Negócios

O doce semi-árido do mel

Em pleno agreste nordestino, há um pólo pujante de apicultura, que ganhará impulso com a maior processadora da América Latina

ANTÔNIO CARLOS DOS SANTOS: 20 anos dedicados ao mel

UM DOS MAIORES PRODUTORES DE MEL DO Brasil, o Estado do Piauí ganhou no dia 18 de setembro um presente que deve estimular ainda mais a apicultura na região. Localizada no município de Picos, a cerca de 300 quilômetros de Teresina, a Central das Cooperativas Apícolas do Semi-Árido, também conhecida como Casa Apis, foi construída para ser a maior indústria processadora de mel da América Latina, com capacidade para até duas mil toneladas por ano.

Instalada em uma área de mais de 11 mil metros quadrados, a Casa Apis funciona como uma central, que recebe o mel direto dos produtores e cooperativas e faz apenas o processamento, que nada mais é que uma filtragem para remover os restos de cera e alguns outros materiais, como asas de abelhas. Depois disso, o produto passa por uma desumidificação e finalmente por uma padronização de cor, fundamental para a comercialização.

A Casa Apis é uma idéia simples, mas que chega para suprir uma antiga carência do Piauí, que produziu nada menos que 4,3 mil toneladas de mel no ano passado – volume que deixou o Estado em segundo lugar no ranking de produtores do Brasil, atrás apenas do Rio Grande do Sul. Apenas a região de Picos foi responsável pela produção de mais de 60% do montante piauiense.

“Este trabalho de organização começou dois anos atrás, quando fizemos o diagnóstico das comunidades e conhecemos melhor as cooperativas. Começamos o projeto com apenas três cooperativas, mas hoje já estamos em oito e devemos crescer ainda mais”, explica Edmílson Nunes, diretor de produção da Casa Apis, garantindo que o trabalho está apenas começando.

“JÁ TIVE 800 COLMÉIAS, MAS O PREÇO ESTAVA BAIXO. AGORA, VOU VOLTAR À ATIVIDADE”

ANTÔNIO CARLOS DOS SANTOS: apicultor da região de Picos, no Piauí

A idéia principal, segundo Nunes, é vender o produto já acabado direto ao consumidor final, o que aumentaria ainda mais a renda dos apicultores da região. “Hoje, o mercado compra o nosso mel a R$ 2 o quilo, do produto bruto e sem qualquer tipo de acabamento”, diz Nunes. “Mas a Casa Apis vai agregar valor ao produto e a idéia é que o lucro volte direto para os apicultores porque nós não temos fins lucrativos; somos dos cooperados”, completa. O diretor da Casa Apis lembra ainda que o mesmo mel vendido por eles pode custar até R$ 36 o quilo nos supermercados, ou seja, 18 vezes mais do que o valor pago no pólo produtor de Picos.

Visando melhorar ainda mais a qualidade do mel da região, o governo federal está construindo também um Centro de Tecnologia Apícola ao lado da Casa Apis. O CTA tem como função capacitar os produtores locais, que em sua maioria aprenderam a trabalhar sozinhos e não dominam completamente o processo. Utilizando as técnicas corretas e as novas tecnologias disponíveis, pode-se conseguir até dobrar o volume de produção.

UNIDADE INDUSTRIAL: ao processar o mel, o lucro do produtor será maior

Todas estas novidades vêm agradando aos apicultores locais, que já fazem inclusive planos para aumentar a produção para a próxima safra. Antônio Carlos dos Santos, de 43 anos, é um bom exemplo. Após 20 anos dedicados à produção de mel, Carlinhos, como é conhecido, conta que nos últimos anos estava fazendo outros trabalhos para complementar a renda da família, mas agora está muito animado para voltar a trabalhar com as abelhas. “Eu tenho mais de 800 colméias, mas nos últimos tempos estava inviável viver apenas do mel. O preço estava muito baixo, não dava nem para pagar as despesas. Mas com a Casa Apis funcionando, eu voltei à atividade”, afirma o produtor, que inclusive trabalhou como eletricista na construção do local, tamanha a empolgação.

Ele conta que os preços já melhoraram muito. Antes, ele vendia a produção de uma colméia, que gira em torno de 37,5 quilos, por R$ 35. Agora, na Casa Apis, ele recebe R$ 57 pelo balde de 25 quilos. “Mas quando começarmos a envasar e vender direto para o varejo, o negócio vai melhorar ainda mais e o valor deve chegar a até uns R$ 80”, comemora o produtor.