Negócios

O milagreiro do campo

A incrível história do empresário que produz uma das cachaças mais famosas do Brasil e foi capaz de descobrir lucrativos negócios rurais em cada milímetro das suas propriedades

“São muitas as oportunidades numa propriedade rural que podem se tornar grandes negócios

EVERARDO TELLES, dono do Grupo Ypióca”

O produtor de uma das marcas de cachaça mais consumidas no mundo é abstêmio. Ele não toma aguardente e não convém lhe oferecer nem mesmo um copo de cerveja. Só esse aspecto já transformaria o empresário Everardo Telles, dono da centenária aguardente Ypióca, num tipo especial. Mas o que o diferencia de outros homens da terra é a incrível capacidade de enxergar negócios rurais e multiplicar as potencialidades de suas propriedades agrícolas. Dos restos da cana usada para produzir a Ypióca, o cearense Telles, de 65 anos, criou uma ração especial usada para alimentar o gado. Assim nasceu o seu “boitel”, hotel bovino, que é um dos principais confinamentos para engorda de gado no Nordeste. De outros resíduos da cana, criou-se também uma fábrica de papelão, em que produz caixas para vender sua bebida. Nos lagos artificiais das fazendas, ele vislumbrou a oportunidade de criar peixes – além de vender a carne, alevinos e matrizes, ele pretende comercializar o couro dos animais. Das fontes naturais, surgiu uma das principais envasadoras de água mineral da região. O resultado de tudo isso é um grupo empresarial com receitas anuais de R$ 300 milhões e que não pára de crescer. “Quem souber observar bem sua propriedade, encontrará oportunidades que vão muito além da atividade principal”, ensina Telles.

ESPECIAL: colheitas próprias e de parceiros são assistidas pelos técnicos da Ypióca

No fundo, o milagreiro do Ceará descobriu há muitos anos uma tendência que está chegando com toda força ao campo: a de enxergar as propriedades como uma fonte de negócios que extrapola a atividade- fim. Exemplo disso é a multiplicação de empresários que hoje fazem a chamada integração lavoura-pecuária. São pecuaristas que se tornaram agricultores, ou vice-versa, para explorar melhor os recursos de que dispõem e, assim, ampliar o retorno das fazendas. “Sempre quis ir além da cachaça e sei que produzo um produto de grande qualidade, mesmo sem beber”, diz Telles. A Ypióca não só é uma das marcas mais tradicionais do País, como ainda um dos carros-chefe da exportação brasileira de aguardente. Segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, de todas as exportações desse tipo de bebida em 2008, cerca de 9% saiu das destilarias da família Telles. Para se ter idéia da força da marca, mesmo representando quase uma entre dez vendas para fora do País, a empresa reserva apenas 5% de sua produção para vender aos “gringos”. O próprio relacionamento da empresa com o mercado externo não vem de hoje. A Ypióca tornou- se a primeira cachaça brasileira a ser exportada, há exato meio século.

PEIXE GORDO: Paulo Telles, herdeiro do grupo, diz que retorno do investimento é de 30% ao ano

Mas para os produtores agrícolas o que há de inspirador na história de Everaldo Telles é seu faro para oportunidades rurais. Cada um dos negócios que ele foi descobrindo, a partir dos “subprodutos” das fazendas, se tornou rentável. Do total faturado pelo Grupo Ypióca, 30% vem dessas descobertas, o que representa nada menos do que R$ 120 milhões ao ano.

Exemplo emblemático é a empresa de peixes, a BR Fish. Para montar toda a estrutura foram desembolsados R$ 3 milhões e desse investimento nasceu o maior criatório de tilápias do Nordeste. A taxa de retorno, segundo o diretor responsável, Paulo Telles, filho mais velho de Everardo, é de 30% do investimento ao ano, cerca de R$ 300 mil. Inaugurada há quatro anos, os lucros já ingressam nos cofres do Grupo Ypióca. O negócio como um todo produz um milhão de alevinos por ano, vendidos a outros criatórios ou criados nos próprios lagos da família Telles.

BAGAÇO BOM: subproduto deu origem a ração de gado e até fábrica de papelão

Além disso, 60 toneladas de peixe são abatidas e matrizes, de alto potencial genético, também são comercializadas.

A estrutura ainda dispõe de uma fábrica de ração que, além de alimentar os próprios peixes, fornece para terceiros. O próximo passo será a criação de uma fábrica de bolsas, confeccionada a partir do couro dos animais. “É um mercado muito promissor, estamos estudando como poderemos colocar este plano em prática”, comenta. “Mas antes disso vamos aumentar a produção para quatro milhões de alevinos”, explica o gerente técnico Daniel Fuziki.

Paulo Telles também é responsável por cuidar de outros dois negócios criados por seu pai e explorado nas terras da família Telles. Aproveitando um grande acervo de máquinas e antigos registros do século XIX, Everar do Telles teve a idéia de montar o Museu da Cachaça, em que conta não só a saga de sua família, mas como a produção da bebida brasileira evoluiu ao longo dos últimos 160 anos. Para montar toda a estrutura, foram contratados profissionais responsáveis por estruturar alguns dos museus mais modernos de São Paulo. Hoje o local recebe mais de duas mil pessoas por mês, que pagam entrada de R$ 20.

Mas, mesmo assim, havia um problema. “As contas não fechavam e precisávamos fazer com que aquele espaço desse dinheiro”, explica Paulo. Mas, como para todo problema existe uma solução, o jeito encontrado foi aumentar o tamanho do negócio e, ao lado do Museu da Cachaça, utilizar uma enorme área ociosa e inaugurar um novo negócio: a fazenda de aventuras.

O segundo negócio criado tinha como idéia aproveitar a falta de destinos turísticos em lugares não praianos, como a própria Maranguape, sede do Museu da Cachaça. Foi quando nasceu a idéia de construir uma nova estrutura voltada para esportes com tirolesas, escaladas e outras atividades. Os investimentos consumiram mais de US$ 150 mil. Por ser novidade, o negócio já rendeu uma parceria com a empresa CVC Turismo, que começará a desembarcar milhares de pessoas ao mês para outras formas de diversão além das praias paradisíacas da região.

“Também vamos investir em eventos corporativos”, explica o executivo.

DANIEL FUZIKI: empresa de peixes poderá ser a maior do País em poucos anos

A criatividade para explorar cada centímetro da propriedade e aproveitar ao máximo as potencialidades existentes também levou o milagreiro da cachaça a multiplicar seus lucros com a criação de gado. A idéia era aproveitar o excedente do bagaço da cana, que deixava de ser usado para a geração de energia, e alimentar alguns animais como teste. O projeto vingou e hoje o empresário confina cerca de quatro mil cabeças por ano, fornecidas aos frigoríficos da região. A um preço médio de R$ 70 a arroba, o negócio fatura por ano algo em torno de R$ 5 milhões. Outra “sacada” do empresário foi criar o hotel para bois ou, como chama, “boitel”. Pecuaristas da região levam seus animais e, como pagamento, Everardo fica com 20% do ganho em carne de cana animal.

“Convertemos isso para animais e ficamos com algumas cabeças como pagamento, é um excelente negócio.”

PARA ENTENDER…

como funciona a estrutura de um dos maiores grupos agropecuários do Nordeste brasileiro

300 milhões de reais é o faturamento total da empresa, com 70% advindo da venda das diversas cachaças Ypióca

4,5 milhões de reais é o faturamento total da empresa, com 70% advindo da venda das diversas cachaças Ypióca

300 mil reais por mês é o faturamento da indústria de peixes, que pode ser incrementada com uma fábrica de couros

1,5 mil toneladas de papelão, feito de resíduos da cana, servem para embalar as bebidas da empresa

150 mil dólares foi o investimento feito na fazenda de aventuras. E este, é o maior barril do mundo, segundo Guinness Book

Para os próximos anos, a empresa também prepara outros lançamentos “diferenciados”. Em alguns dos tonéis mais antigos, há bebidas envelhecendo há 42 anos em barris de carvalho. O que será feito com esse verdadeiro “tesouro” ainda não é certo. Entre as possibilidades, segundo Paulo Telles, está a venda de garrafas numeradas para colecionadores, ou fabricação de blends com bebidas mais novas. Envelhecimento, aliás, foi uma das formas que os donos da Ypióca encontraram para se posicionar no mercado. Todas as bebidas passam por um envelhecimento mínimo de um ano, seja em barris de carvalho, seja em bálsamo, cuja coloração do líquido não se altera. As linhas mais “sofisticadas” são envelhecidas seis anos. “Por isso, conseguimos nos posicionar com um preço um pouco mais alto, até porque oferecemos um produto diferenciado”, comenta Paulo Telles.

IMAGEM: museu da cachaça guarda a história da família Telles

Com o aumento das vendas, mais investimentos estão programados e a tão falada crise não chegou para o rei da cachaça nordestina. Para o próximo ano, mais uma usina será inaugurada, com investimentos de aproximadamente US$ 100 milhões e um detalhe importante: na história da Ypióca, a empresa nunca se utilizou de um empréstimo bancário. Todos os aportes são realizados com recursos próprios, tirados do caixa da empresa. “Essa é uma espécie de tradição que estamos mantendo ao longo dos anos e nos confere uma condição muito favorável nestes tempos de dificuldade econômica”, revela Everardo Telles. Afora o “acabamento” da bebida, que pode passar por diversos processos de envelhecimento, a produção é praticamente igual à fabricação do etanol. A diferença se resume à concentração do teor alcoólico, 48% para a bebida e 98%, para o combustível.

Para ele, mesmo sem o seu toque criativo, o futuro do grupo estará em boas mãos. Embora seja a quarta geração a ter o controle do Grupo Ypióca, o empresário foi o primeiro a ter formação superior, no caso em agronomia. Todos os seus filhos, porém, futuros sucessores, são pósgraduados nos Estados Unidos e trabalham desde cedo na empresa. “Ao longo da história de nossa empresa, cada presidente deixou a sua marca e o meu caminho passou pela verticalização e diversificação; caberá a eles descobrir no que poderão ser diferentes”, diz. Mas até lá, ele garante.

“Tenho muita coisa para inventar.” E não é história de pescador.

EVERARDO TELLES: mais negócios rurais podem surgir pela frente

O HOMEM DO TOQUE DE OURO

Everardo Telles, presidente do Grupo Ypióca, explica como pretende continuar inventando novos negócios

DINHEIRO RURAL – O sr. se diz um fanático por modelos verticalizados de produção, num momento em que o mundo terceiriza tudo o que pode. Isso não é andar na contramão?

EVERALDO TELLES – Pode ter certeza que não. Temos um modelo muito específico de trabalho e podemos aproveitar ao máximo tudo o que produzimos. Não somos apenas uma fábrica de bebida, mas também produtores de cana-de-açúcar, carne e peixe, entre outras coisas. Por isso, nossos custos são diluídos entre todos os negócios e obtemos uma rentabilidade maior, o que nos oferece uma certa vantagem no mercado.

RURAL – Toda a sua área de cultivo é irrigada. Por que esta opção? TELLES – Quando se trabalha com cachaça, não se pode abrir mão da qualidade da cana. Aqui no Nordeste, temos problema com falta de chuva, mas temos uma reserva hídrica muito boa que nos permite irrigar. Cerca de 80% de nossa produção é própria e os outros 20% compramos de fornecedores dos quais nossos agrônomos acompanham as lavouras, as variedades da cana e o ponto de colheita.

RURAL – Por isso o sr. se diz “obsessivo” por tecnologia.

TELLES – Não chega a ser uma obsessão, mas sim uma busca constante. Em nossa parte pecuária temos poucos peões e algumas máquinas trabalhando. Toda a nossa colheita é mecanizada e não admitimos a hipótese de colheita manual. Esse tipo de trabalho carrega uma pecha muito negativa e não queremos isso associado à nossa empresa. Temos um trabalho muito forte na área externa e fomos a primeira empresa brasileira e exportar cachaça, então levamos essa parte muito a sério.

RURAL – Qual a tendência do grupo, ser mais uma empresa de bebidas ou uma holding voltada para agricultura?

TELLES – Temos que fazer as duas coisas bem. Sem a parte agrícola não faremos boas bebidas. Sou engenheiro agrônomo de formação. Portanto, o campo faz parte da minha vida e isso acaba se transmitindo nos negócios que fazemos aqui. Existe muita oportunidade para quem souber investir bem. No nosso caso, seja qual for a atividade, vamos sempre verticalizar a produção.

RURAL – Há interesse de partir para o etanol?

TELLES – Temos sim. Estamos estudando o assunto. Nossa próxima usina terá capacidade para produzir etanol, então podemos virar a produção assim que necessário. Nossa prioridade é sem dúvida ampliar a produção de bebidas, mas, se o mercado de álcool se mostrar favorável nos próximos anos, nada nos impede de também entrar nesse negócio.

RURAL – Ao longo das unidades de produção, no Museu da Cachaça, ou nos escritórios, há muitas referências aos seus antepassados. Isso significa que a empresa sempre terá algum familiar no controle?

TELLES – Para trabalhar no nosso grupo não é preciso ser parente e sim competente. Sou a quarta geração à frente dos negócios e o primeiro com formação superior. Meu pai não pôde estudar. Em compensação, meus filhos, que vão me suceder, puderam até estudar nos Estados Unidos. Então, provavelmente, estarão mais preparados para assumir os negócios quando a hora chegar.

RURAL – O que o senhor recomenda para produtores que pretendam aproveitar melhor suas propriedades rurais?

TELLES – Como disse, sou engenheiro agrônomo e por isso vejo o campo como uma fábrica de oportunidades. A mente do proprietário rural tem de estar aberta a novos desafios e, acima de tudo fazer os investimentos corretos. Em todas as nossas empresas, montamos uma estrutura profissionalizada, com metas a serem cumprindas e uma infraestrutura que dê as ferramentas para que nossos colaboradores busquem esse resultado. No fundo, não tem segredo…