Negócios

Guerreira do campo

A incrível história da dona de casa Norma Rampelotto.

“Na agricultura, todos os dias é necessário se renovar”

NORMA RAMPEELLOTTTTO GATTTTO

Até o final de 2000, a gaúcha Norma Rampelotto Gatto era mãe em tempo integral de seus três meninos. Só ia à fazenda da família nos arredores de Rondonópolis “no papel de espectadora”, como ela mesma diz. Uma tragédia interrompeu a rotina de quase 20 anos. Um ex-funcionário assassinou friamente o marido de Norma. De um dia para outro, ela se viu lançada em um mundo do qual nada entendia e, sobretudo, predominantemente masculino. “Meu pai era agricultor e eu tinha três homens em casa”, conta ela. “O futuro parecia indicar uma sucessão de meu marido para meus filhos.” Mas o destino traçou outro cenário para ela. Com a morte do marido, Norma assumiu o comando dos negócios e não se pode dizer que os resultados não tenham sido bons. A área cultivada cresceu, a produtividade também e a rotação de culturas foi implantada. Mas Norma se viu diante de um dilema: manteria as fazendas ou as passaria para a frente. Afinal, seu conhecimento da atividade era próximo do zero. “Eu acordava à noite e pensava: será que vamos quebrar?”, recorda. “Era angustiante.” Havia um estímulo para que ela entregasse as fazendas para terceiros. “Produtores me procuraram querendo arrendar as terras”, diz.

O que a fez decidir foi a necessidade. Faltavam cerca de 150 hectares para o término do plantio, menos de 10% da área total cultivada. “Não havia como parar naquele ponto. Então resolvi que continuaria até a época da colheita”, conta Norma. E nunca mais parou. Tão logo os últimos sacos de soja deixaram suas propriedades (e ela respirava aliviada), os funcionários vieram procurá-la. “A senhora não vai fazer o planejamento do próximo plantio?”, perguntaram. “Sempre achei que plantar era jogar a semente no solo e algum adubo”, diz. “Não tinha idéia da complexidade.” Como pouco sabia, tudo poderia aprender. Primeiro, chamou os dois gerentes e avisou da mudança: sairia a centralização de administração, marca registrada do marido, e agora teriam que tomar decisões e não apenas executá- las. “Nós aprenderíamos juntos”, disse para eles. Contratação de funcionários, compras de insumos, entre outras atividades passaram a ser responsabilidade dos gerentes.

PROPRIEDADE

7.000 HECTARES é a área plantada das fazendas de Norma. Inicialmente, eram 2,3 mil hectares

Norma mergulhavou em cursos intensivos de agronegócio. Não havia seminário, palestras e feiras sobre o assunto em que ela não estivesse. “Perdi a conta de quanto tempo passei nos bancos escolares”, diz ela. Se dúvidas técnicas a afligiam, pedia socorro à Fundação Mato Grosso, uma espécie de Embrapa estadual. Ao mesmo tempo, Norma passou a participar das reuniões do grupo Guará, formado por produtores da região para a troca de experiências. De uma presença calada, tornou-se participante ativa das discussões, chegando a organizar uma central de compras conjunta de matérias- primas e insumos. No começo eram apenas cinco integrantes. Hoje são 20. “Garantimos uma redução nos custos”, afirma. A dedicação extra aos negócios exigiu mudanças na vida caseira. A empregada foi chamada a assumir novas responsabilidades, os filhos ganharam mais independência. “Caso contrário, não poderia tocar as fazendas”, diz.

Os resultados apareceram. Quando assumiu o comando, a área cultivada somava 2,3 mil hectares. Hoje são mais de sete mil hectares. A produtividade se mantém na casa das 55 sacas por hectare, dentro da média da região. O próximo passo é plantar milho para diversificar e fugir dos efeitos negativos da monocultura. Vitória? “Nada disso. Na agricultura, todos os dias é necessário se renovar”, afirma.