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A energia que vem do eucalipto

A Eldorado Brasil começa a tirar do chão sua segunda fábrica, projeto que vai consumir R$ 8 bilhões produzir até 2,5 milhões de toneladas de celulose

A energia que vem do eucalipto

Grubisch: para o presidente da Eldorado, a empresa caminha para se tornar cada vez mais eficiente na produção de celulose Divulgação

A agenda do executivo José Carlos Grubisich, presidente da Eldorado Brasil, empresa de produção de celulose do grupo J&F Holding, controlado pela família de Joesley e Wesley Batista, tem ficado cada vez mais carregada de compromissos. Desde junho, quando começaram os trabalhos de expansão da fábrica localizada em Três Lagoas (MS), município que faz divisa com o Estado de São Paulo, Grubisich divide seu tempo entre a administração da atual produção de 1,7 milhão de toneladas de celulose, por ano, e a tarefa de colocar de pé uma nova unidade, ao lado da primeira, até o quarto trimestre de 2018. Nos próximos dois meses, ela literamente sairá do chão. Quem transitar pela rodovia BR-158, na altura do quilômetro 231, poderá ver as primeiras estruturas de um projeto avaliado em R$ 8 bilhões. “Toda a base da fábrica está pronta, como terraplanagem, águas pluviais e cabeamento entre as duas unidades”, diz Grubisich. “Até abril, com os parceiros tecnológicos escolhidos, iniciaremos a etapa da engenharia de detalhamento, que significa escolher o que há de mais moderno em tecnologia de produção para otimizar custos.” Como parceiros, Grubisich se refere a gigantes multinacionais, entre eles a francesa Alstom, a alemã Siemens, a americana Andersen e a australiana Madison, que disputam a preferência da J&F Holding no fornecimento de maquinários e sistemas informáticos. A segunda linha está projetada para processar até 2,5 milhões de toneladas anuais de celulose, volume quase 50% superior ao atual.


Na floresta: depois do corte do eucalipto, em vez das raízes apodrecerem no campo, elas são transformadas em eletricidade

Por trás dessa estrutura fabril, o trabalho no campo também é frenético. A Eldorado está saindo de uma área cultivada de 220 mil hectares de eucalipto para 380 mil hectares, até o final de 2017. Nas últimas safras, a expansão em terras arrendadas tem sido de 50 mil hectares por ano. São 80 milhões de árvores plantadas a cada ciclo e certificadas pela Forest Stewardship Council (FSC, ou Conselho de Manejo Florestal, em português), selo verde para negócios do setor, presente em cerca de 75 países.  O gerente de Planejamento e Controle Florestal, Carlos Justo, diz que o plantio nessas áreas tem sido milimetricamente planejado. No final de 2015, por exemplo, a empresa finalizou o desenvolvimento de uma tecnologia inédita para definir com mais precisão as linhas de plantio das árvores. Com a ajuda de três Vants (veículos aéreos não-tripulados), GPS e piloto automático, a Eldorado quer aumentar a produção de celulose, por hectare, de cerca de 40 toneladas para índices acima de 50 toneladas. “Com o georreferenciamento, outros processos mecanizados podem futuramente ser automatizados, como irrigação, adubação e operações de controles de matocompetição, aumentando a produção por área”, diz Justo.

A Eldorado também possui um projeto inédito no mundo, destinado à produção de bioeletricidade a partir do uso de tocos de raízes que hoje apodrecem no campo. De acordo com Grubisich, a ideia é construir termoelétricas, produzir excedente de energia e vender para a rede nacional. Hoje, a sobra é de 30 megawatts e com a segunda fábrica a estimativa deve ser de 210 megawatts. “Mas, se usarmos as raízes, produto sustentável, de baixo custo e abundante, podemos vender ainda mais”, diz. O projeto piloto para análise de custo-benefício está implantado em uma área de 100 hectares.

A Eldorado tem pressa porque briga por uma fatia de mercado dominado por empresas como a Fibria, a atual maior produtora mundial de celulose, com 5,3 milhões de toneladas anuais, a Internacional Paper, Suzano, Klabin e Cenibra. Em 2015, a exportação total de celulose rendeu ao Brasil US$ 5,6 bilhões, ante US$ 5,3 bilhões em 2014. Em volume foram 11,9 milhões de toneladas, 900 mil toneladas acima do ano anterior. A demanda por celulose tende a ser crescente, impulsionada pelo consumo na China, país que vem trocando seu modelo de desenvolvimento, baseado em exportação e infraestrutura, pelo consumo interno. Para Grubisich, a celulose tem se beneficiado com isso porque se encaixa como matéria-prima para produtos descartáveis, como fraldas, lenços e papeis higiênicos, que passaram a ser altamente consumidos em países emergentes. “Em 2014, a demanda de celulose no mundo cresceu 1,4 milhão de toneladas e para 2015, ela pode ter chegado a dois milhões”, afirma Grubisich. “Isso significa que o mundo precisa de uma fábrica de grande escala a cada ano e meio e a China, nosso maior cliente, não pode construí-las.” A Eldorado exportou 680 mil toneladas, 40% da produção, para o país asiático no ano passado.