Negócios

O seu chocolate é Cargill

Divisão de cacau da multinacional ganha espaço e procura novos fornecedores para ampliar a produção

Você já comeu chocolate da Cargill? Se por acaso sua resposta é “não”, existe uma grande chance de você estar enganado. Qualquer pessoa que tenha consumido chocolate das marcas Nestlé, Garoto, Kraft ou Arcor, com certeza experimentou o produto da multinacional americana. A unidade da Cargill em Ilhéus (BA) é a maior processadora de cacau da América Latina e fornece para empresas de peso, como as anteriormente citadas. A decisão de não ter uma marca própria para o varejo é estratégica. A Cargill não quer competir com seus clientes, a quem vende as matérias- primas para a fabricação do chocolate: liquor, manteiga e pó de cacau.

FOME: Saskia, diretora da Cargill, explica que a divisão se tornou um sucesso dentro da empresa

Por isso, no ano passado, a multinacional optou por investir no mercado de food service, ou seja, alimentação fora do lar, setor que cresce a uma taxa de 16% ao ano. A entrada oficial aconteceu em novembro de 2007, quando a unidade de Porto Ferreira (SP), voltada à produção de chocolates industriais e de compound (cobertura que é fruto da mistura de cacau em pó e gordura vegetal), entrou em operação. Um ano depois, a Cargill comemora o sucesso da empreitada e aproveita para divulgar a ampliação.

“Investimos US$ 5 milhões para colocar em operação a unidade de Porto Ferreira e vamos investir mais US$ 1,5 milhão para dobrar a capacidade fabril”, explica a holandesa Saskia Korink, diretora da Unidade de Cacau e Chocolate da Cargill Brasil e primeira mulher a assumir a dianteira de uma unidade de negócios na multinacional.

A linha de chocolates industriais para o setor de alimentação fora do lar recebeu o nome de Genuine, pelo fato de não ter gordura vegetal. Os produtos estão disponíveis em embalagens de 2,5 quilos nas versões ao leite e meio amargo. As barras de chocolate juntamente com as compounds passaram a integrar o portfólio de produtos da Unidade de Food Service da Cargill.

QUALIDADE: amêndoas de maior qualidade estão em falta no mercado, que procura novos fornecedores

“Nossa estratégia é chegar até padarias, confeitarias e sorveterias, estabelecimentos que trabalham neste canal”, explica Saskia. A boa notícia é que a demanda está aquecida. “Pegamos boa parte da Páscoa. Nos próximos quatro meses vamos trabalhar em função disso”, diz a diretora.

No entanto, a unidade de cacau da multinacional enfrenta o problema de falta de matéria-prima. Não há amêndoas suficientes para todas as fábricas que processam cacau no Brasil. Tanto que a Cargill importa cerca de 40% das amêndoas da Costa do Marfim. Não à toa, a Associação da Indústria de Processamento de Cacau (Aipc), que congrega os cinco maiores players do setor e também é presidida por Saskia, está implantando um programa que visa a melhorar a produtividade nas fazendas.

O projeto vai implantar 25 experimentos em fazendas de baixa produtividade e pretende provar que com um pacote tecnológico adequado é possível aumentar a produtividade. Por enquanto, a forma de a Cargill fidelizar produtores é por meio da assistência técnica e das filiais de compra na Bahia e no Pará. “Nosso diferencial em relação às concorrentes é o pagamento de um prêmio pelo cacau sem fumaça”, diz Saskia. O valor a mais é de R$ 2,5 pela saca de 60 quilos de amêndoas sem cheiro. De acordo com especialistas, o cheiro de defumado é comum por causa do uso de secadores a lenha, que com freqüência foram transmitindo o odor às amêndoas.

“Uma vez com fumaça, fica impossível tirar o cheiro. O problema no cacau é que há muitos atravessadores que passam nas fazendas, compram as amêndoas e jogam todas no mesmo bolo”, diz a diretora. A preocupação da executiva é com a qualidade. Afinal, a Cargill fornece para clientes ultra-exigentes, como a Kopenhagen. Mas os esforços têm dado certo. Hoje, a Cargill Brasil ex porta liquor, pó e manteiga para Argentina, Chile e México. A unidade de cacau brasileira é a segunda em grau de importância, atrás apenas da Europa. Além disso, o consumo de chocolate no mercado interno tem crescido a uma taxa de 5% ao ano, o que justifica, por exemplo, o investimento em food service.

QUALIDADE: amêndoas de maior qualidade estão em falta no mercado, que procura novos fornecedores