Negócios

Os trilhos do agronegócios

Com a chegada dos trens da ALL em Itiquira, (MT), a ferrovia ganha espaço no Centro-Oeste. Os produtores são os maiores beneficiados

CUSTOS: Vuolo acredita que, com a chegada da ferrovia, os fretes ficarão até 10% mais baratos

Neste mês, a América Latina Logística (AL), está inaugurando mais um trecho da Malha Norte AL, o projeto de ferrovia de 1,6 mil quilômetros entre o Porto de Santos, em São Paulo, e o município de Rondonópolis, no Mato Grosso. Os novos trilhos desse trecho vão de Alto Araguaia, na divisa de Goiás com o Mato Grosso – local em que o trem parava até o mês passado – e Itiquira, município matogrossense a 140 quilômetros do ponto final da malha. “Essa ferrovia tem um significado muito maior que o seu custo ”, diz Francisco Vuolo, secretário- extraordinário de Estado de Acompanhamento da Logística Intermodal de Transportes (Selit). “Ela viabiliza o agronegócio.”

Para colocar o novo trecho em funcionamento, a AL investiu R$ 40 milhões na construção do Terminal Intermodal de Itiquira, uma estrutura com capacidade de receber até 2,4 milhões de toneladas de grãos, óleo de soja e madeira, ao ano. “A ferrovia leva o Centro-Oeste a avançar em sua estrutura logística, o grande gargalo para escoar a produção”, diz Vuolo. As obras que levam a ferrovia do terminal até Rondonópolis também estão avançadas, e devem ser concluídas até o fim deste ano.

Resolver a logística de escoamento da produção da região é um desejo coletivo dos agricultores do Centro- Oeste. Desde meados da década de 1970, quando as grandes produções de grãos começaram a despontar no Cerrado, multiplicaram-se as mobilizações de políticos e produtores que reivindicavam a construção da ferrovia, o que levaria ao consequente barateamento do frete. É fácil entender a motivação desses movimentos. Nesta safra, o Centro-Oeste está produzindo 62,6 milhões de toneladas de grãos, volume equivalente a 33,3% das 157,8 milhões de toneladas esperadas no País. Os Estados do Centro-Oeste estão produzindo 13% a mais que os do Sul, que nesta safra devem colher 55,1 milhões de toneladas de grãos. Outro dado a ser considerado são os ganhos acelerados de produtividade, na última década. O Centro-Oeste ampliou a sua colheita em 102%, nos últimos dez anos, contra um crescimento de 63% do País, e de 28% no Sul. “Mesmo assim, é incrível esse Brasil que produz tanto demorar décadas a fio para ter um sistema logístico eficiente”, diz Vuolo. Boa parte dos Estados da região continuam a depender do transporte rodoviário, que responde por 75% do total transportado, para escoar as suas produções crescentes. Uma modalidade cara, ineficiente e demorada.

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Para Leonardo Recondo, superintendente da área de grãos da AL, quanto mais os trilhos avançarem para dentro do Centro-Oeste, mais condições são criadas para baratear o frete. Para ele, a ferrovia até Rondonópolis estabelece um de seus mais importantes fluxos de transporte, dada a capacidade de atrair carga. Hoje, a ferrovia transporta de Santos a Alto Taquari cerca de 12 milhões de toneladas de carga, das quais 80% são grãos. Com a chegada dos trilhos a Itiquira, esse montante aumentará para 14 milhões de toneladas e, quando chegar a Rondonópolis, o total deve subir a 20 milhões de toneladas. “Da carga total que a empresa transportará, por ano, 70% deve ser de grãos”, diz Recondo. Em todo o País, a AL transporta 9,2 bilhões de toneladas por ano, das quais 6,5 bilhões são de produtos agrícolas. Para os produtores do Centro- Oeste, a conclusão da ferrovia deve gerar uma economia de até R$ 25 por tonelada no frete, ao migrarem da rodovia para os trilhos. Segundo Vuolo, transportar soja de Rondonópolis até Santos, por rodovia, custa cerca de R$ 200 a tonelada. “Com a chegada da ferrovia acredito que esse valor caia em torno de 10%, o que ainda não é o ideal”, diz. “O ideal seria pelo menos 30%, mas isso leva tempo.” O Centro-Oeste é responsável por 20% das exportações brasileiras de grãos.