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Muita cria para parir

A inseminação artificial em tempo fixo tem levado a uma padronização do gado destinado ao abate, melhorando a gestão das fazendas de pecuária

Muita cria para parir

Ganhos: técnica de IATF é a saída tanto para multiplicar a rentabilidade do produtor como para a melhoria genética dos animais Divulgação

Na fazenda Brasil, propriedade do grupo AFB, no município de Barra do Garças (MT), a criação do gado nelore é o melhor exemplo de que a alimentação, aliada a um plano de reprodução controlada, gera resultado. A fazenda é uma das sete propriedades do grupo que pertence ao carioca Gilberto Sayão, 45 anos, do fundo de investimentos Vinci Partners, que vem utilizando intensamente a Inseminação Artificial em Tempo Fixo (IATF), técnica na qual os cios das fêmeas são sincronizados para que emprenhem todas ao mesmo tempo. Ela é o meio para uniformizar a boiada e conseguir bônus por qualidade de carcaça na hora do abate de suas crias. Não por acaso, foi da fazenda Brasil que na última safra saíram 280 toneladas de carne destinada a abastecer a Cota Hilton, volume equivalente a 3% das 9,3 mil toneladas exportadas para a Europa. “Foi o maior embarque que já fizemos para esse mercado”, diz o veterinário Rogério Peres, diretor de planejamento da fazenda Brasil. “Para o ciclo 2016/2017, esperamos exportar ainda mais.” Criada em meados da década de 1970 para abastecer hotéis de luxo e boutiques, a Hilton é um nicho que remunera acima do mercado, mas exige peças de carne uniformes, de bom acabamento de gordura e macias. Na última safra, a tonelada estimada para a cota chegou a US$ 11,4 mil, valor 33% acima do preço da carne commodity vendida a US$ 8,6 mil, de acordo com a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec).


“Tomei a decisão, há três anos, de não mais apostar as fichas em fêmeas com idade acima de 30 meses” Fernando Machado,
dono da fazenda Nova Querência

Peres diz que a uniformização das carcaças vem mudando o padrão do gado na fazenda de 46 mil hectares, dos quais 33 mil hectares são de pasto para 52 mil bovinos. Desse total, 18 mil são fêmeas em idade de reprodução, inseminadas com genética angus ou nelore, entre os meses de agosto e outubro. “É a IATF que me permite a previsibilidade de minha produção de gado”, afirma ele. “Estamos forçando o rebanho para que um maior número de fêmeas emprenhem logo no início da estação de monta, garantindo bezerros de melhor qualidade”. Na fazenda Brasil, a taxa de sucesso de fecundação de fêmeas nelore jovens, com idades de até 18 meses, é de 47% logo na primeira tentativa de inseminação.


Rebanho especial:
todas as 18 mil matrizes da fazenda Brasil são inseminadas, garantido a produção desejada, inclusive pelos europeus

No País, a idade média de uma fêmea de primeira cria é de 30 meses. Para o pesquisador José Luiz Moraes Vasconcelos, da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade Estadual Júlio de Mesquita (FMVZ/Unesp), de Botucatu (SP), o esforço dos pecuaristas em inseminar fêmeas jovens, forçando a precocidade do rebanho, tem trazido resultados. A taxa de prenhez na primeira tentativa de IATF, que é mais difícil de obter do que em fêmeas de mais idade, e portanto maduras para a reprodução, vem crescendo nacionalmente na última década. “Estamos monitorando fazendas que na estação de monta de 2015/2016 chegaram a uma taxa média de quase 52%”, diz Vasconcelos. Os dados fazem parte de um estudo do Grupo Especializado em Reprodução Aplicada ao Rebanho (Gerar) que completou uma década neste ano. Atualmente, o Gerar reúne 250 profissionais, entre técnicos pecuários e veterinários, para discutir métodos reprodutivos em fazendas de gado de corte. O grupo acompanha e avalia os resultados de 1,2 mil fazendas, entre elas a Brasil, nas quais 2,1 milhões de fêmeas já passaram pela IATF. Se fossem inseminadas em um único ano, esse volume de animais corresponderia a cerca de 1% do rebanho nacional de 212,3 milhões de bovinos. Não há estatísticas oficiais sobre o uso de IATF no País, mas os técnicos do Gerar estimam a aplicação em cerca de oito milhões de animais. “Claro que há um avanço da técnica no País, mas que tem tudo a ver também com um bom manejo nutricional e uma boa genética”, diz Vasconcelos. Há cerca de uma década, estimava-se a utilização da IATF em cerca de 4,5 milhões de vacas.


“É a IATF que me permite a previsibilidade de minha produção de gado” Rogério Peres, diretor de planejamento da fazenda Brasil

Para estimular o aumento dessa prática, anualmente o Gerar realiza uma série de encontros, com o apoio da multinacional de saúde animal Zoetis Brasil, uma subsidiária da americana Zoetis, antiga Pfizer Saúde Animal. Neste ano, o ciclo começou em Bonito (MS), no final de julho, e termina neste mês, depois de passar pelos Estados de Mato Grosso, Rio Grande do Sul, São Paulo, Goiás, Maranhão e Minas Gerais. Mauro Meneghetti, veterinário e gerente da linha de Cria Bovinos da Zoetis, diz que nesse circuito é possível identificar produtores com índices de sucesso na IATF muito acima da média, principalmente em rebanhos de médio porte, onde é possível um controle mais fino da técnica. “Há produtores com dados excepcionais na IATF, conseguindo taxas de prenhez de 82% nas fêmeas jovens”, diz Meneghetti.


Equilíbrio: um bom manejo nutricional aliado a uma boa genética tem feito a diferença nos ganhos da fazenda Brasil, em Barra do Garas (MT)

É o caso da fazenda CB, de São Marcos (RS), do criador Antônio Volmar Benato, que no ranking do Gerar de 2016 ficou em primeiro lugar com 82,1% de taxa de prenhez. Quem está na busca desse mesmo índice é o veterinário Fernando Machado, 48 anos, dono da fazenda Nova Querência, de Anastácio (MS). No ano passado, a taxa em sua fazenda foi de 65% de prenhez. “Tomei a decisão, há três anos, de não mais apostar as fichas em fêmeas com idade acima de 30 meses”, diz Machado. “Passei a usar a IATF com mais intensidade nas novilhas de 18 meses.” Hoje, metade de seu rebanho de quatro mil matrizes emprenha um ano mais cedo. A fazenda ficou mais rentável porque passou a girar seu estoque de gado mais rapidamente. No ano passado ele abateu 1,5 mil animais da raça brangus e faturou R$ 7 milhões. “A IATF garante retorno, mesmo considerando um custo médio para o uso da técnica de R$ 60 por animal”, afirma Machado. “Se estou ganhando dinheiro com isso? Só digo uma coisa: hoje quero comprar mais uma fazenda. Acho que isso já responde à pergunta.”