Negócios

Os reis da salada

Faça sol ou (muita) chuva, produtores da pequena Mogi das Cruzes, em São Paulo, inventam novas formas de produzir as hortaliças que alimentam o País

Truques: canteiros elevados são usados para salvar a terra da forte chuva

Os dois primeiros meses de 2010 entraram para história da cidade de São Paulo como os mais chuvosos. Segundo estatísticas do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), faltou 0,9 milímetro para o mês de janeiro bater o recorde histórico de 481, 4 mm registrados em 1947. Em fevereiro, a água continuou castigando não só a região urbana, mas também as zonas rurais localizadas em municípios vizinhos à capital paulista. Os mais prejudicados foram os produtores de hortaliças, lavouras de ciclo menor, mais suscetíveis a intempéries climáticas. A consequência foi sentida no bolso do consumidor, já que a saladinha ficou bem mais cara. De acordo com a Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp), as verduras tiveram um aumento de preço de 11,6% no primeiro mês do ano. O carro-chefe das altas foi o repolho (82,19%), seguido pelo espinafre (41,85%), pela alface (20,82%) e escarola (20,60%).

Como não podia deixar de ser, a chuvarada foi assunto recorrente em Mogi das Cruzes, principal cidade do “Cinturão Verde”, nome dado aos municípios que abastecem com verduras a região metropolitana de São Paulo. “A alta de preço não compensou a perda de produção de boa parte dos 1.500 produtores de hortaliças da cidade”, diz Ariane Teixeira, engenheira agrônoma do Sindicato Rural do município. No entanto, a perda foi menor para aqueles mais tecnificados e, em alguns casos, nem houve perda. É o caso da família Kimoto, que tem a alface crespa como estrela da lavoura, seguida pelo tomate sweet grape e pimentão. Na propriedade da família, o sítio Kobayashi, oito dos 32 hectares são destinados às hortaliças “Em janeiro, perdemos apenas 5% da produção de alface crespa”, diz Maurício Kimoto.

“A nossa região é íngreme, por isso usamos o plantio direto na palhada, que evita a lixiviação, aumenta a fertilidade do solo e não deixa que a chuva leve o adubo embora”, diz Terutika Kimoto, patriarca do clã. A vantagem fica evidente nos números: “Há sete anos, a gente plantava alface sem cobertura morta e sem reposição de microbiologia e a perda era de 30%”, diz Maurício. O sucesso da alface se repete com o pimentão, mas o diferencial na cultura é o sombrite. “O que afeta a planta são as gotas grandes, mas o sombrite as quebra em gotas menores que não impactam a lavoura”, explica Maurício. Além disso, a tela não deixa o granizo passar. Na parte térrea, os canteiros são altos, para proteger as raízes do excesso de água, e cobertos de plástico, o mulching, que evita o crescimento das ervas daninhas.

No sítio de Masaiuki Okuyama, a chuva causou um prejuízo de 25% nos nove hectares de alface crespa. Normalmente, o nível do rio Tietê em Mogi das Cruzes em janeiro é de 1,80 metro, mas neste ano ultrapassou os três metros. “Quem sofre é o consumidor, que come verdura ruim e paga caro”, diz Okuyama. Os pés de alface estão pequenos e, mesmo em feiras, o preço está alto: R$ 3 a unidade. “O jeito é plantar e pedir para São Pedro maneirar nas chuvas”, diz.

Luiz Yano também tem sentido no bolso as consequências do excesso de chuva. Por produzir em região plana, quando chove muito, a produção dos 2,5 hectares de hortaliças fica alagada. “Nesta época do ano, eu colho 50 caixas de verdura por dia, mas estou colhendo 25”, lamenta.

Na verdade, quanto mais tecnificado o produtor for, menores são os riscos de perda da produção. Por isso, pode valer a pena fazer as contas. O investimento em estufa gira em torno de R$ 40 a R$ 50 o metro quadrado. O sombrite com sombreamento de 30% sai em torno de R$ 2,80 o metro quadrado e 500 metros de mulching com 1,50 metro de largura custa R$ 175.

Quem faz uso dessas ferramentas, não tem do que reclamar. “Para mim, o mês de janeiro foi o mais lucrativo de todos que eu já plantei”, finaliza Maurício.

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