Negócios

A nova rota do Café

Depois de investir R$180 milhões em infraestrutura potuária, a Bahia quer aumentar a exportação direta do grão e atrair os produtores de frutas, soja e algodão

Por décadas, o café cultivado na Bahia foi considerado um produto de qualidade inferior. Para exportar o grão, a única saída era pelo porto de Santos, em São Paulo, depois de ser misturado a cafés de melhor qualidade para formar blends de padrão internacional. Mas, nos últimos cinco anos, os baianos mudaram a rota do café. A saída agora é caseira: o grão baiano ganha o mundo pelo porto de Salvador. A mudança foi fruto do trabalho dos produtores, que investiram na qualificação da cadeia produtiva e conseguiram um salto gigantesco no padrão do grão. No ano passado, foram exportadas 25,4 mil toneladas de café, das quais 16 mil toneladas saíram para a Europa e pouco mais de nove mil toneladas para a América do Norte. A exportação de 2011 ficou em 17,3 mil toneladas. “A Bahia é dona de uma produção agrícola competitiva e crescente, e o porto de Salvador está preparado para atender a essa nova demanda”, diz Demir Lourenço, diretor do terminal de contêineres da Bahia (Tecon Salvador), administrado pelo grupo de origem baiana Wilson Sons, com sede no Rio de Janeiro, dono de um faturamento anual superior a R$ 1,3 bilhão. Para dar vazão à demanda por logística de exportação, em novembro do ano passado o grupo terminou a expansão do porto de Salvador, ao custo de R$ 180 milhões. Segundo Lourenço, com o investimento no terminal, hoje é possível receber os maiores navios do mundo, com 60 metros de largura e cerca de 300 metros de comprimento. “Em 2011, um navio podia esperar até 24 horas para atracar”, diz Lourenço. “Agora, todo navio atraca em, no máximo, uma hora após a sua chegada.”

De acordo com Patrícia Iglesias, gerente comercial do Tecon Salvador, a ideia é convencer os exportadores de que escoar a safra pelo porto é mais vantajoso. “Estamos estudando o mapa de produção baiana e todas as oportunidades de atração de cargas”, diz Patrícia. A Bahia, por exemplo, é a segunda maior produtora de algodão do País, com 1,2 milhão de toneladas na safra 2011/2012. Mas, hoje, a maior parte da fibra exportada pelo Estado ainda sai pelos portos de Santos, em São Paulo, e Paranaguá, no Paraná.

Os executivos da Wilson Sons também querem apostar na chamada conteinerização da soja. Em vez de a oleaginosa ser transportada a granel, em navios com capacidade entre 45 mil e 60 mil toneladas, ela pode sair do País em contêineres de 25 toneladas. A novidade facilita a logística de distribuição, o embarque é mais rápido e o risco de contaminação do grão é baixo.

O sistema é adequado, por exemplo, aos pequenos produtores, principalmente aos de soja orgânica. “O Tecon também quer atrair esse tipo de carga”, diz Patrícia. Nesta safra, a Bahia está produzindo quase quatro milhões de toneladas de soja, o sexto maior volume do País. As exportações têm ficado em torno de 2,8 milhões de toneladas do grão por ano. No ano passado, saíram do Tecon de Salvador apenas 22 toneladas do grão com destino ao porto de Yokohama, no Japão.

Para o presidente da Associação dos Produtores de Café da Bahia (Assocafé), João Lopes Araújo, não tem lógica o Estado exportar através de outros portos se há um porto bem equipado em Salvador. “Exportar pela Bahia gera recursos na economia local e para o produtor”, diz. Escoar a safra via Salvador também significa redução de custos para os produtores que cultivam no Mapitoba, sigla da região que compreende o sul dos Estados do Maranhão e do Piauí, mais o leste do Tocantins e o oeste da Bahia. Dessa região até o porto de Santos, por exemplo, são 1,6 mil quilômetros por rodovia, contra 900 quilômetros para Salvador. No caso do algodão, a mudança de rota pode representar uma economia média de quase R$ 700 por contêiner exportado. “Também somos competitivos para cargas geradas em Sergipe, no norte de Minas Gerais e no Espírito Santo”, diz Lourenço.

Até o momento, a adesão mais significativa para o porto de Salvador, de um produto que sempre teve alto valor agregado, foi a das frutas produzidas no Vale do rio São Francisco, região responsável por mais de  90% das exportações brasileiras de uva de mesa e de manga. Parte da fruta escoada pelo porto de Pecém, no Ceará, está migrando para o porto baiano. No ano passado, o volume noTecon Salvador cresceu 42%, totalizando 142 mil toneladas, ante 86 mil toneladas em 2011. “Os produtores e tradings estão vendo as vantagens do porto de Salvador”, diz Patrícia.

No caso dos cafeicultores, é esse o caminho planejado para continuar crescendo nos próximos anos. Para agregar valor, além da qualidade, segundo o presidente da Associação dos Cafeicultores do Oeste da Bahia (Abacafé), Dhone Dognani, até o fim de 2013 a região terá o registro de Indicação Geográfica (IG) do Café do Oeste da Bahia. O documento, emitido pelo Instituto Nacional de Propriedade Industrial, garante a origem do grão e agrega valor ao produto. “Com o IG podemos conquistar mais consumidores”, diz. A associação, com sede no município de Luís Eduardo Magalhães, reúne cerca de 40 fazendas que produzem mais de 500 mil sacas de café por ano.