Negócios

Dorper, a raça que conquista o Brasil

Os cordeiros do criador Valdomiro Poliselli Jr., estão seduzindo empresários como Benjamin Steinbruch e Ivan Zurita. O próximo comprador pode ser você

SELEÇÃO DE SUCESSO: animais da VPJ Agropecuária, na cidade de Jaguariúna (SP)

“O cordeiro é uma das melhores opções para o Brasil”

VALDOMIRO POLISELLI JR., pecuarista e empresário

Uma nova onda está tomando conta do agronegócio brasileiro. Com o aumento acelerado do consumo de carne de cordeiro no País, há cada vez mais empresários criando ovinos dorper, uma raça nativa da África do Sul, que tem como embaixador o pecuarista Valdomiro Poliselli Jr., dono da empresa VPJ. Criado nas fazendas do interior de São Paulo, Poliselli tem um talento raro para fazer negócios e cultivar amizades.

Dono de um rebanho de 35 mil cabeças de gado, com destaque para os campeões da raça Angus, ele só tem pensado em cordeiros ultimamente. E com sua conversa afável ele conseguiu seduzir gente de peso para esse mundo. Homens como Benjamin Steinbruch, dono da Companhia Siderúrgica Nacional, Ivan Zurita, presidente da Nestlé, e Orestes Quércia, ex-governador de São Paulo. “O dorper é hoje o melhor negócio que existe no mundo rural”, garante Poliselli. Benjamin Steinbruch, da CSN, assina embaixo. “É uma raça rústica, de fácil manejo e que pode ajudar o Brasil a reduzir nos próximos anos o volume de importação de carne de cordeiro”, analisa o empresário.

A substituição de importações é um dos principais atrativos para a criação desses animais no Brasil. O País importa mais de 35 toneladas de carne de cordeiro/mês, o que representa 80% do mercado nacional, estimado em cerca de US$ 15 milhões/ ano. E o crescimento da atividade é claro. Prova disso é a Feinco, Feira Internacional de Caprinos e Ovinos, que vem dobrando a cada ano. Para ter idéia, em 2004, em sua primeira edição, o evento teve a participação de 600 animais. Neste ano, entre os dias 11 e 15 de março, mais de 4 mil animais estarão presentes no Pavilhão de Exposições Imigrantes, na capital paulista. Um crescimento de 566%. E o dorper começa a aparecer como uma das estrelas desse mercado. Assim como o nelore se estabeleceu no País por causa de características que associam uma criação rústica e rentável, essa raça, original das savanas africanas, pode preencher a lacuna que separa a ovinocultura nacional de uma criação em larga escala. Ou seja, a adaptabilidade. Selecionados em ambientes hostis, esses animais conseguem converter praticamente tudo o que comem em proteína. Seu abate acontece aos quatro meses e o desmame aos 60 dias. “Eles são verdadeiras máquinas de fazer carne”, diz, Poliselli. Além disso, na comparação com o Santa Inês, raça típica brasileira, o dorper aceita melhor a umidade, o que facilita a criação em regiões do Sul e Sudeste do Brasil.

ELES ACREDITAM: Ivan Zurita, presidente da Nestlé do Brasil, Orestes Quércia, exgovernador de São Paulo, e Benjamin Steinbruch, dono da CSN, apostam no dorper como opção de investimento

Empolgado com os resultados e com o espaço existente no mercado, Poliselli incluiu a carne de cordeiro em sua linha de carnes, parte dos negócios da VPJ Agropecuária, cujo faturamento supera R$ 10 milhões/ano. Para atender à demanda ele teve de iniciar um sistema de integração de produtores. Ao todo são 30 criadores integrados com garantia de compra e preço travado. “Hoje estamos pagando R$ 3,60 o quilo vivo do animal.” Se comparado com a raça Santa Inez, ele afirma que um pecuarista recebe apenas R$ 2,50 pelo mesmo quilo vivo, ou seja 44% a menos que a carne de dorper pelo mesmo quilo vivo. O mistério? A raça africana é abatida de forma mais precoce, o que acentua a maciez e reduz o odor típico do cordeiro – que ainda afasta alguns consumidores no Brasil.

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Comparando com o preço da carne de boi, a diferença é 63% superior. Bom, mas o leitor pode estar se perguntando: se um boi é muito mais pesado do que um carneiro, como pode o dorper gerar mais rendimento para o criador? Isso acontece porque, em dez hectares de terra, de acordo com a média brasileira, colocam-se apenas 8 bois, enquanto, de acordo com as mesmas médias, trabalha-se com 150 ovinos. “Ou seja, o rendimento final é muito maior, até porque a carne de cordeiro é mais valorizada”, explica Poliselli. No fim das contas, aplicando-se uma equação que leva em conta o aproveitamento total real de ambos os animais, a bovinocultura tem um rendimento médio de R$ 367,84 por hectare, ante R$ 1.905,12 com a criação de dorper (ver tabela). “Para empresários do Sudeste, onde o preço da terra tem inviabilizado a pecuária bovina, o dorper pode ser uma alternativa”, afirma.

Mas para que o Brasil consiga se estabelecer como um grande produtor de carne de cordeiro será necessário mais gente envolvida. E, neste caso, a chegada de homens como Steinbruch, Quércia e Zurita, que se destacam em atividades como a criação de cavalos, gado nelore e simental, é muito bemvinda. “Estou apostando na ovinocultura”, disse Steinbruch, dono de uma empresa com receitas anuais de R$ 10 bilhões. “Continuarei comprando e investindo em qualidade.”

No fim do ano passado, Poliselli e Steinbruch realizaram um badalado leilão de dorper na capital paulista. Com eles outros três criadores pesospesados fizeram suas ofertas: o ex-governador Quércia e os empresários Luiz Felipe Brennand e Daniel Conde. Com 38 lotes vendidos com média de R$ 22,3 mil por animal, o evento levantou R$ 849 mil. “Foi um bom resultado, é uma raça que está crescendo e mostra que será um bom investimento para os próximo anos”, definiu Quércia. Quem também aderiu à raça e está se estruturando para começar a criação é o executivo e pecuarista Ivan Fábio Zurita, presidente da Nestlé do Brasil. “Existe muito espaço para a ovinocultura ”, diz o futuro criador.

AS VANTAGENS DA RAÇA: pouco exigentes em alimentação e tolerantes ao calor e ao frio, esses animais podem ser criados em qualquer região do Brasil

Como “embaixador da raça” no País, Poliselli acredita que os animais podem se firmar como uma atividade complementar nas fazendas brasileiras. Segundo a lógica do pecuarista, no espaço de um ano, cada matriz comercial é capaz de criar duas vezes fazendo caixa mais vezes ao ano. “É possível produzir com pouco espaço e sem muito gasto em infra-estrutura, sem perder liquidez”, avalia ele, que também é empresário de sucesso em outras áreas. O segundo maior rodeio do País, o de Jaguariúna, é organizado pela VPJ, Poliselli.

Para quem estiver interessado em colocar a mão no bolso e começar uma criação para o fornecimento de genética, ele faz o convite. “Precisamos aumentar a base de nossa criação, por isso mais criadores têm de entrar”, pondera. A preocupação de Poliselli é justa. Em 2008 começam as obras de seu frigorífico especializado no abate de cordeiros, num investimento de R$ 5 milhões. O pecuarista já possui uma planta para processamento da carne, mas quer verticalizar totalmente a produção. “Vamos fazer da genética até a distribuição da carne no ponto final”, avalia. “Onde coloco a carne de dorper ela vende, agora preciso de volume, basta só trabalhar e fazer esse mercado crescer”, avalia.