Negócios

O reduto dos mega leilões

Na Estância Bahia, do matogrossense Maurício Tonhá, o martelo foi batido para a venda de mais 1 milhão de animais, na última década.

 

MAR DE BOI: o grande evento de Água Boa, em Mato Grosso, vendeu 40 mil animais este ano

Em qualquer fazenda do Mato Grosso, o pecuarista Maurício Tonhá é conhecido como o senhor dos leilões do Brasil. Desde 2001, quando realizou seu primeiro leilão, no município de Água Boa, ele já vendeu mais de 1 milhão de animais – o equivalente a duas vezes a população de Cuiabá, a capital e mais populosa cidade do Estado. A habilidade no tatersal (arenas de leilões) já rendeu a Tonhá uma fortuna. Só neste ano, o faturamento de sua empresa, a Estância Bahia, superou R$ 60 milhões, com a venda de mais de 71 mil animais, a um preço médio de R$ 927 por cabeça.

Os números superlativos, no entanto, não revelam toda a grandiosidade do império de Tonhá no mundo dos leilões. O empresário construiu sua reputação graças a seus três mega eventos no País, dois no Mato Grosso e um em Goiás, os maiores e mais concorridos do setor. Nesses locais, o empresário já leiloou quase 400 mil bois. Além disso, sob seu comando são realizados também outros 140 leilões de menor porte dos quatro cantos do Brasil. “Recebemos gente de todos os lugares interessada em comprar e vender bois”, diz Tonhá. “Conseguimos transformar Mato Grosso no principal centro nacional da pecuária.” Os números impressionantes da Estância Bahia garantem a Tonhá a superação de seus próprios recordes – ele, inclusive, consta no Guinness Book como o maior leiloeiro de todos os tempos, por vender 31 mil animais num único dia. No último dia 21 de abril, o dublê de pecuarista e leiloeiro bateu um novo recorde. “Acredite. Vendemos 40,9 mil bois antes do céu escurecer”, diz, entusiasmado, Tonhá. Ao que tudo indica, Tonhá pegou gosto por recordes. Após seis edições em Água Boa, Cuiabá entrou na rota dos leilões da Estância Bahia, em 2007. Logo no primeiro ano, foram vendidos sete mil animais na capital mato-grossense. No mês passado, o leilão superou a marca de 24 mil bois, ofertado por 50 fazendas e atraiu mais de 500 compradores. “Eu não esperava muito desse evento, era para ser algo menor e mais isolado”, afirmou o empresário. “Ago-ra, graças ao interesse de tanta gente, o céu é o limite.”

Entre os interessados estava o criador Primo Menegalli, um dos mais populares pecuaristas de Mato Grosso. Lote a lote, ele não tirava os olhos dos animais do curral, analisava a idade média do rebanho, o peso e o acabamento da carcaça. “Como compro em grande quantidade, preciso analisar o que quero levar para não perder din-heiro”, diz. O esforço deu certo. Menegalli arrematou 136 bezerros de oito a dez meses de idade e 378 garrotes de 20 a 24 meses, a um preço médio de R$ 1,1 mil por animal. O interesse de Menegalli se justifica.

 

Ele é dono de quatro fazendas no município de Barra dos Bugres, a 164 quilômetros de Cuiabá, e possui uma área de pasto de 11 mil hectares, onde engorda 12 mil bovinos por ano, para vendê-los a frigoríficos. Para ele, o megaleilão da Estância Bahia é a oportunidade ideal para conseguir animais de qualidade, em quantidade e com bons preços. “Além dessas facilidades, a Estância Bahia mantém os animais em confinamento até eu buscar”, diz Menegalli. “Isso é um grande diferencial.” Em 2010, quando o mercado de bovinos estava mais devagar, o pecuarista arrematou 2,7 mil animais no megaleilão de Cuiabá, um recorde para um só comprador. “Fazer uma compra desta proporção só é possível aqui, já que em outros leilões eu teria que retirar os bois no dia seguinte, o que inviabilizaria essa compra.”

O entrosamento entre Tonhá e os produtores é um dos segredos do sucesso da Estância Bahia. “Aqui os compradores sabem dos cuidados que temos nas negociações e com os plantéis de animais que aceitamos”, diz Tonhá. “É certeza de negócio.” Quando a empresa surgiu, em 1991, dez anos antes do primeiro megaleilão em Água Boa, seus planos eram modestos. O pecuarista queria ter apenas uma prestadora de serviços na área de confinamento, transporte de animais, compra e venda de insumos, entre outros serviços voltados à criação de gado. “O primeiro leilão veio da necessidade de compra e venda de bovinos dos clientes”, lembra Tonhá.

 

A ideia, agora, é expandir os megaleilões para os mais distantes locais do País. Nos próximos cinco anos, Tonhá pretende levar os grandes eventos para o Mato Grosso do Sul, Tocantins, Pará, além de outros importantes municípios criadores de gado em Mato Grosso, como Sinop. “Mato Grosso é, e sempre será, o principal centro da pecuária brasileira”, diz. Para serem grandiosos, os leilões da Estância Bahia cultivaram um relacionamento estreito e de confiança com os fornecedores. “Esse é um leilão de animais de alta qualidade”, diz Luis Ricardo Barbosa Barros, proprietário das fazendas Retiro e Toca Vaca, no município de Cáceres, a 234 quilômetros de Cuiabá. “Os compradores sabem que estão pagando por algo diferenciado.” Barros, que possui três mil hectares de pastos, e cria sete mil animais por ano, foi um dos maiores vendedores da edição deste ano da capital. Ele vendeu 1.440 bovinos, e conseguiu receber uma média de R$ 1,1 mil por animal, contra os R$ 900 que normalmente embolsa nas vendas diretas em sua fazenda. O pecuarista frequenta os megaleilões de Tonhá desde 2009, quando levou 250 animais. Ele gostou tanto dos resultados vistos desde então que pretende chegar à edição de 2013 com três mil bois para vender. “Aqui tenho a garantia de vender grandes quantidades rapidamente”, diz Barros. “É retorno certo.”

 

A fórmula de Barros para ganhar mais dinheiro com bovinos foi replicada por outros empresários do setor. Ricardo Arantes, dono da Agropecuária Nova Vida, possui cinco propriedades entre os estados de Rondônia e Mato Grosso. Juntas, somam 120 mil hectares de pastos. Ele mantém um plantel de 70 mil animais nas fazendas, e fatura por ano uma média de R$ 60 milhões com a atividade. “Participamos do megaleilão de Cuiabá pela primeira vez”, diz Arantes. “Trouxemos 700 animais, e conseguimos preços fantásticos”, diz. A Nova Vida conseguiu uma média de R$ 110 por arroba, contra os R$ 90 obtidos em Rondônia. E a expectativa de Barros para 2013 é transformar-se em um dos principais vendedores do leilão. “Vamos voltar, com certeza, e com muito mais animais para a venda”, diz Arantes.