Negócios

Guardião de um sonho

João Aguiar Alvarez, neto do fundador do Bradesco, Amador Aguiar, luta para manter vivo o sonho agropecuário do avô

“Quero dar continuidade ao trabalho de meu avô e ser reconhecido como um bom criador de nelore “

JOÃO AGUIAR ALVAREZ: neto de Amador Aguiar, fundador do Bradesco

João Aguiar, neto mais velho do lendário banqueiro Amador Aguiar, fundador do Bradesco, é um sujeito que não abre mão de seus sonhos e da história de sua família. Desde cedo ligado à lida do campo, formou-se engenheiro agrônomo e sempre acompanhou de perto os negócios rurais da família. Ao lado dos primos Marcelo e Rubens Aguiar, ele administra a Santa Maria Agropecuária, empresa familiar fundada em 1967 por seu avô, falecido em 1991. Trata-se de um conglomerado de seis fazendas que produzem 4.800 hectares de cana-de-açúcar, 1.200 cabeças de gado de corte e um projeto em fase de implantação de 300 mil pés de laranja. No banco, instituição que no primeiro semestre deste ano obteve lucro líquido de R$ 4 bilhões, faz parte do conselho e acompanha de perto a evolução dos negócios. Mas a grande paixão de João Aguiar é, na verdade, uma bem-sucedida criação de nelore mocho, iniciada 37 anos atrás também por seu avô. “Certa vez ele me perguntou se era isso mesmo o que eu queria fazer e, desde então, ele me incentivou muito”, comenta.

A criação começou em 1970, quando Amador Aguiar comprou um lote da Estância Marca Taça, um dos principais criatórios da época. Nesse período, o empresário contava com 13 fazendas. “A intenção dele era fazer tourinhos para fornecer para gado comercial”, conta João. A razão, diz, é que o gado mocho é mais apropriado para rebanhos de corte, principalmente porque sem chifres o risco de ferimentos diminui abruptamente. Com o tempo, porém, o gado P.O. (Puro de Origem) deixou de ser prioridade e boa parte do trabalho ficou comprometida. “Em 1986 consegui recuperar esse gado, levantando os registros e trabalhando os cruzamentos mais de perto”, relembra. Porém, foi em 1993 que João começou a comprar seus primeiros animais e iniciou sua criação particular. Dois anos depois, fundou a Fazenda Valônia, especializada na criação de Nelore Mocho. “Em 1997, a Santa Maria Agropecuária decidiu deixar a criação de gado de elite e eu assumi aquele plantel”, diz.

PLANTEL DE 1.200 CABEÇAS é a quantidade de gado P.O. de elite que João Aguiar Alvarez possui

A partir do momento em que tomou para si a responsabilidade de levar adiante o sonho do avô, João se deparou com alguns problemas que teve de solucionar. O primeiro deles era procurar montar um plantel homogêneo, de alto padrão. Com 1.200 cabeças de gado de P.O., ele começou a fazer alguns cruzamentos e comprar animais para melhorar sua criação. “Acho importante fazer investimentos, mas tudo tem de estar dentro de um limite viável”, diz. Criado dentro da lógica de que investimentos têm de dar retorno, o empresário é adepto da estratégia de pinçar bons animais nos leilões, porém sem pagar preços exorbitantes.

Nos últimos anos as intervenções de João têm sido acertadas. Na sede administrativa de sua Fazenda Valônia, duas salas ostentam uma coleção de dezenas de prêmios obtidos em pistas de exposição Brasil afora. A caminho de seu quarto leilão individual que acontecerá em 10 de novembro, ele espera repetir o bom desempenho de outras edições. Até hoje, seu animal mais valorizado saiu por R$ 350 mil. “Mas era um touro realmente muito bom.” Ele comenta que nos dois últimos anos apresentou animais em outros remates como convidado. Mas agora ele pretende concentrar a nata de sua criação num só evento. Serão 100 animais ofertados. E, sem fazer alarde, ele começa a entrar também na criação do nelore padrão. “Não tenho pressa, por enquanto tenho 15 matrizes e aos poucos vou estruturando a minha criação.” O que ele faz? “Crio nelore, se é mocho ou padrão, isso não faz muita diferença”, avalia. “Quero dar continuidade ao sonho do meu avô e com o tempo ser reconhecido como um bom criador”, define João.