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O sertão resiste à seca?

Acossados pela pior estiagem dos últimos 47 anos na Bahia, produtores de leite estão em busca de soluções para melhorar a produção, com a ajuda da Nestlé

 

POLÍGONO DA TRAGÉDIA: o verde exuberante da caatinga, na época das águas, se transformou em vegetação retorcida e queimada pelo sol

No início de maio, a conta era de quase nove meses sem chuvas no Polígono das Secas, uma área de 974,7 mil quilômetros quadrados que envolve boa parte de oito Estados do Nordeste, um pedaço de Minas Gerais, do Espírito Santo e Maranhão. Na Bahia, a estiagem já é considerada a pior dos últimos 47 anos, com 244 dos 417 municípios em estado de emergência. Nessa região, os agricultores perderam boa parte de suas produções de milho, feijão e mandioca. Para alimentar o gado que produz leite, resta do sertão verde da época das águas, desde o mês de março, uma vegetação retorcida e queimada de sol. Não fosse a seca, os arbustos e folhagens da caatinga, como o marizeiro, mororó, rompe- gibão, a jurema-preta, o engorda-magro, as mucunãs e cunhãs, estariam produzindo até quatro mil quilos por hectare de folhas e talos. “A seca que castiga o homem também o faz com os animais. Há sofrimento para todos nesta época”, diz Rita Boccato, produtora cultural e coordenadora do projeto Água no Sertão, no município de Pintadas, de 10,4 mil habitantes, a 260 quilômetros de Salvador. É nesse pedaço do Brasil, no povoado de Coração de Jesus, bem perto de Pintadas, que um grupo de produtores rurais tenta resistir ao flagelo climático.

Em dezembro do ano passado, por meio do Água no Sertão, criado pela subsidiária brasileira da Nestlé, a maior fabricante de alimentos do mundo, os pecuaristas receberam cisternas e açudes para armazenar a água da chuva. “Queríamos que já neste ano os produtores tivessem água suficiente para passar pela seca. Mas não é isso que está acontecendo”, diz Rita. “Mesmo assim, o importante é ter a estrutura para guardar água nos próximos anos.” A Nestlé entregou a 136 produtores 41 cisternas, entre novas e recuperadas, e 68 pequenos açudes para o gado beber água, as chamadas aguadas. Nos próximos anos, se estiverem cheios no início de uma seca, os açudes podem suportar até dez meses sem chuvas, enquanto as cisternas de até 16 mil litros de água ficam para o consumo humano.

João Dornellas, vice-presidente de comunicação corporativa da Nestlé, diz que o projeto Água no Sertão faz parte de uma plataforma mundial de responsabilidade social da companhia, chamada de Criação de Valor Compartilhado. “O objetivo é reduzir o impacto da longa estiagem sobre a produtividade dos pequenos produtores em regiões de seca”, diz Dornellas. Na região de Pintadas, a produção média dos sítios e chácaras é de 50 a 60 litros de leite por dia e representa 30% da economia local. O município não destoa do restante da Bahia, Estado que tem 80% de sua produção garantida por pequenos pecuaristas e é um poço de contradições. Apesar de ser o sétimo maior produtor de leite do País, com 1,2 bilhão de litros por ano, em quantidade de vacas ordenhadas, a Bahia ocupa a terceira melhor posição, com um rebanho de 2,2 milhões de fêmeas. Ou seja, a produção do Estado, por animal, é muito baixa. “Com água para o gado, esses produtores podem ter mais leite por vaca”, diz Dornellas.

O que parece apenas uma política social da Nestlé tem interesses que vão além da ajuda pura e simples aos produtores. A empresa precisa de fornecedores de leite com os quais possa manter uma parceria constante de entrega do produto. Trocando em miúdos, a Nestlé precisa do leite dos produtores da Bahia para suprir a necessidade de suas duas fábricas no Estado. Pintadas está a 140 quilômetros de Feira de Santana, onde se localiza uma das maiores unidades processadoras de alimentos da empresa. A fábrica foi inaugurada em 2007 e recebeu investimentos de R$ 200 milhões. “Nessa unidade produzimos Farinha Láctea, Nescafé e bebida em pó da linha La Fruta”, diz Dornellas. “Mas poderíamos produzir mais, comprando todo o crescimento da produção de leite da região.” A Nestlé opera outra unidade no sul do Estado, em Itabuna, onde processa leite em pó e em caixa longa- vida. Cada uma das unidades compra dos produtores uma média diária de 450 mil litros de leite. “Com o projeto Água no Sertão queremos que os pequenos pecuaristas da região estejam inseridos nesse imenso mercado e tenham renda com o que tiram da terra”, diz Dornellas. Existe espaço para isso acontece. Na Bahia, a produção de leite é insuficiente para o seu mercado interno. Nos últimos anos, o consumo tem ficado em 1,6 bilhão de litros por ano, 400 mil litros a menos do que foi produzido no ano passado.

Um dos beneficiados pelo projeto Água no Sertão é Antônio Marcos Santos Silva, dono de um pequeno negócio de captação de leite. Silva, conhecido como Tonho do Leite, recolhe o leite nas propriedades e o mantém em um tanque resfriador até o momento de enviá-lo ao Laticínio de Capela do Alto Alegre (Lacaa), que por sua vez encaminha o leite à Nestlé. No pequeno galpão onde Silva armazena o leite, a Nestlé trocou os encanamentos e melhorou a estrutura do lugar. “Com as benfeitorias, o leite se mantém com qualidade para ser transportado”, diz Silva. Normalmente, a captação do produto para a Lacaa é de quatro mil litros por dia no período das águas. Mas hoje Silva está recolhendo apenas 1,2 mil litros de leite. “Por causa do clima ruim, é muito difícil passar dessa produção.”

Os atores de uma história de luta para produzir leite em uma das regiões mais áridas do País

 

 

 

Nos fundos do empreendimento de Silva, a Nestlé construiu uma aguada comunitária em uma área da prefeitura para armazenar dois milhões de litros de água. Mas, por causa da seca, o novo açude ainda não ficou cheio em virtude das raras chuvas que caíram no fim do ano passado. “Nos próximos anos, quando a aguada estiver em plena capacidade, no momento que começar a faltar água nos açudes menores, os produtores poderão trazer o gado para beber água aqui”, diz Silva. Um dos produtores que apostam nessa possibilidade é Gecivaldo de Oliveira Sampaio, dono do sítio Coração de Jesus. Beneficiado com a limpeza de seu açude, ele diz que a aguada comunitária é uma segurança muito bem-vinda. “Se faltar água, vou poder correr para lá”, diz Sampaio. Atualmente, o produtor cria cinco vacas e entrega ao laticínio 11 litros de leite por dia, 72% a menos do que era produzido no primeiro semestre de 2011. “Estou tendo um prejuízo enorme”, diz Sampaio. “Mas, se tivesse água para o gado, isso não estaria acontecendo.”

Outros dois pecuaristas que tiveram seus açudes de pouco mais de dois metros de profundidade limpos pelo projeto Água no Sertão foram Albino Machado, dono do sítio Campinas Maracanã, e Ezequiel José de Lima, do sítio Lagoa da Getirana. “Fiquei satisfeito com o trabalho, pois é uma grande vantagem para mim”, diz Machado. “Por causa da limpeza, ainda tenho água para o gado e posso produzir um pouco de leite.” Com água no açude, Machado não se desfez de nenhum de seus animais, como já ocorreu em anos passados. Das vacas ordenhadas ele está tirando 50 litros de leite por dia, metade do que normalmente produz, mas mantém o rebanho de 40 animais e poderá voltar aos 100 litros de leite com certa facilidade.

A BAHIA PRODUZ 1,2 BILHÃO DE LITROS DE LEITE, MAS ISSO NÃO BASTA PARA O CONSUMO INTERNO

Lima, que vem lutando para não se desfazer de seus 13 animais alimentados com caroço de algodão e palma – o último dos recursos em tempo de seca -, diz que as cisternas e açudes podem alterar a vida no campo, mas não são suficientes. “As secas são sempre iguais, só muda sua intensidade”, afirma Lima, que prega uma preparação para os dias difíceis. “Essa deve ser nossa próxima batalha.”