Negócios

Leite a caminho

A Itambé investe na qualidade da captação do produto "in natura", nas fazendas, para ganhar competitividade

Enquanto a cadeia produtiva do leite brasileira discute a prorrogação e as adequações à Instrução Normativa 51, medida do governo federal que se arrasta desde 2002 e que define os parâmetros mínimos da qualidade do produto, a Itambé, a maior cooperativa de lácteos do País, vai fazendo sua parte. Neste ano, a empresa começou a reestruturar sua frota de caminhões-tanque e está investindo R$ 8,5 milhões para melhorar a qualidade da coleta de leite “in natura” recolhido pela fábrica de Sete Lagoas, cidade distante 75 quilômetros de Belo Horizonte. “Com a nova frota vamos ganhar tempo entre a fazenda e a fábrica”, diz Tarcísio Provenzano Costa, gerente industrial da Itambé na unidade mineira.“Leite sem qualidade no laticínio pode mexer facilmente nos custos de operação do negócio.”

SEM PARAR: Silveira (esq.) afirma que o leite será recolhido mais rapidamente. “E o custo será reduzido”, diz Costa

A fábrica em Minas Gerais é a unidade mais antiga, inaugurada em 1957, com capacidade para captar 1,8 milhão de litros de leite por dia. Com um faturamento anual de R$ 2,1 bilhões, a Itambé, na verdade, é uma central que reúne 31 cooperativas espalhadas pelos Estados de Minas Gerais, Goiás e São Paulo. Essas cooperativas alimentam as cinco fábricas com três milhões de litros de leite diariamente, produzidos em 8,5 mil propriedades. “As outras quatro fábricas também contarão com novos caminhões, mas ainda não há uma data definida para finalizar a substituição de todos os veículos”, diz Costa. Nessa primeira etapa, a Itambé adquiriu 46 caminhões, customizados na plataforma conhecida como PVE (Plataforma de Veículos Especiais) da Iveco, do grupo Fiat, finalizados de acordo com suas necessidades. “Saímos de um caminhão- tanque com captação entre quatro mil e cinco mil litros por hora nas fazendas, com estrutura física totalmente precária, para um sistema de sucção do leite de 45 mil até 48 mil litros por hora”, diz Juliano Antonio Nogueira Silveira, gerente de operações de leite da Itambé. “A capacidade de armazenar o leite nos novos veículos é de nove mil litros, 12,5% a mais que os veículos da frota anterior.” Nos tanques, há também um novo sistema de vedação e isolamento para manter o produto resfriado até a chegada na fábrica. “O estado de conservação do leite na coleta é o item mais importante no processo produtivo”, diz Silveira. Exposto às condições ambientes, algumas horas após a ordenha, o leite cru está sujeito à proliferação de bactérias e células somáticas – colônias formadoras de bactérias. Diminuir esses organismos que deterioram a qualidade é a principal questão levantada na IN 51. “Se a normativa entrasse em vigor neste ano, como previsto, as novas regras excluiriam pelo menos 95% dos produtores de leite do País, que agora contam com mais um ano para se adequarem”, afirma Silveira. Os novos caminhões, mais potentes, devem reduzir entre duas e três horas o tempo necessário para um percurso de 300 quilômetros de linha de coleta. “Tivemos ainda uma redução de 36% em nosso custo por quilômetro rodado”, diz Silveira, que não revela os valores absolutos. A atual frota da Itambé conta com 250 caminhões tradicionais de coleta, que percorrem cinco mil quilômetros por dia. Hoje, o custo por quilômetro rodado está acima de R$ 2.

Frota: os novos caminhões têm capacidade para transportar entre quatro mil e cinco mil litros

Para a Iveco, o mercado de caminhões destinados ao agronegócio está cheio de oportunidades de crescimento, graças aos sucessivos recordes na produção agrícola. “Aproximadamente 30% de nossas vendas de veículos chamados de extrapesados são feitas para empresas que atuam no agronegócio”, diz Marcelo Bouhid, gerente de marketing da Iveco no Brasil. Em 2010, a Iveco comercializou cerca de 200 mil caminhões, com capacidade acima de 2,8 toneladas. “Neste ano, o volume de vendas deve ser superado em pelo menos 5%.”

A consolidação do segmento de PVE é outra tendência, de acordo com Helen Lúcia de Lúcio, gerente de logística da Iveco. “Cada vez mais, a indústria vai produzir em parceria com os clientes e a área rural é um deles”, afirma Helen. O departamento de customização da montadora, que começou a operar no ano passado, representou 20% da demanda por veículos leves e 12% dos pesados vendidos nas concessionárias da Iveco, que ao longo de 2010 entregou 16 mil caminhões customizados no País.