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Máquinas emperradas

Após uma explosão do setor no início da década, as montadoras amargam queda nas vendas e na produção. Mas o quadro deve melhorar

Máquinas emperradas

Em baixa: o mercado de máquinas agrícolas caiu 17%, no primeiro semestre deste ano Divulgação

No final de abril, o engenheiro agrônomo Ireneu Possamai, de 55 anos, viajou mais de 1,5 mil quilômetros entre Campos Lindos (TO) e Ribeirão Preto (SP) para visitar a Agrishow, uma das três maiores feiras de tecnologia agrícola do mundo. Ao contrário da maioria dos agricultores, que estão celebrando a safra recorde de grãos 2014/2015, Possamai estava decepcionado com a perda de rentabilidade da sua produção de soja e milho, afetada pela falta de chuvas na região Norte do País. O desânimo, no entanto, não foi suficiente para impedir que ele saísse da Agrishow com uma colheitadeira CR 8090, da New Holland, no valor de R$ 1,25 milhão. “Aproveitei a taxa de juros de 4,5% ao ano do Banco da Amazônia”, diz Possamai, que já tinha duas colhedeiras menores. “Se fosse apenas pelas condições econômicas, eu teria adiado o investimento.”

O relato acima resume bem o atual momento do setor de máquinas agrícolas. O cliente está ressabiado e só concretiza a compra quando vê um benefício financeiro. Por isso, após um crescimento de 50% nas vendas e na produção, no período entre 2010 e 2013, as montadoras passaram a colher resultados ruins. Em 2014, o mercado caiu 17% e, no primeiro semestre deste ano, encolheu mais 25%, em relação ao mesmo período do ano passado. Embora uma retração possa ser considerada um ajuste natural, após um forte período de crescimento, não é possível ignorar o cenário conturbado no País. Para a maioria dos analistas e executivos do setor, o agronegócio não conseguirá passar incólume pelo  momento político e econômico. Bafejados por anos consecutivos de super safras, os agricultores estão com o bolso cheio, mas cautelosos na hora de investir. “O mercado de máquinas agrícolas está muito contaminado pela crise de confiança”, diz Ana Helena de Andrade, vice-presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (leia pág. 46).


“Fizemos ajustes internosde produçãoe focamosem ações no varejo” Alexandre Blasi, diretor da New Holland

No curto prazo, as montadoras tiveram de se adaptar ao cenário nebuloso, controlando estoques e enxugando o quadro de funcionários. “Fizemos ajustes internos de produção e focamos em ações no varejo”, diz Alexandre Blasi, diretor comercial da New Holland, que pertence ao Grupo Fiat. No primeiro semestre, as vendas de tratores da marca caíram 23,5% e as de colhedeiras, 21,8%, desempenho, ainda assim, melhor que o da média do setor. “Ganhamos fatia de mercado”, diz Blasi, que considera o arrocho fiscal duro, mas avalia “que o pior já passou”. Um dos fatores que justificam o otimismo do executivo em relação futuro é o Plano Safra 2015/2016. O programa prevê um volume de crédito 20% maior que o da safra anterior, num total de R$ 187,7 bilhões, com juros levemente mais altos.

Embora o volume disponível para o financiamento agrícola seja recorde, há uma pegadinha no plano. “Quase 95% do aumento de crédito ocorreu nas linhas com juros livres, que são captadas por meio de Letras de Crédito Agrícola ( LCAs), que, na prática, custam o dobro dos juros subsidiados pelo governo” diz José Carlos Hausknecht, diretor da consultoria paulista MB Agro. “Assim, haverá aumento no custo cambial e no custo financeiro.”

Para as montadoras, no entanto, a grande vitória foi a renovação das linhas do Programa de Modernização da Frota de Tratores Agrícolas e Implementos Associados e Colheitadeiras (Moderfrota), com recursos garantidos até julho do ano que vem. Isso evitará, segundo os executivos do setor, a falta de crédito no começo de 2016. Em janeiro deste ano, por exemplo, as linhas do BNDES ficaram travadas, derrubando as vendas. Apesar da alta dos juros do programa, que acompanhou o aperto monetário do Banco Central, o Moderfrota continua possibilitando o financiamento de até 90% das máquinas agrícolas, o que facilita a concretização dos negócios. “Essa linha fez o setor disparar nos últimos anos”, diz Orlando Merluzzi, sócio da MA8 Management Consulting Group. “Os juros subiram, mas continuam atraentes, e ainda há carência para pagar.”

VIRADA DE JOGO Após um primeiro semestre muito difícil, as montadoras apostam num ambiente mais favorável daqui para frente. As perspectivas climáticas para a safra 2015/2016, no Brasil, são favoráveis, assim como os preços das commodities no mercado internacional. Isso porque os Estados Unidos não devem registrar uma safra extraordinária, evitando uma sobrecarga nos estoques elevados de grãos. “Pode haver, uma quebra de safra de soja nos Estados Unidos, o que recuperaria o preço”, diz Carlito Eckert, diretor comercial da Massey Ferguson, que acredita numa virada de jogo para as máquinas, em 2016.


“Pode haver uma quebra de safra de soja nos Estados Unidos, o que recuperaria o preço” Carlito Eckert,diretor da Massey Ferguson

Para os agricultores, o câmbio desvalorizado está encarecendo a importação de insumos para o plantio da nova safra de grãos, que pode superar o recorde de 206 milhões toneladas, registrado na safra 2014-2015. No entanto, como a perspectiva é de estabilidade ou de alta do dólar até o período da colheita, no ano que vem, o impacto cambial será nulo ou positivo para o bolso do agricultor. Já os fabricantes de máquinas esfregam as mãos diante da possibilidade de ganhar espaço no exterior. “O dólar caro restabelece nossa competitividade na exportação”, diz Eckert, da Massey Ferguson. Os empresários também estão de olho nas eleições argentinas, marcadas para o fim deste ano. A Argentina, que era o principal cliente brasileiro, se afundou numa crise econômica. Com o fim do mandato da presidente Cristina Kirchner, há a expectativa de que as trocas comerciais entre os dois países fluam.

Problemas conjunturais à parte,  é inegável que o agronegócio, que representa cerca de 20% do PIB brasileiro, é o único setor da economia que ainda consegue brilhar e, de quebra, salvar a balança comercial, como vem ocorrendo há muitos anos.  É de olho nessa pujança que as montadoras continuam a apostar no País.

“A crise é de confiança”
Ana Helena de Andrade, vice-presidente da Anfavea

O que explica a queda de 25% no primeiro semestre?
Tradicionalmente, o primeiro semestre é pior do que o segundo semestre. Porém, em 2015, o mercado de máquinas agrícolas está muito contaminado pela crise de confiança. Os fundamentos do agronegócio não justificam essa queda. Existe financiamento e as taxas de juros são atraentes, basta comparar com a taxa básica (Selic). A crise é de confiança.

As vendas recordes dos últimos anos não foram exageradas?
Não, pois nós temos um baixo índice de motorização. Além disso, há desgaste nas máquinas, que precisam ser renovadas. Portanto, não é correto dizer que o mercado atingiu um teto e que, a partir de agora, só haverá reposição. Nós temos muito espaço para o investimento crescer. Basta comparar com outros países que utilizam muito mais tratores em relação às áreas agricultáveis. A França, por exemplo, tem a mesma produção de tratores que o Brasil, que tem uma área agricultável muito maior.

Qual setor tem potencial para comprar máquinas?
A agricultura familiar tem baixa motorização. Assim que a confiança voltar, os pequenos produtores vão investir. A safra 2014/2015 foi muito  rentável, pois o câmbio ajudou.

O dólar caro dificulta a próxima safra?
Sim, por isso a prioridade do agricultor é o custeio, a plantação. Primeiro vai comprar defensivos, fertilizantes, sementes. Depois, ele investirá.

A exportação de máquinas pode aliviar o setor?
Não. A Argentina é o nosso principal cliente. No entanto, as vendas para lá  desabaram e, agora, o Paraguai assumiu a liderança no ranking de importadores.

Quando o setor de máquinas agrícolas retomará atrajetória de crescimento?
A curva já mudou em junho e acreditamos em números melhores no segundo semestre. Evidentemente,  não será suficiente para salvar o ano. Em 2016, já deveremos ter um ano positivo.