Negócios

Escola do café

Os exportadores do grão já gastaram R$ 3 milhões e pretendem repetir esse volume de dinheiro para promover a inclusão digital no campo

Vagner Luís de Oliveira tem 22 anos e é filho de um administrador de fazendas em Espírito Santo do Pinhal, município do interior paulista. Desde pequeno, ele está acostumado à rotina rural do município, numa região dominada por cafezais. Como muitos filhos de agricultores, Vagner poderia ter seguido os passos do pai, mas não foi isso que lhe aconteceu, ao se descobrir um apaixonado por computadores. Hoje, ele é um educador digital. E o que isso tem a ver com o agronegócio? Tudo, segundo o Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (CeCafé), uma entidade que representa 138 indústrias que vendem ao Exterior 28,2 milhões de sacas do grão por ano. Assim como Vagner, atualmente um grande número de jovens nascidos no campo vem tendo a oportunidade de mergulhar no mundo da informática, graças ao programa Criança do Café na Escola, criado pela entidade em 2003. “Sempre tive a certeza de que o meu destino estava ligado ao meio rural”, diz ele, que, além de educador em uma escola municipal, cursa o terceiro ano de análise e desenvolvimento de sistemas. “Mas agora sonho com horizontes diferentes no café e em muito mais.” Vagner acredita que, no futuro, poderá aplicar seus conhecimentos em varias áreas da tecnologia da informação.

O projeto do CeCafé já atendeu mais de 40 mil crianças no País. Atualmente, são 120 salas de informática instaladas em 90 cidades. A infraestrutura para o ensino é montada nas escolas municipais, em parceria com as prefeituras, como é o caso do colégio de educação infantil Águeda Fernandes Vergueiro, em Espírito Santo do Pinhal. Nessa escola, crianças entre 3 e 7 anos têm aulas de computação, mas, em todo o País, o projeto acolhe crianças até a nona série do ensino fundamental. Para a diretora da escola que possui 240 alunos, Maria Aparecida Gomes, a parceria com o CeCafé tem dado resultados muito positivos e mostra como as crianças respeitam esse tipo de espaço. “Desde que o projeto foi inaugurado, em 2011, apenas um mouse foi danificado”, diz. “Impressiona ver a facilidade com que os pequenos lidam com os computadores.”



Neste ano, o projeto está completando dez anos, período em que foram investidos mais de R$ 3 milhões exclusivamente na compra de computadores. Segundo Ronaldo Taboada, diretor-financeiro e administrativo do CeCafé e responsável pelo projeto, alguns resultados colhidos vão além do repasse do conhecimento aos jovens. “As crianças que participam das aulas, e que são o futuro dos cafezais brasileiros, hoje têm muito mais conhecimento do que seus pais quando eram jovens”, diz Taboada. “Esse acúmulo de conhecimento contribui para a formação do jovem e também chega à sua família.” A história de Vagner, escolhido como educador do projeto depois de ter passado por ele, é uma delas. O garoto, que começou como aluno em 2005, passou a estimular o uso do computador por seus dois irmãos mais novos, mas o que ele considera seu maior desafio vencido foi fazer do pai um usuário de programas de informática. Hoje, o pai utiliza planilhas de Excel para administrar a fazenda na qual trabalha. “Era uma questão de sobrevivência se dedicar a esse aprendizado”, diz Vagner. “Com o boom da informática, o dono da fazenda disse ao meu pai que ele deveria usar o computador, caso contrário seus serviços não seriam mais úteis.”

Para os próximos dez anos, o CeCafé já definiu como serão empregados mais R$ 3 milhões previstos para o programa. “Pensamos em dobrar o número de unidades instaladas, ou cidades atendidas, mas decidimos que o melhor é dar sustentabilidade ao que já foi realizado”, diz Taboada. O foco do trabalho atual é renovar as unidades mais antigas do projeto e dobrar a quantidade de crianças atendidas. “Estamos ouvindo esses jovenzinhos, que são o nosso público-alvo.” Para entender exatamente quais são os problemas das salas de informática do CeCafé, Taboada já visitou 54 escolas que participam do projeto. Segundo ele, os computadores obsoletos é que estão brecando o desenvolvimento mais acelerado nas salas de aula, sem contar o valor mais alto para a manutenção de máquinas antigas.

Até o ano passado, eram inauguradas de 10 a 14 salas por ano, mas a ideia agora é diminuir para seis inaugurações por ano e investir na renovação e recuperação de equipamentos. “A futura mão de obra especializada de que tanto o Brasil necessita está aí”, afirma Taboada.