Negócios

O chá da Olimpíada

A erva-mate ganha espaço para matar a sede dos atletas na Rio 2016 e os produtores vislumbram uma vitrine mundial para a bebida

O chá da Olimpíada

Na pista: a Leão, marca da Coca-Cola, vai distribuir 1,38 milhão de garrafas para os atletas e delegações dos países Divulgação

O cultivo da planta nativa Ilex paraguariensis, a popular erva-mate, tem nos fumegantes chás a sua mais completa tradução. No imaginário popular, é difícil dissociar a figura de um gaúcho de sua cuia de chimarrão, o chá da erva. Encontrada em grande quantidade apenas em países do Sul, como Brasil, além de Argentina e Paraguai, ela também pode ser uma bebida refrescante e um estimulante mental e físico muito saudável. Para mostrar as suas qualidades, a erva-mate marcará presença nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, entre os dias 5 e 21 de agosto. A gigante Coca-Cola, que faturou US$ 44,3 bilhões no ano passado e é uma das patrocinadoras oficiais do evento, distribuirá 414 mil litros da bebida, o equivalente a 1,38 milhão de garrafas de 300 ml, para os cerca dez mil atletas de 200 países e suas equipes técnicas que estarão no Brasil. Além disso, o chá será vendido ao público nos quiosques de alimentos. “É a melhor campanha de marketing que se pode fazer para a erva-mate”, diz Bolívar Assis, 64 anos, produtor dessa cultura há 44 anos e proprietário da ervateira Polimate, no município de Turvo (PR). “Assim, podemos fazer com que a bebida ganhe mais espaço lá fora.” Nos últimos dez anos, Assis investiu R$ 3,5 milhões para beneficiar a sua produção e a de outros 120 agricultores paranaenses. “Não tive medo de investir porque acredito na alta do mercado da erva-mate”, diz ele. Hoje, ele fatura R$ 800 mil por ano com o beneficiamento de seis mil toneladas de folhas, mas espera utilizar toda a capacidade de sua ervateira, atualmente no patamar de 12 mil toneladas.


Paladar: para Flávio Camelier, da Coca-Cola Brasil, a diversidade da linha de bebidas é o foco durante a Rio 2016

A euforia de Assis tem um motivo: as exportações de erva-mate vêm crescendo continuamente nos últimos cinco anos. Segundo dados do Ministério da Indústria e Comércio, o País saiu de 33,4 mil toneladas vendidas no exterior em 2011, para 36 mil no ano passado, um crescimento de 7,8%. Em valores, o desempenho foi maior: US$ 101,5 milhões no ano passado, 66,4% a mais do que cinco anos atrás. Além de uruguaios e chilenos, estão entre os maiores apreciadores da erva-mate brasileira os americanos, os alemães, os espanhóis e os franceses. O Brasil é o maior produtor mundial, com 160 mil hectares colhidos principalmente nos Estados de Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul. A produção anual é de um milhão de toneladas de folhas verdes destinadas ao processamento, com cerca de 90% desse volume destinado ao chimarrão, onde a erva é consumida quase in natura. Os 10% restantes de sua versão torrada são destinados ao chá ou o extrato de mate, processado para a infusão ou pronto para beber. É exatamente este último tipo que a Coca-Cola quer promover durante os Jogos Olímpicos Rio 2016. Flávio Camelier, vice-presidente da Coca-Cola Brasil para os Jogos Olímpicos Rio 2016, diz que a ideia é dar opção ao consumidor. O chá que será distribuído em embalagens de até 300 mililitros pode ser mate puro ou com um toque de frutas, entre elas o limão, o pêssego e o maracujá. “A bebida pode atrair diferentes paladares e estilos de vida”, diz Camelier. “Nos jogos, teremos produtos com açúcar, zero e light, e os chás para compor um conjunto de bebidas esportivas com os sucos e as águas.”


Euforia: Bolívar Assis, da Polimate, em Turvo (PR), diz que levar o chá mate aos jogos  pode estimular ainda mais as exportações

A ação da Coca-Cola para promover a erva-mate pode ajudar sua cadeia de fornecedores, hoje de cerca de 2,5 mil agricultores que entregam, por ano, 12 mil toneladas da erva para a Leão Alimentos e Bebidas, com sede em São Paulo. A empresa, uma das marcas da Coca-Cola, é a responsável pelo processamento e o envasamento de chás, sucos e bebidas energéticas para a companhia no Brasil. Para o engenheiro agrônomo Maurício Ferraz, gerente de Planejamento e Desenvolvimento Agrícola da Leão, predomina nessa cadeia os pequenos produtores que desfrutam de suas reservas legais de matas, de onde a erva-mate é colhida. “Em geral, são agricultores que plantam soja, milho e trigo, e que possuem em suas propriedades as árvores da erva-mate”, diz Ferraz. “O cultivo da erva é um complemento da renda.” No País, 64 mil hectares da planta estão em matas nativas e 96 mil em áreas cultivadas. No mês passado, o quilo pago ao agricultor valia R$ 0,93 no Paraná, o maior produtor da erva, ante R$ 0,32 de cinco anos atrás, segundo a Secretaria de Agricultura do Estado. “Estamos falando de um grande salto de valorização para o agricultor”, diz Ferraz. “Mas, se estimularmos essa cadeia de valor, os produtores podem ganhar ainda mais e a Olimpíada é um bom caminho”.


Valorização: nos últimos cinco anos, de acordo com Ferraz, da Leão, o preço da erva-mate tem aumentado, estimulando o produtor brasileiro