Negócios

O horizonte dos novos desbravadores

Atraídos pelas terras ainda baratas, os produtores estão abrindo fronteiras agrícolas em regiões ainda remotas do País, levando o sonho de construir grandes fortunas rurais

De olho na terra boa: apesar dos altos custos de produção, regiões de fronteiras agrícolas, como o Piauí, atraem produtores, investidores e empresas

A fazenda Condomínio União, localizada na cidade de Uruçuí, a 450 quilômetros da capital Teresina, no Piauí, é um desses lugares onde realmente é difícil de chegar. As estradas são esburacadas, o asfalto mais próximo está a mais de 100 quilômetros e, ainda por cima, todos os acessos foram construídos por um grupo de produtores que ali se instalou há dez anos. Para quem não conhece, pode até parecer que se trata de um fim de mundo qualquer, o típico lugar em que “Judas perdeu as botas”. Mas, se por um lado o trabalho é duro e a infraestrutura precária, por outro o lugar tem sido reconhecido como um novo eldorado da agricultura brasileira e tem atraído uma legião de produtores que para lá correm em busca de oportunidades. “Comprei meu primeiro hectare de terra por R$ 60”, relembra o produtor Altair Fianco, um dos proprietários da fazenda Condomínio União, que hoje chega aos dez mil hectares. Ele traça um plano ousado de crescimento, pensando até em dobrar de área num curto espaço de tempo. “Vou colher uma safra com uma rentabilidade de R$ 500 por hectare”, diz, orgulhoso, o produtor.

Se comparado a Mato Grosso, onde o lucro será de aproximadamente R$ 100 por hectare, as terras do Piauí chegam a parecer milagrosas. Fianco segue seu destino inspirado na história de desbravadores que num passado não tão distante fizeram história ao ingressar no chamado Brasil profundo e lá fizeram brotar a riqueza máxima da terra. Em Mato Grosso, maior celeiro de grãos do País, isso aconteceu entre as décadas de 1960 e 1970 e a história mais emblemática é a de André Maggi, pai do hoje governador Blairo Maggi, o rei da soja. André se tornou uma espécie de “lenda” no Centro-Oeste e as suas aventuras, dormindo em barracas de lona e mesmo na luta com índios “bravios”, até hoje ecoam nos corredores do que se tornou a maior trading brasileira, o Grupo Amaggi, com faturamento de quase R$ 2 bilhões ao ano. “É uma inspiração”, diz Fianco. E, assim como ele, centenas de produtores, em diferentes regiões do País, se entranham nas chamadas fronteiras agrícolas em busca de oportunidades que só estarão disponíveis para aqueles que possuem espírito empreendedor e coragem para arriscar. Mas isso não é o que pode se chamar de uma missão fácil, como se verá nas histórias a seguir.

Aposta em novas terras: Altair Fianco deixou arrendamentos em MT para investir no Piauí

O custo para abertura de um hectare nessa região é calculado em R$ 1.370, de acordo com dados do Sindicato Rural de Uruçuí. A maior parte das estradas que ligam as fazendas às rodovias foi construída pelos próprios agricultores, como é o caso do produtor Amilton Bortolozzo, que, ao lado do sobrinho Caio, toca a fazenda. Filho de agricultores da região de Araraquara, no interior de São Paulo, e junto com o irmão Sérgio, ele foi um dos pioneiros na agricultura do Piauí. “Chegamos aqui há 25 anos e não havia absolutamente nada. Nossa sede era uma lona de plástico”, lembra Amilton. A família fundou a Central Agropecuária Nova Era (Canel) e produz em 35 mil hectares no município de Uruçuí, sendo 20 mil hectares de milho e soja e 15 mil hectares de eucaliptos. “Temos uma agricultura altamente competitiva, que não deve nada para regiões mais desenvolvidas como o Sul e o Centro-Oeste”, afirma. “Mas, para escoar minha produção, os caminhões percorrem cerca de 300 quilômetros por estrada de terra, que eu mesmo tive que construir”, pondera.

Fontes: Conab/ Faepi/Faeti /Cepea e AgraFNP – Elaboração: DINHEIRO RURAL

Ao mesmo tempo que é um problema, a logística também é o que reforça a esperança para fazer não apenas do Paiuí, mas de outras novas fronteiras agrícolas, como Maranhão, Tocantins e Bahia, polos desenvolvidos de produção. A chegada da ferrovia Transnordestina, cujos investimentos somam R$ 5 bilhões, é vista como um divisor de águas para essas novas regiões produtoras. “O primeiro trecho deverá ser entregue até o final de 2010 e representará um grande avanço para a nossa agricultura”, revela o governador do Piaui, Wellington Dias, à DINHEIRO RURAL

R$ 1.370 É quanto se gasta para abrir um hectare de terra numa fronteira agrícola

Carlos Augusto Cunha: o presidente da Faepi diz que é possível produzir bem respeitando a natureza

Mas não é só a questão logística que empaca o crescimento dessas regiões. Outro ponto delicado é o aspecto ambiental, já que é preciso desmatar áreas para abrir espaço para novas lavouras. “Todas as áreas que estão sendo abertas possuem licenças, averbações legais e respeitam as Áreas de Proteção Permanente (APP). Mas há pessoas que não percebem que existe uma lei e que ela está sendo cumprida. Nós temos direito de desenvolver a nossa produção”, pondera o presidente da Federação de Agricultura e Pecuária do Estado do Piauí (Faepi), Carlos Augusto Cunha. Para ele, a chegada de produtores experientes é um ganho para a região. “Esses agricultores que estão aqui já possuem experiências em outras terras e, como aprenderam com os erros, são profissionais. As novas áreas do Nordeste estão sendo abertas da forma que deveria ter sido feita no Centro- Oeste”, provoca.

A questão ambiental também afeta novas fronteiras como no Estado de Roraima, um dos grandes produtores nacionais de arroz e onde a produção de grãos também vem crescendo a passos largos. “Hoje temos uma das maiores produtividades do País. São 60 sacas de soja por hectare”, comemora o produtor Genor Fachi, que há 30 anos deixou as terras da família no Rio Grande do Sul e partiu em busca de novas áreas. Dono de 1,8 mil hectares, ele produz arroz e soja. “O que emperra o nosso crescimento é a falta de segurança na legalidade das terras. Isso afugenta os investimentos.” O recente caso dos arrozeiros que viram suas áreas na Serra Raposa do Sol ser transformadas em reserva indígena ilustra bem os problemas daquela região. “Roraima possui cerca de 22 milhões de hectares disponíveis para o plantio. Mas em apenas um milhão de hectares há títulos de propriedades”, conta.

Áreas de abertura: nessas regiões, estradas precisam ser abertas pelos próprios produtores, que observam de perto todos os processos do negócio

Mesmo com esses entraves, a produção de grãos cresce a cada ano no Estado. A explicação está na alta produtividade, no bom preço recebido pela soja, cerca de R$ 42 a saca, e no baixo custo de produção, de pouco mais de R$ 1 mil por hectare. Aspectos como esses levaram o governo estadual a implantar um projeto que pretende incentivar a vinda de produtores de outros Estados, principalmente do Rio Grande do Sul, para assim elevar a produção de Roraima. “Nossa expectativa é de que em três anos aumentemos em 17 mil hectares nossa área de grãos, um crescimento de 30%”, conta o secretário de Agricultura de Roraima, Eugênio Thomé.

Medidas como essa não são inéditas. Nas décadas de 1960 e 1970, os produtores que recebiam seus títulos de posse em Mato Grosso e, anos antes, no oeste de Santa Catarina, tinham metas de desmatamento a cumprir. Quem não estivesse em dia com as obrigações poderia até perder a posse da terra.

Hoje, todas essas novas regiões agrícolas têm de começar da forma correta, caso contrário terão de se ajustar posteriormente, conforme explica Sérgio Pit, presidente da Associação dos Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba). Pit é cotonicultor em Luis Eduardo Magalhães, região ainda conhecida como uma promissora fronteira agrícola e que tem atraído grandes investidores de todo o mudo. “Havia muita desinformação e fizemos um pacto ambiental que engloba toda a região”, explica. Perto dali, em Riachão das Neves (BA), Ademar Marçal é outro produtor que trocou a tranquilidade de Mato Grosso do Sul pelo Cerrado ainda na década de 1990. “No primeiro voo de avião que fiz aqui na região, fiquei impressionado com esta imensa chapada”, relembra.

R$ 5 bilhões São os investimentos na transnordestina, que funcionará em 2010

Pioneiros: há 25 anos, Amilton Bortolozzo chegou ao Piauí e começou a montar a infraestrutura que hoje desfruta. Ao lado do sobrinho Caio Bortolozzo, produz soja, milho, arroz e eucaliptos em 30 mil hectares em Uruçuí

“Vendi tudo o que eu tinha, construímos uma casa pequena e mudamos para cá”, lembra emocionado. Hoje, Marçal é um dos maiores cotonicultores do Brasil e a sua fazenda, São Francisco, é um conhecido modelo de qualidade, exportando para os mais diversos países do mundo. Walter Horita também chegou há muitos anos em São Desidério (BA), após sair do Paraná em busca de novas oportunidades. Até corrida de um lobo-guará levou, certa vez. “As fronteiras agrícolas são importantes porque dão oportunidade de crescimento e aos poucos a consolidação dessas novas regiões vão acontecendo. Mas é preciso cobrar o governo para levar infraestrutura, porque senão nada acontece”, afirma. Horita, Marçal e Pit são exemplos de pessoas que apostaram em novas fronteiras e conseguiram sucesso em suas empreitadas.

De volta ao Piauí, Fianco, o agricultor que sonha em ser grande, faz as suas previsões. “Daqui a dez ou 15 anos, isso aqui será uma potência maior do que o oeste da Bahia é hoje.” Há dez anos, a área plantada no Estado era de pouco mais de 700 mil hectares e sua produção anual de grãos não ultrapassava as 500 mil toneladas. Hoje o agronegócio é parte fundamental da economia piauense, com faturamento de R$ 4,5 bilhões, 30% do PIB estadual. Com uma produção que cresce a uma taxa média de 14% ao ano, na safra 2009/2010 sua área deve chegar a um milhão de hectares. Isso é o que faz do Estado uma das principais regiões produtoras do Nordeste, ao lado de Bahia e Maranhão. “Nessas terras está o futuro da agricultura brasileira. Ainda temos mais de três milhões de hectares disponíveis para a produção”, exalta o produtor, que sonha em ser o André Maggi de amanhã.

Desbravadores do Brasil

Produtores que arriscaram a sorte no passado e colhem resultados no presente

 

 

O que o Piauí tem a oferecer ao campo?

Temos uma grande disponibilidade de terras. São cerca de seis milhões de hectares agricultáveis, que estão à disposição de quem se interessar em investir por aqui.

Mas a infraestrutura…

É uma região relativamente nova, mas estamos melhorando a cada ano. Estamos reformando as principais rodovias do Estado e fizemos um grande investimento para ampliar o fornecimento de energia elétrica. Todas as áreas de produção possuem luz elétrica.

A logística ainda espanta os menos corajosos, não?

Ainda há gargalos para serem resolvidos, mas a chegada da Transnordestina levará a produção do Nordeste para outro patamar. O Piauí será um dos maiores beneficiados, com acesso rápido para os principais portos do País.

Os benefícios fiscais oferecidos para os investidores compensam a falta de infraestrutura?

Estamos dispostos a ajudar as empresas que estiverem interessadas em investir no Piauí, tanto na parte tributária como na própria cessão de terras. Mas cada caso é um caso.

E na questão fundiária, há segurança nos títulos de terras?

Estamos fazendo um levantamento em todo o território, seja da União, seja do Estado, ou privado. Com isso, também acompanhamos as questões ambientais, que são muito importantes e não vamos deixá-las de lado.