Negócios

O doutor do feno

Referência na medicina, o endocrinologista Geraldo Medeiros Neto produz feno de alta qualidade na Fazenda Santa Suzana, em Porto Feliz, interior paulista

Todas as manhãs de sábado e domingo, lá pelas nove horas, o endocrinologista Geraldo Medeiros Neto manda encilhar um de seus cavalos na Fazenda Santa Suzana, em Porto Feliz (SP). Júpiter, um alazão mangalarga, ou Perfeito do Retiro, um tordilho lusitano, são os seus favoritos para o passeio matinal. É hora de percorrer os 90 hectares de pastos destinados ao alimento dos cavalos de raça dos haras da região, o principal polo de criação de cavalos do Estado de São Paulo. Na Santa Suzana, é feito o plantio das gramíneas destinadas à produção de um dos melhores fenos do País. Na cavalgada, o médico observa atentamente cada uma das 35 quadras do cultivo, avalia a evolução das culturas e proseia com Argemiro Teixeira, o administrador da fazenda. “É um hábito que me dá muito prazer”, diz Medeiros. Referência na medicina, com 11 livros publicados no Brasil e no Exterior, ele mora na capital e divide o tempo entre uma seleta clientela no consultório e aulas de pós graduação na Universidade de São Paulo (USP), na qual é professor sênior.

A primeira experiência rural de Medeiros foi na década de 1970 em Buri, no interior paulista, onde tinha uma fazenda para reflorestamento de pinus. Em 1974, surgiu a oportunidade de compra da propriedade em Porto Feliz. “Eram cinco fazendas que transformei em um único conjunto e batizamos de Santa Suzana em homenagem à minha esposa”, conta. Filho de advogado e político de Santa Catarina, Medeiros não conviveu com o campo na juventude, mas a mulher, Suzana Maria Pereira Lopes de Medeiros, descende de produtores rurais. “Pela linha paterna, ela é Marcondes Machado, de Pindamonhangaba (SP), barões do café do Vale do Paraíba”, diz Medeiros. “E na parte materna, descende de produtores de leite de Vassouras, no Rio de Janeiro.”

A primeira atividade da fazenda Santa Suzana foi a cana-de-açúcar, o negócio mais lucrativo da época. Administrada pela esposa, Suzana, a fazenda fornecia matéria-prima para a usina Santa Rosa, ali da região. O investimento na cana durou até o final da década de 1980, quando o filho Fábio sugeriu o cultivo de tifton 85, gramínea americana recémchegada ao Brasil. O objetivo era fazer do feno a atividade-fim da propriedade, conceito pouco desenvolvido no País na ocasião. “Naquele tempo, os haras usavam as áreas em que os cavalos não pastavam para a produção de gramíneas com essa finalidade”, lembra Claudio Haddad, professor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/ USP), de Piracicaba (SP). “O resultado foi uma inundação de feno de má qualidade no mercado.”

Hoje, a atividade ganhou status de lavoura nobre. Na Santa Suzana e em suas concorrentes, as pastagens recebem os mesmos cuidados que se dispensam às culturas de soja, algodão e milho, por exemplo. Preparação e correção de solo, calagem, adubação, controle de plantas invasoras e pragas são tarefas comuns. Na colheita, utiliza-se maquinário especial. E a armazenagem é feita em ambientes arejados e com luz para controlar a umidade. Tanto trato tem suas razões. O consumo do produto vem aumentando, principalmente em função da recuperação do mercado de cavalos. “Em um raio de 250 quilômetros da capital paulista, pela rodovia Castelo Branco, concentra-se 80% do PIB do cavalo no Estado”, diz Haddad.

“Queremos chegar a 140 mil fardos por ano”

Geraldo Medeiros Neto,

da Fazenda Santa Suzana

Estudos da Comissão Nacional do Cavalo (CNC), órgão vinculado à Confederação Nacional da Agricultura (CNA), em parceria com a Esalq, mostram a importância da região nesse negócio. São cerca de duas mil propriedades, entre haras, centros de treinamento, clubes hípicos e de corrida. E onde tem cavalo, tem consumo de feno. A seleção de gado leiteiro e de corte de elite – que também passou a ter no cardápio feno de qualidade – e as condições climáticas fizeram a região descobrir sua vocação para a produção de feno. Estima-se que já sejam 150 produtores que se dedicam exclusivamente à atividade. A produção é feita a partir de pastos que, se bem cuidados, são perenes. “O custo de formação da cultura é alto”, diz Medeiros, sem mencionar valores. Produtores de feno como Francisco Penteado Cardoso estimam que o custo atual para a formação dos terraços para implantação das gramíneas esteja em torno de R$ 1.700 por hectare.

Hoje, dos 300 hectares (138 alqueires) da área total da Fazenda Santa Suzana, 90 são reservadas para a produção de feno. O restante é dividido pela cana (em arrendamento) e o plantio de eucalipto, num negócio em parceria com a Suzano Papel e Celulose. A área destinada às gramíneas é dividida em 35 quadras (ou talões) que variam de tamanho. Ocupando 67% da área plantada, o tifton 85 domina a paisagem. O restante é de coast-cross. O jiggs ocupa apenas uma quadra. Mas isso vai mudar. Medeiros anda encantado com esta variedade. “É um capim extraordinário, uma fábula”, diz. Ele rende até seis cortes por ano”, enfatiza.

Fábrica de feno

Do corte da gramínea ao armazenamento dos fardos, São várias as fases de produção. Aqui, as principais etapas na Fazenda Santa Suzana

Há sete anos, a Santa Suzana adotou a irrigação por pivô central, que é feita a noite, e desde então vem aumentando o número de cortes. No verão os cortes são feitos com o intervalo de 45 dias, em média, o que permite produzir em janeiro e abril. Depois, em julho ou agosto, é feito o corte de inverno. Em outubro ou novembro, mais um corte. A média de produção anual é de 120 mil fardos. “Queremos chegar a 140 mil fardos por ano”, diz Medeiros. O feno tem preço menor no verão e início de outono, quando a produção é maior e o tempo favorece o crescimento das pastagens. Com 28 clientes fixos, além de compradores extras, cada fardo da Santa Suzana é vendido em média por R$ 5,50. No estoque, há 30 mil fardos para não deixar nenhum cliente na mão. Na prática, o negócio do feno é financeiramente bom o ano todo para a Santa Suzana. “É um cash business”, descreve o doutor Geraldo.