Negócios

Gerdau constrói o cavalo perfeito

Com planejamento empresarial e muita genética, barão do aço faz de seu haras um celeiro de animais campeões e vira referência mundial na criação de eqüinos

JORGE GERDAU JOHANNPETER: com Singular Joter II, campeão Pan-Americano por equipe e pai de sua obra-prima

Acionista e presidente de um dos maiores conglomerados siderúrgicos do mundo, o carioca Jorge Gerdau Johannpeter deu uma tacada de mestre em um setor que nada tem a ver com os negócios de suas empresas. Por meio de uma série de cruzamentos de sangue de importantes matrizes, feita ao longo dos últimos 25 anos, Gerdau criou o que se imagina ser o cavalo modelo da raça holsteiner, a mesma que brilha nas principais competições olímpicas e que, na última semana de julho, ajudou a dar ao Brasil a medalha de ouro nos Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro. O nome do “cavalo perfeito” é Singulord Joter, nascido em 1999, e é considerado uma obra-prima pelos especialistas e um dos melhores exemplares que sua raça já teve.

“Lutei muito para me tornar um grande exportador de aço. Agora quero ajudar o Brasil a exportar a qualidade de cavalos de salto”

MÉTODO GERDAU: baseado em resultados e características dos animais

Quem garante? O principal juiz da raça holsteiner na Alemanha, Thomas Nissen, e um dos maiores especialistas do mundo no assunto. Todos os anos, centenas de cavalos são analisados por Nissen e não é exagero afirmar que boa parte dos melhores exemplares das últimas décadas, passaram por suas vistas. Após analisar a “cria” de Gerdau, Nissen definiu o animal assim: “Garanhão impressionantemente esportivo, imprimindo seu tipo moderno e aparência harmônica. Seus saltos demonstram todas as características necessárias. Seu papel é puro holsteiner e combina os cavalos de sucesso da família Johannpeter”.

O que faz de Singulord Joter um cavalo especial na opinião da juíza Bia Nicotero, titular do Haras Feroleto (SP), é o conjunto da obra. “Só com muito planejamento é possível chegar a um animal assim.” O que Jorge Gerdau acha disso tudo? Ele acredita que tenha realmente criado um animal diferenciado, talvez até um modelo. Mas apenas por enquanto. “A criação de cavalos é dinâmica e precisa evoluir sempre, nada é definitivo”, diz.

TRADIÇÃO FAMILIAR: com o filho Carlos Bier Johannpeter em competição na capital paulista

Se Singulord é a perfeição da raça, só o futuro provará. Melhor do que um resultado solitário e único é a série de acertos que Gerdau tem em seu currículo. Calei Joter, na Olimpíada de Sydney, foi bronze com André Johannpeter, filho de Gerdau. Mas esse não é o único caso de sucesso. Calei Joter também esteve nos Jogos Olímpicos de Atlanta, nos Estados Unidos, em 1996, na primeira medalha olímpica do Brasil no hipismo. Ao lado desse animal, nos mesmos Jogos Olímpicos, estavam os cavalos Adelfos e Kassiana, ambos da criação de Jorge Gerdau. Esse feito o colocou como único criador do mundo a ter três animais numa mesma Olimpíada. Gerdau se orgulha desse feito. Contudo, diz que a busca da excelência é uma corrida que nunca tem fim. “Foi um pouco de sorte, mas na vida sorte também é necessária.

ENCONTRO DE GERAÇÕES: com o brasileiro Rodrigo Pessoa, um dos melhores cavaleiros do mundo, durante evento realizado em Porto Alegre

O que chama de sorte, na verdade, tem por trás pura obsessão. Jorge Gerdau, da mesma forma que alavancou a fábrica de pregos da família no Rio Grande do Sul ao posto de décimo maior conglomerado siderúrgico do mundo, faz tudo, no que diz respeito a cavalos, com um planejamento invejável. A decisão de começar uma criação se deu em 1982. “Decidi que não queria ser mais um comprador de cavalos e passei a criá-los”, relembra. Como de costume, antes de entrar de cabeça no negócio, procurou os melhores especialistas do mundo para decidir, primeiro, qual raça criar e, a partir disso, desenvolver um modelo de criação.

VIDA A CAVALO: entre os vencedores, Gerdau recebe prêmio em competição no Uruguai

De malas prontas partiu para Alemanha onde se encontram os melhores cavalos de salto do mundo. Debruçado sobre dados, estatísticas e resultados, o empresário se decidiu pela raça Holsteiner, segundo ele, a mais versátil e que reúne as qualidades necessárias para um bom cavalo. “Chamei para ser meu consultor a maior autoridade em cavalos holsteiner, Maas Hell, já falecido”, relembra. Hell pode ser considerado sinônimo da raça. Pelas mãos do especialistas passaram alguns dos principais raçadores, responsáveis por mais de 80% das linhagens vencedoras. “Disse que procurava um garanhão para começar um haras”, conta Gerdau. “Mas ele falou que deveria começar um haras com uma égua”, destaca.

Hell ajudou Gerdau a escolher as primeiras matrizes, ao todo seis, que deram início à sua vitoriosa criação. Perfeccionista, o empresário julgava que apenas criar não era o suficiente para ter sucesso nessa empreitada. Era preciso acompanhar tudo muito de perto e ter total escolha dos cruzamentos a serem feitos. “Para tanto criei um sistema de pontuação para cada qualidade e deficiência que me permita entender que tipo de virtude é necessário ser incorporado”, explica. A história é mais ou menos a seguinte: para cada qualidade importante de um cavalo de salto – força, agilidade e docilidade – ele atribui pontos. “E para tudo aquilo que falta, procuro linhagens de sangue que transmitam as características que vão completar o que a minha matriz oferece”, revela. Nessa afirmação há um detalhe interessante na maneira de Gerdau criar. Ele sempre procura “famílias” vencedoras e não indivíduos. “Faço uma criação tailor-made (sob-medida)”, afirma. Para resumir seus sonhos como criador, faz uma analogia à sua biografia de empresário. “Lutei muito neste país para ser um exportador de aço. Da mesma maneira, acredito que o Brasil tem condições de formar uma criação tão boa quanto a produzida na Europa e hoje pretendo ser um exportador de cavalos, justamente pela qualidade alcançada.”

PRODUÇÃO CONTÍNUA: César Almeida (ao lado) foi ouro no Pan do Brasil com Singular Joter II; Calei Joter (abaixo) foi medalha de bronze na Olimpíada de Atlanta em 1996

Todo esse investimento – em seleção genética, funcionários, alimentação e tempo, claro – não custa pouco. Gerdau, no entanto, não costuma falar de valores quando o assunto é cavalo. Mas um reprodutor de linhagem top como Singulord Joter não é encontrado no mercado por menos de 1 milhão de euros. E mesmo com o dinheiro em mãos e toda a disposição em comprar um animal desses, não há garantias de fechar negócio. Criadores tradicionais não vendem seus melhores animais por dinheiro nenhum. O empresário português Diogo Coutinho, proprietário do garanhão Baloubet du Ruet, montado pelo brasileiro Rodrigo Pessoa, rejeitou uma oferta de US$ 5 milhões, feita por uma princesa árabe. Animais top dificilmente são comercializados.

GENÉTICA PARA EXPORTAÇÃO: Singular é pai de Singulord, obra-prima de Gerdau

As doses de sêmen, porém, podem chegar a US$ 3 mil e a procura é grande. No caso de Singulord, segundo Gerdau, antes mesmo de sua aprovação como garanhão no Stud Book holsteiner – o grande concentrador de registros da raça – tinha uma longa fila de interessados. E certamente o empresário do aço começou este negócio sem ingenuidade: queria mesmo era ganhar dinheiro com ele.

 

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