Negócios

Fábrica de Bezerros

O pecuarista Gilberto di Biasi, de Aporé, em Goiás, vende animais precoces, que valem o dobro do que pesam

O que mais enche os olhos do criador Gilberto Di Biasi, dono da fazenda da Barra, em Aporé, município do Sul de Goiás, é reunir no curral sua bezerrada bem pesada e uniforme, fruto de mais de duas décadas de seleção de gado destinado à produção de carne. Por ano, passa pelo crivo do criador a produção de quatro mil bezerros que são vendidos a invernistas ou confinadores,  que finalizam a engorda até o abate. Mas nem sempre foi assim. Formado em administração e economia, até 1988 Di Biasi vivia em função  do que acontecia na Bolsa de Valores de São Paulo, ano em que largou o terno e a gravata para se dedicar exclusivamente à pecuária. “Não me arrependo um só minuto”,  afirma Di Biasi.

Nesta safra, os bezerros da fazenda da Barra estão sendo vendidos à média de R$ 5,20 o quilo vivo, o equivalente a R$ 1,2 mil por animal, aos sete meses de idade. Esse valor é praticamente o dobro do preço praticado na região de Aporé. “Criar bezerros hoje é um bom negócio, o mercado nunca esteve tão aquecido”, diz. O criador guarda a sete chaves o faturamento da fazenda, mas apenas com os bezerros a receita desta safra deve ficar em torno de R$ 4,8 milhões. Di Biasi também vende touros e fêmeas superiores. Na fazenda da Barra, que se estende numa área de 11 mil hectares, dos quais oito mil são ocupados por pastos, os bezerros criados por Di Biasi são da raça montana, de origem americana. No total, contando as seis mil fêmeas na reprodução, as novilhas e os touros, o rebanho atinge a marca de 12 mil animais. Por ter optado pela montana, por muitos anos Di Biasi nadou contra a corrente, para mostrar a excelência da raça. No Brasil dominado pelo nelore, o gado é criado puro, ou cruzado preferencialmente com os angus, brangus e braford, todos com rebanhos puros concentrados no Sul do País. “Minha ideia era trabalhar com uma raça para ser desenvolvida no Centro-Oeste, e que fosse produtiva”, diz. “Não queria complicação e por isso meu desejo era a especialização.” Na época em que assumiu a fazenda familiar, Di Biasi trocou até o sistema de criação da propriedade. Seu pai e avô sempre se dedicaram à pecuária de ciclo completo, do nascimento ao abate. Com foco no sistema de cria, atualmente Di Biasi consegue desmamar os animais com 240 quilos, 20% acima da média nacional. “Os números estão muito favoráveis, estamos ganhando 25% a mais, no  total, por criar montana do que se tivéssemos criando uma outra raça pura”, afirma. Toda a produção de bezerros é vendida na fazenda. Apenas os touros são comercializados em um leilão virtual televisionado, o que reforça o marketing do negócio. No mês passado foram vendidos 80 touros pelo Canal do Boi. Para os bezerros, um dos clientes mais fiéis de Di Biasi é Marcelo Carvalho Dias, dono da empresa de nutrição animal Cia do Sal, de Barretos, no interior de São Paulo, que também possui um confinamento para 2,5 mil animais. Carvalho Dias compra de Di Biasi uma média de 500 bezerros por ano. “Compro para recriar e confino no ano seguinte”, diz o empresário.

“A grande vantagem do montana é a precocidade. Estamos abatendo animais de 22 arrobas com no máximo dois anos, isso é fantástico.” Os números expressivos da pecuária da fazenda da Barra são fruto de sua decisão de entrar de cabeça na empreitada de introduzir no Brasil uma raça até então desconhecida. Di Biasi conheceu o gado montana em 1992, quando foi convidado a viajar para os Estados Unidos junto com Paulo Roberto Silva, na época veterinário
da Agropecuária CFM, do grupo inglês Vestey, dono de um dos maiores projetos de produção de touros do País. Na época, Di Biasi e Silva foram conhecer o que havia de mais moderno em sistemas de cria e cruzamentos entre raças bovinas no mundo. No centro de pesquisa Clay Center, em Nebraska, o pecuarista começou a entender o conceito do que é uma raça composta, como é o caso do montana. “Foi aí que comecei a abrir a minha cabeça”, diz o criador. A raça concebida pelos americanos, em doses certas de genética para cada ambiente em que um animal vive e se reproduz, é o resultado de cruzamentos sucessivos entre raças zebuínas, taurinas e uma que seja adaptada ao ambiente em que será criada. No caso do Centro- Oeste brasileiro, o composto montana é formado pela nelore, angus, simental e bonsmara ou senepol, como raça adaptada ao clima tropical. “Antes do montana, os cruzamentos aconteciam de forma desordenada”, diz Di Biasi. “Por isso, naquela época, os cruzamentos tinham sucesso, mas também  fracassos na mesma proporção.” 

Atualmente, há 12 criadores de gado montana em atividade no Brasil, responsáveis por um rebanho estimado em 40 mil animais. O grupo integra o Programa Montana, do qual Di Biasi atualmente é o diretor. Neste ano, o programa completa duas décadas, com 355 mil medições de peso ao desmame, figurando como o maior banco de dados sobre animais compostos em todo o mundo. Apenas  para os touros da raça já foram emitidos cerca de 13 mil Certificados Especiais de Identificação e Produção (Ceip), documento outorgado pelo  Ministério de Agricultura para animais superiores. Segundo Gabriela Giacomini, zootecnista e gerente de operações do Programa Montana, a grande vantagem da raça composta são os ganhos genéticos expressivos nos bezerros nascidos, como uniformidade, potencial de ganho de peso, precocidade e carne de qualidade dos animais abatidos puros ou cruzados com outra raça. “Na pecuária, são essas características da criação que imprimem maior rentabilidade ao negócio”, diz Gabriela. “O montana, que pode ser criado em qualquer região, dá conta do recado.” No País, o grupo de criadores da raça tem animais no Sul, Sudeste e Centro-Oeste.