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Fazendas a jato

Os aviões, que há muito tempo deixaram de ser um hobby, cada vez mais fazem parte da rotina do empresário rural

Fazendas a jato

Nas alturas:o presidente da Inpaer, Milton Roberto Pereira, sobrevoa São João da Boa Vista (SP), onde está a sua fábrica de aviões, de olho na expansão de vendas para o agronegócio Foto:João Castellano/istoé

Não por acaso, Mato Grosso, o maior produtor de grãos do País, também figura nas primeiras posições da lista das maiores frotas de aeronaves executivas. Atualmente, são 1,2 mil aviões estacionados nos hangares ou voando pelos céus do Estado, muitos deles pertencentes a empresas do agronegócio. Embora não exista dados oficiais sobre quais são os setores que mais utilizam esses aviões, basta ver o movimento de grandes grupos locais, como a Amaggi, que conta com quatro aviões próprios. “A frota de aviões executivos de Mato Grosso fica atrás, apenas, de São Paulo e Minas Gerais”, afirma o engenheiro mecânico Milton Roberto Pereira, presidente da Inpaer, fabricante paulista de aviões de médio e pequeno porte, com sede em São João da Boa Vista, no interior paulista. “Não temos dúvida de que a demanda por aviões executivos também se sustenta no crescimento do agronegócio”, diz ele.

Mas não é somente o Estado de Mato Grosso que chama a atenção da indústria aeronáutica. Outros polos importantes da agropecuária, como Goiás, Paraná e Rio Grande do Sul têm se tornado alvo dos fabricantes e revendedores (confira o quadro). O uso de aeronaves há muito tempo deixou de ser um hobby na mão de milionários e cada vez mais vem se transformando numa ferramenta de mobilidade e gestão. Com elas, empreendedores que residem em localidades distantes de suas propriedades podem economizar dias de viagens por estradas nem sempre seguras. Maurílio Biagi Filho, presidente do Grupo Maubisa, de Ribeirão Preto (SP), por exemplo, não abre mão delas. Para controlar a holding, que tem sob seu guarda-chuva investimentos no campo e no setor imobiliário, Biagi Filho dispõe de um avião e de um helicóptero. “As aeronaves sempre fizeram parte da minha rotina”, diz Biagi Filho, de 72 anos. “Sem eles, organizar e cumprir a agenda seria complicado.”

De olho nesse público, Pereira, que já foi vice-presidente do Banco Votorantim, diz que está preparando sua empresa para ser líder na aviação geral no Brasil, no segmento dos   aviões executivos para até quatro passageiros (a Embraer, maior fabricante nacional do setor, não cobre essa faixa). Nada menos de 30% das 250 unidades vendidas desde que a Inpaer foi fundada há 13 anos, foram compradas por fazendeiros ou empresas do agronegócio. “Queremos aumentar ainda mais essa participação”, diz Pereira. No País, de acordo com a Associação Brasileira da Aviação Geral (Abag), o setor cresceu 43% entre 2003 e 2013, totalizando 14,6 mil aparelhos, entre aviões e helicópteros. É a segunda maior frota mundial, atrás apenas dos Estados Unidos. “Além de apostar no crescimento da compra de aviões pelo   agronegócio, também acreditamos na renovação da frota nacional”, diz Pereira. “Ela precisa ser trocada e temos produtos mais competitivos para oferecer ao empresário rural.” Segundo ele, pouco menos de 50% da frota em atividade tem entre 26 e 45 anos de uso.


Briga no céu: os aviões da brasileira Inpaer vão competir por uma fatia do mercado hoje coberto pelas aeronaves das americanas Cessna, Cirrus e Piper

O mercado mundial de aviões executivos de pequeno porte é dominado pelas americanas Cessna, Cirrus e Piper. Mas essas empresas vendem jatos caros, com preços de entrada próximos a US$ 360 mil. Já a Inpaer, com seus aviões monomotores turboélice, oferece aeronaves com preço inicial de US$ 135 mil, indo até o máximo de US$ 400 mil. Para brigar por uma fatia maior do mercado, a Inpaer investiu R$ 36 milhões, desde 2013, na reestruturação de sua fábrica, saindo do nicho de aviões sob encomenda. Segundo Luciano Cruz, superintende comercial da empresa, a expectativa é vender 60 aviões em 2016 e faturar cerca de R$ 40 milhões. De 2017 em diante, a meta é crescer 20% anuais. “Isso vai permitir nossa consolidação em um setor onde reinam as americanas.”

FINANCIAMENTO Para aqueles que desejam estacionar um avião na garagem, o mercado oferece algumas opções de financiamento. Através do BNDES, por exemplo, a linha BK Aquisição de Ônibus, Caminhões e Aeronaves Executivas garante 85% do valor da aeronave, com cinco anos para amortizar o investimento. Há também opções de leasing, ou mesmo linhas de crédito oferecidas em instituições como Bradesco e Banco do Brasil. Além disso, nos últimos tempos tem ganhado terreno uma nova modalidade: o compartilhamento de bens de alto de valor.


Economia: para Marcus Matta, da Prime Fraction Club, uma aeronave compartilhada significa menos gastos ao produtor rural

No caso de aeronaves, a Prime Fraction Club, de Barueri, na Grande São Paulo, e a Avantto, na capital paulista, se dedicam a esse mercado. A Prime, do empresário Marcus Matta, fundada em 2009, oferece jatos e helicópteros. Nesse caso, a conta é mais salgada que a dos aviões convencionais. Na ponta do lápis, a adesão à Prime custa US$ 1 milhão e US$ 50 mil são gastos mensalmente para manter a aeronave. “Levando em conta que um jato pode custar US$ 3 milhões, o compartilhamento é uma saída mais econômica”, diz Matta.  “Além disso, o cliente vai ter uma aeronave sempre à mão.”

A ideia do compartilhamento de bens em cotas de tempo de uso veio da americana NetJets. No caso de um jato, as cotas por aeronave são de 25 horas mensais divididas entre três clientes. “Isso tem atendido bem o setor, tanto que o agronegócio já representa 22% dos nossos cotistas”, diz Matta. “Com o dinheiro economizado, o produtor pode reaplicá-lo em seu próprio negócio.” Contando apenas com jatos para pousos em pistas pavimentadas, a aposta da Fraction é adquirir aviões adequados a pistas de terra, situação da maior parte de pousos e decolagens em propriedades rurais no País.


Rotina: Maurílio Biagi Filho, do Grupo Maubisa, mantém atualmente um avião e um helicóptero para cumprir sua agenda de negócios e reuniões