do negócio. Há muitos anos, em suas andanças pelos cafezais, Vanessa começou a perceber que as mãos dos colhedores de café não tinham manchas provocadas pelos efeitos nocivos dos raios ultravioletas do sol. A partir disso, entre 2004, após se formar pela Universidade de Cuiabá, e 2007, ela se dedicou a pesquisas pela Universidade Federal de Lavras (MG), juntamente com uma prima, sua sócia, na época. A dupla conseguiu comprovar os benefícios do grão à saúde da pele e dos cabelos, atributos até então não explorados pelo mercado de cosméticos. “Foi um estudo pioneiro e o resultado surpreendente”, diz Vanessa. “Descobrimos, por exemplo, que o café tem três vezes mais antioxidantes, substâncias que combatem os radicais livres e previne o envelhecimento do que o chá-verde”. No estudo, ela confirmou nos flavonoides a substância protetora aos efeitos do sol nas mãos dos colhedores.

 

Os passos de Vanessa

Como transformar 4,8 toneladas de café em cremes, xampus e sabonetes e ganhar o mundo

Entre 2004 e 2007, dedica-se às pesquisas na Universidade Federal de Lavras (MG)

Em 2008, funda a empresa Kapeh em Três Pontas, no sul de Minas Gerais, para produzir cosméticos

Em abril de 2011, vai à Suíça receber um prêmio concedido pela ONU, por seu empreendedorismo

 

No final de outubro, Vanessa integrou a delegação brasileira no Women’s Forum for The Economy and Society, em Deauville, na França, reconhecido pelo jornal inglês Financial Times como um dos mais importantes do mundo em inovação de empreendedorismo. O motivo de sua ida à França foi contar as novas tendências desse nicho, inclusive as da pesquisa, e como a Kapeh recebeu o Prêmio Nacional de Inovação, aqui no Brasil, concedido pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) e pelo Movimento Brasil Competitivo, em parceria com o Ministério da Ciência e Tecnologia. Vanessa não apenas explicou como trabalha com o grão, mas também mostrou o desenvolvimento de um perfume feito com a flor do café. “Como a florada acontece uma vez ao ano, na primavera, o perfume foi considerado inovador, pela sazonalidade e raridade no aroma”, diz Vanessa.

Matéria-prima para a fabricação dos cosméticos é o que não falta na Fazenda Rancho Fundo, localizada às margens do lago de Furnas, em Três Pontas. Em seus 200 hectares são produzidas anualmente oito mil sacas de cafés especiais do tipo arábica, o que dá 48 toneladas. Dessas sacas, 10%, ou seja, 4,8 toneladas por ano são destinadas às cinco fábricas, parceiras da empresa em São Paulo. Toda a produção de cafés da Rancho Fundo é certificada pela Utz Certified, com sede em Amsterdã, na Holanda, que garante rastreabilidade e práticas sustentáveis ao café. “Adotamos medidas ecológicas desde o manejo na fazenda até a embalagem e escolhemos fornecedores somente que compartilham da mesma filosofia.” Atualmente, a Kapeh conta com cerca de 150 colaboradores diretos e indiretos, da produção ao comercial.