Negócios

O Império da Família Maggi

Um dos maiores produtores de soja do mundo, o colosso do agronegócio se profissionaliza e aposta na internacionalização, com operações na América Latina, na Europa e na china

O Império da Família Maggi

ONDE TUDO COMEÇOU: a matriarca Lúcia, cercada pelos filhos (da esq. para a dir.) Fátima, Rosangela, Marli, Blairo e Vera, na casa de Rondonópolis, berço do grupo Maggi Marco Ankosqui

Uma aroeira de dez metros de altura foi plantada na entrada da sede do Grupo André Maggi, em Cuiabá, holding que controla quatro divisões de empresas ligadas ao agronegócio.

Sua sombra abriga um império que faz de tudo (ou quase): do plantio, processamento e comércio de grãos, produção de sementes, reflorestamento, pecuária, venda de fertilizantes, geração de energia elétrica, administração portuária, transporte fluvial, exportação e importação. No ano passado, o grupo faturou US$ 3,78 bilhões, 60,8% a mais na comparação com a receita de três anos atrás. O prédio de cinco andares, o coração dos negócios da Maggi, exibe espaços amplos, inúmeras salas e corredores largos e recheados de obras de artistas locais.

Ele foi construído e inaugurado no início deste ano, quando seu QG foi transferido de Rondonópolis para a capital de Mato Grosso.

Uma personagem ilustre, no entanto, resolveu não acompanhar a mudança, preferindo permanecer na cidade berço da empresa. Trata-se da matriarca Lúcia Maggi, viúva do fundador André Maggi, morto em 2001. Às vésperas de completar 80 anos de idade e com uma saúde de ferro, dona Lúcia é uma senhora de sorriso largo e opiniões fortes sobre tudo o que diz respeito aos negócios da família.

“Viemos para Mato Grosso, em 1977, porque acreditávamos na agricultura, como acreditamos hoje”, diz. “Ela sempre será o nosso elo forte.”

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As semelhanças são muitas entre dona Lúcia, que só aprendeu a dirigir um carro aos 44 anos de idade, e a árvore plantada em frente ao número 303 da avenida que leva o nome de André Antônio Maggi, em Cuiabá. A aroeira, uma espécie rústica, sobrevive em terras fracas do Centro-Oeste, resiste ao fogo, rebrota com facilidade e, além de tudo, tem propriedades medicinais.

O segredo da árvore são as raízes profundas. O segredo de dona Lúcia também parece ser o mesmo: no caso dela, laços profundos. “Sempre quis melhorar de vida, prosperar”, lembra. “Para isso, nunca tive medo de desafios e de criar vínculos com pessoas e lugares.” Neste ano, dona Lúcia também está comemorando os 35 anos do grupo Maggi. Ela é o ponto de convergência dos destinos da empresa e de seus cinco filhos.
Entre eles, o nome mais conhecido é o do senador Blairo Maggi (PR-MT), que por duas vezes foi governador eleito de Mato Grosso, em 2003 e 2007, e é o terceiro da prole que se completa com as irmãs Fátima, Marli, Rosângela e Vera.

Nenhum deles toma decisões sem antes pedir-lhe a bênção.A mudança da sede da empresa para Cuiabá não foi apenas uma transferência física.

Ela também marca o início de um novo momento do grupo: o da consolidação de executivos de carreira como os novos gestores máximos da empresa e a sua definitiva decisão pela internacionalização dos negócios. “Era preciso continuar o que o André começou”, diz dona Lúcia. “Hoje, os tempos são outros e as decisões do que é melhor para o grupo permanecem com o mesmo espírito empresarial que ele tinha. Mas elas precisam ser estudadas sob a ótica da modernidade.”


COMANDO À MODA DA CASA:
Loto (acima) assumiu a presidência, que era ocupada por Bongiolo,
agora à frente do conselho de administração

Para dar seguimento aos planos traçados para a empresa, dona Lúcia promoveu uma dança das cadeiras. Até o ano passado era ela quem presidia o conselho de administração. Para o seu lugar, foi escolhido Pedro Jacyr Bongiolo, que ocupava o cargo de presidente do grupo desde 2003. A antiga cadeira de Bongiolo passou a ser ocupada por outro executivo do grupo: Waldemir Ival Loto.

Em novembro, Bongiolo completa 35 anos como funcionário do grupo; Loto está há 23 anos na empresa. Ambos já receberam inúmeras propostas para trabalhar em outras companhias e a resposta foi sempre a mesma: não. Aliás, a dança das cadeiras tem um nome próprio: chama-se projeto Aroeira. “Na última década, o agronegócio no País entrou em um processo acelerado de crescimento, e a empresa também”, diz Blairo Maggi. “Por isso em 2010 foi criado o projeto Aroeira para ajustar o processo de administração da empresa e reter os talentos com tino focado nos negócios gerados no campo.”

Hoje, apenas um dos herdeiros, Leonardo Maggi Ribeiro, entre os 14 netos e os 23 bisnetos de André Maggi, é funcionário  da empresa. Todos os demais netos são empresários e tocam seus próprios negócios, em setores que vão de fazendas e laboratórios a restaurantes e casas noturnas em algumas capitais do País. “O Leonardo escolheu fazer carreira no grupo e segue as mesmas regras dos demais funcionários”, diz Blairo. Atualmente, o grupo emprega 3,9 mil funcionários, incluindo nessa conta as quatro divisões do grupo (agricultura, energia, exportação e navegação) e uma fundação criada em 1997, dedicada à prestação de serviço social.

TERCEIRA GERAÇÃO:
Leonardo Maggi Ribeiro (acima), no setor de novos negócios,
é 
o único neto de André Maggi que faz parte
dos 
funcionários do grupo