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O doce negócio da uva de mesa

O grupo JD produz no vale do rio São Francisco frutas sem sementes, apostando na preferência de um consumidor mais exigente

O doce negócio da uva de mesa

No campo: a fazenda Labrunier cultiva as frutas em quatro propriedades na região de Juazeiro (BA) e Petrolina (PE), um dos principais polos do Nordeste Divulgação

O rio São Francisco está entre os cursos d’água mais importantes do País. O “velho Chico”, como é chamado, corre por 2,8 mil quilômetros, atravessando Minas Gerais, Pernambuco, Bahia, Alagoas e Sergipe. Irrigado com suas águas, o sertão nordestino viu nascer um dos principais polos de produção de frutas, no entorno de Juazeiro (BA) e Petrolina (PE), municípios de quase 600 mil habitantes, ligados por uma ponte sobre o rio. Nessa região, o grupo JD, dono da fazenda Labrunier, está completando 28 anos de investimentos na produção de uvas de mesa, destinadas ao consumo in natura. São 880 hectares cultivados em quatro unidades localizadas em Casa Nova e Juazeiro (BA), e em Petrolina e Lagoa Grande (PE). Essas áreas produzem anualmente 20 mil toneladas de uvas, a maior parte sem sementes, um produto que caiu no gosto do consumidor. O grupo, de origem francesa, pertence à família de Jacques Defforey, um dos fundadores do Carrefour.  “Estamos satisfeitos com os resultados obtidos com a uva e vamos alavancar nossa produção em mais de uma tonelada por ano”, diz o agrônomo Arnaldo Johannes Eijsink, diretor do grupo JD, que também possui fazendas de gado em Mato Grosso. A meta é chegar em 2020 com a produção de 27 mil toneladas de uvas por ano, 35% acima da atual colheita.


No mercado: Eijsink, diretor do JD, diz que as pesquisas foram determinantes para a empresa conseguir a aprovação de
um público que exige produtos diferenciados

O grupo JD está entre os três maiores produtores de frutas do vale do rio São Francisco, ao lado da Special Fruit, do produtor Paulo Suemi, e da Queiroz Galvão Alimentos, que pertence a uma das maiores holdings do País na área de construção, siderurgia e exploração de óleo e gás.  Os investimentos de empreendedores nesse setor ajudaram a transformar o Brasil, com cerca de 500  plantas de frutas com potencial econômico, no terceiro maior produtor mundial. São cerca de 41 milhões de toneladas anuais, atrás de China e Índia. No ano passado, de acordo com a Associação Brasileira de Produtores e Exportadores de Frutas e Derivados (Abrafrutas), entidade que reúne 30 associados e 90% das receitas desse comércio, a renda para 650 mil tone-ladas embarcadas foi de US$ 750 milhões. Segundo José Eduardo Brandão Costa, diretor executivo da entidade, a boa produtividade da safra 2015, e também a valorização do dólar, sustentaram esse desempenho. “O câmbio do ano passado foi ótimo para a exportação”, diz Costa. A previsão para este ano é embarcar 700 mil toneladas, por US$ 850 milhões. Mas, o País tem potencial para ir além e é nisso que o grupo JD aposta. As uvas são o quarto grupo de frutas mais vendidas lá fora, atrás de mangas, melões e limões. No ano passado, foram 34 mil toneladas por R$ 71,1 milhões.

Atualmente, a fazenda Labrunier exporta 40% da produção, algo em torno de oito mil toneladas, para mais de 20 países da Europa, América do Norte, Oriente Médio e a da Ásia. “Estes mercados pagam mais por um produto de alta qualidade” diz Eijsink. No final do ano passado, o valor era de R$ 12 por quilo, ante  R$ 7 pagos no mercado interno, uma valorização de 60%.  No mercado interno, o grupo JD abastece grandes redes varejistas, como Walmart, Pão de Açúcar, Carrefour e Zaffari.  “Com muito trabalho, cada vez mais estamos aumentando a nossa presença em mercados diferenciados aqui e lá fora”, afirma Eijsink.

Para ganhar ainda mais mercado, o grupo JD vai em busca de variedades de uvas sem sementes que sejam resistentes às pragas e doenças, tenham sabor agradável e sejam mais tolerantes à chuva. Ao contrário do que pode parecer, a precipitação média na região frutífera do rio São Francisco pode chegar até mil milímetros anuais. As chuvas atrapalham o período de colheita, quando é fundamental que o clima esteja seco. O projeto de pesquisa do JD,  que foi iniciado em 2004, não tem sido fácil. “Os experimentos e pesquisas levaram cinco anos até acertamos o passo”, diz Eijsink. Atualmente, há 15 novas variedades em produção, entre elas a Sweet Celebration, Timco, Cotton Candy e Sweet Globe. Do total cultivado, 616 hectares são de novas variedades de uvas sem sementes.  “Como temos novidades todos os anos, isso desperta o interesse dos consumidores”, afirma Eijsink. Ele não diz qual a receita da empresa com a fruta, mas o valor estimado não está longe de R$ 2 bilhões, com base nos preços praticados no mercado.