Negócios

Multiplicação sem milagre

A produção de peixe em fazendas é a aposta do País para atender à crescente demanda pela proteína

Em todas as esferas do agronegócio, a imagem do Brasil projetada há décadas como o futuro celeiro do mundo está se tornando cada vez mais visível aos olhos de investidores. Ano após ano, o aumento da produtividade agrícola tem sinalizado que o País caminha rumo a dar novos saltos de crescimento. A aquicultura é um exemplo disso. Enquanto países produtores e consumidores em potencial de pescados, como os asiáticos, esgotam seus recursos naturais, o Brasil mostra que tem capacidade para suprir a crescente demanda mundial pela proteína. Afinal de contas, o País dispõe de 13% da água doce do planeta, 8,5 milhões de quilômetros de litoral e 216 reservatórios federais prontos para a atividade. “Se 1% da área desses 216 lagos entrar em operação, teremos o potencial da produção anual chinesa, de 60 milhões de toneladas”, diz Luiz Sérgio Nóbrega de Oliveira, ministro da Pesca e Aquicultura. “Do total de pescados produzidos na China, 50% vem da aquicultura.” Trocando em miúdos, aquicultura nada mais é do que a produção de peixes em “fazendas” de água. Em tanques, gaiolas e viveiros.

“O Brasil pode aumentar a produção de peixe para 20 milhões de toneladas por ano”, diz Oliveira, ministro da Pesca

Ainda de acordo com o ministro, um dos filões dos pescados do Brasil é o pirarucu, espécie que já despertou a atenção dos japoneses. Maior consumidor mundial de peixe, com 40 quilos per capita por ano, e tradicional na atividade pesqueira, o Japão atualmente não chega a acessar 50% do atum que pescava há 20 anos. O pirarucu que os japoneses querem é um dos maiores peixes de água doce do Brasil, que pode atingir três metros e seu peso pode alcançar 200 quilos. No entanto, a sua pesca é proibida. O peixe consta na lista do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) como espécie com risco de extinção. “Estamos em diálogo com o Ibama e espero começar 2012 com essa espécie liberada para criação em cativeiro”, diz Oliveira.

Para Estevão Campelo, diretor do departamento de aquicultura em áreas da União, do Ministério da Pesca, a viabilidade da atividade é comprovada, quando comparada à produção da pecuária nacional. “Enquanto em um hectare de terra é possível produzir mil quilos de carne bovina, em um hectare de espelho d’água a produção pode atingir 250 mil quilos de carne de peixe”, diz Campelo. De acordo com o ministério, o País tem potencial para aumentar a produção para 20 milhões de toneladas por ano e atender, além do consumo interno, a demanda externa, calculada em 100 milhões de toneladas em 2030. Apesar da produção, que está espalhada pelo País, e do consumo nacional ainda tímido, de 1,2 milhão de toneladas de pescados por ano, sendo 416 mil toneladas provenientes da aquicultura, e vendas anuais na ordem de nove quilos per capita, o governo federal está otimista com o crescimento gradual da atividade. Para este ano, a produção deve atingir 500 mil toneladas, e até o fim de 2015, dobrar esse volume. O Ceará é o maior Estado produtor de pescados, seguido por Pará, Bahia e Santa Catarina. “A aquicultura é uma alternativa viável”, diz o ministro. As vendas nacionais de peixes em 2010 apresentaram crescimento de 2% em média em relação a 2009.

Espelho d’água

O Brasil possui

13% da água doce do planeta

8,5 milhões de km de litoral

216 reservatórios federais de água doce

Lagos artificiais: 216 reservatórios estão aptos à produção de pescados em viveiros, tanques e gaiolas

Segundo o ministro da Pesca, que considera a aquicultura uma janela de oportunidade, já que o pescado é responsável por um déficit de US$ 1 bilhão na balança comercial, a atividade deve contar ainda com desoneração de impostos, pelo menos no que se refere à ração, como ocorre na cadeia produtiva de outras proteínas animais. “Além disso, nos próximos cinco anos, esperamos operar 40 dos 216 reservatórios.” Para isso, é necessário um aporte de R$ 500 milhões. “Conversas com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), para que linhas de crédito destinadas à aquicultura sejam introduzidas em seu portfólio, também estão em andamento”, diz.