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Morango com sabor de axé

Agricultores da Chapada Diamantina, uma das regiões de maior altitude do interior da Bahia, vão intensificar a produção da fruta para abastecer o mercado nordestino

Morango com sabor de axé

Altas temperaturas durante o dia, e baixas à noite, são ideais para o morango, uma cultura típica de minifúndio. No Brasil, as principais áreas de produção que atendem a esses dois quesitos estão em Minas Gerais, São Paulo e no Espírito Santo. Esses Estados cultivam 95% da produção nacional de morango estimada em 133 mil toneladas por ano, em 3,7 mil hectares, segundo dados da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural. Os outros 5% da produção provêm de áreas exóticas para a cultura, entre elas a Bahia, um Estado identificado pelas suas altas temperaturas praianas, mas que deseja entrar no mapa dos grandes morangueiros do País. Há dois anos, pesquisas sobre o cultivo da fruta na Chapada Diamantina vêm sendo realizadas pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa Semiárido), em Petrolina (PE). A Chapada, que tem Lençóis como principal município, a 400 quilômetros de distância de Salvador, é uma região turística de 38 mil quilômetros quadrados, no centro do Estado, onde está localizado um dos mais importantes parques naturais do País. “O morango pode fortalecer a agricultura baiana”, afirma o secretário da Agricultura da Bahia, Eduardo Salles.

Por causa da altitude, entre 800 e 1,2 mil metros em relação ao nível do mar, a região tem vocação natural para produzir morangos de alta qualidade durante todo o ano. Segundo a Embrapa, essa seria a maior vantagem competitiva em relação aos principais polos produtores do País, que conseguem cultivar a fruta em apenas 80 dias do ano, a exemplo de Minas Gerais, produtor de 54% do morango do Brasil. São 72 mil toneladas por ano, em 1,7 mil hectares cultivados entre maio e julho.

Para o secretário de Agricultura baiano, o estudo da Embrapa abre uma oportunidade de negócio no Estado, de forma organizada e consistente. “Agora, a ideia é criar parcerias entre os pequenos produtores e as agroindústrias, para viabilizar o comércio da fruta”, diz Salles. Para dar início ao projeto, o governo colocou frente a frente o Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e a agroindústria Bagisa, com sede em Ibicoara, município da Chapada a 174 quilômetros ao sul de Lençóis. O resultado do encontro, realizado em junho, foi o compromisso da Bagisa em produzir a fruta e definir uma agenda para organizar os agricultores interessados em cultivar morango na região. A empresa já produz tomate, maçã e ameixa no interior da Bahia.

Segundo Nelson Kamitsuji, diretor de novos projetos da Bagisa, 15 pequenos produtores de Barra da Estiva, povoado próximo de Ibicoara, se inscreveram para participar do processo de aprendizagem e produção de morango. Em agosto, após as aulas, os produtores visitarão fazendas no Espírito Santo. “Com a parte teórica e prática, os fruticultores estarão prontos para o cultivo da fruta”, diz Kamitsuji.

Mudança: Pereira trocou sua fazenda em Minas Gerais para plantar morango na Bahia

Diversificação: Salles acredita que o Estado pode se tornar um grande produtor de morangos

Além da parceria com os produtores, a Bagisa já tem em Barra da Estiva uma área de pouco mais de um hectare para ser um campo experimental. As atividades devem começar até o fim do ano. “Não conseguimos antecipar a data por causa da estiagem no Estado”, diz Kamitsuji. Na área experimental podem ser cultivados 80 mil pés de morango. “Com os produtores-parceiros, o projeto pode atender à demanda de grandes centros de consumo, como Salvador, Recife, Maceió e mesmo cidades importantes do interior do Estado, como Feira de Santana”, diz.

A Bagisa quer replicar na região o que já ocorre em Morro do Chapéu, a 190 quilômetros ao norte de Lençóis. Nesse município, desde o ano passado 12 agricultores estão colhendo morango em dez hectares. Entre eles está Claudemir Cezar Pereira. Em quatro hectares, o agricultor colheu no ano passado 416 toneladas da fruta e deve repetir o mesmo neste ano. A produção por hectare, acima de 40 toneladas de fruta, é considerada excelente pelos técnicos da Embrapa. A experiência de Pereira no trato com a fruta veio dos anos em que era morangueiro em Minas Gerais. Há dois anos, em busca de melhores preços para a fruta, Pereira trocou os 2,5 hectares de Minas Gerais pela propriedade baiana. “No Sudeste, os compradores de morango não pagam mais do que R$ 4 pelo quilo da fruta”, diz Pereira. “Meu lucro era muito pequeno.” Na Chapada, esse valor pode dobrar. Na colheita do ano passado, Pereira chegou a vender o quilo da fruta por R$ 9. “Com preços assim, é possível ganhar dinheiro e ampliar o negócio”, diz. Em 2013, o agricultor passará a cultivar morango numa área quatro vezes maior que a atual. “Quero mandar essa fruta para todo o Nordeste”, diz Pereira.

Na Chapada: a região do morro do chapéu já produz morangos há dois anos

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